Maravilhoso anarquista. Há quase 12 anos todas as trincheiras da luta pela liberdade perderam o médico, terapeuta, escritor, dramaturgo e roteirista Roberto Freire, falecido em 23 de maio de 2008. Autor de 25 livros, dentre os quais Cléo e Daniel, Sem Tesão Não Há Solução, Ame e dê Vexame, Coiote e Eu e um outro, Roberto Freire, o bigode, foi seguramente um dos maiores intelectuais do país. Para a televisão, escreveu os roteiros da Grande Família e TV Mulher. A repercussão da sua morte, à época, não teve o destaque merecido. Freire era uma espécie de bad boy entre os círculos mais letrados deste Brasil, à direita e à esquerda.
Chutar o balde lhe dava prazer. E ele o fazia com maestria. Hoje faz falta alguém como Roberto Freire nestes tempos bicudos em que transar e gozar são quase sinônimos de subversão neste país que encaretou e ficou sisudo. A terapia da soma é uma das mais deliciosas lembranças do que de bom legou os anos 80.
Recordo quando tive o primeiro e único contato com o terapeuta aqui em Salvador. Era 1989. O Muro de Berlim ruíra. Terrível baratino. Neste ano fui convidado a conhecer um bar diferente, o Tesão e Cia, nas imediações da Praia de Jaguaribe. Cooperativa de jovens que nos finais de semana trabalhava com o bar e no restante dos dias oferecia terapias de grupo. Encantei-me pelo trabalho, ainda que polemizando. À época militante de uma esquerda mais ortodoxa, aquilo tudo poderia ser uma grande blasfêmia. Mas assumo que capitulei diante dos argumentos daquele “coroa”.
Roberto Freire me apontou caminhos de transformação social que jamais vislumbrara.
Quem foi esse cara? Livre militante de ideias libertárias, realizou sua formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise. Posteriormente, rompeu com a prática psicanalítica e se aproximou da obra do alemão William Reich (Análise do Caráter e Psicologia de Massas do Fascismo, entre outros livros), que trabalhou com a bioenergética nos anos 20 e 30 e morreu numa penitenciária da Pensilvânia, nos EUA, em 1957.
A partir da terapia reichiniana, Freire desenvolveu a proposta da terapia anarquista, a somaterapia, prática que, segundo ele, buscava liberar as potencialidades do ser humano.
Diz o terapeuta: “A pessoa saudável é aquela que vive sua originalidade se auto-regulando e buscando sua unicidade. Essa seria a finalidade biológica de cada vida. Toda vez que alguém não consegue expressar sua originalidade, a nossa espécie e o ecossistema em que vivemos perdem uma contribuição ao seu desenvolvimento, tornando-se, então, essa vida uma experiência inútil”.
A partir dos meados dos anos 80, quando o regime militar acenava sinais de fadiga, Freire iniciou a rede de somaterapia país afora. Dezenas de núcleos foram implantados em diversas cidades. O trabalho se dava mediante exercícios teatrais, jogos lúdicos e de sensibilização, criando uma série de vivências que possibilitavam ricas descobertas sobre o comportamento coletivo. A soma busca perceber como o corpo reage diante de situações comuns no cotidiano das relações humanas, a exemplo da agressividade, comunicação, sensualidade e a associação com os sentimentos e emoções. O objetivo é criar contraponto à massificação. Esta terapia se constituiu como processo com conteúdo ideológico explícito, o anarquismo. Que seus frutos proliferem neste momento em que as liberdades no Brasil estão por um fio.
Ao ler Os engenheiros do caos, do jornalista e escritor ítalo-suíço Giuliano Da Empoli, interrogo-me se Walter Benjamin era profeta e não filósofo. Distopias. Democracia se dissolve em diversas regiões do planeta estuprada por estratégias de tecnopolítica que têm transformado partidos em agências de marketing digital.
Debate político deu lugar à programação de algoritmos capazes de levar narrativas devidamente “empacotadas” aos eleitores. Os spin doctors têm minerado comportamentos de milhões nas redes sociais e portais de buscas para identificar fragilidades e expectativas dos indivíduos. Entregam o medo e os fazem refém dele alimentado suas emoções negativas. William Reich tinha razão.
Reedição do neofascismo se dá mediante enxurradas de fake news e teorias da conspiração, tornando-o o fenômeno de massa. Importante é vociferar, criar polêmicas inúteis, naturalizar o absurdo e se valer do escárnio fácil aos inimigos de ocasião. Para cada bolha de opinião um discurso costumizado e devidamente entregue. A finalidade é agregar eleitores sem que estes entendam que estão se constituindo num grande rebanho.
Movimento 5 Estrelas na Itália, Donald Trump nos EUA, Victor Orbán na Hungria e Jair Bolsonaro no Brasil são algumas das crias desse tenebroso roteiro.
Política deriva da cultura. Assim pensava o ministro da propaganda de Hitler, Josef Goebbels; assim ocorre com a pandemia neofascista do século XXI.
“Se, nos anos 1960, os gestos de provocação dos manifestantes visavam sobretudo atingir a moral comum e quebrar os tabus de uma sociedade conservadora, hoje os nacional-populistas adotam um estilo transgressor em sentido oposto: quebrar os códigos das esquerdas e do politicamente correto tornou-se regra número 1 de sua comunicação”, afirma Da Empoli.
Estes eventos, diz o jornalista, conformam, na interpretação deste comentarista, espécie de buraco negro da política capaz de sugar e anulá-la. Dispensa-se a democracia, “sistema” comandado por corruptos e ladrões de ilusões de um povo ordeiro e conservador que deseja viver em paz e protegido por um líder forte.
É o que o autor chama de “política quântica”. Sem macular esta teoria da Física, se vale dela para ilustrar modelos matemáticos de prospecção de tendências comportamentais de grandes grupamentos humanos, via big datas, com a finalidade de organizar manobras e estratégias de comunicação.
Opinião. O capitalismo assumiu o manche da nau nesta primeira década do século XXI. E as esquerdas, neste ano pandêmico de 2021, procuram se desvencilhar das cordas. Tarefa hercúlea. A aposta no conservadorismo de costumes é o combustível que move as esmagadoras máquinas neofascistas que agem como batedores do grande capital. No canto do ringue, algumas lideranças à esquerda têm se rendido às mesmas estratégias narrativas na vã ilusão de que podem disputar fatias deste eleitorado. Equívoco.
É o rabo querendo conduzir o cachorro.
Serviço
Os engenheiros do caos. Como os fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar as eleições.
A indicação ao Oscar do documentário Democracia em Vertigem, da jovem diretora Petra Costa, está levando pânico e medo a diversos setores políticos e artísticos que, à época, apoiaram a legitimidade do ato.
Constrangimento em escala internacional para muitos; ódio de outros tantos que tinham plena consciência do enredo que construíam e agora são revelados em detalhes.
Os reis estão nus.
A destituição da presidenta Dilma Rousseff é radiografada amiúde. Desde os bastidores das tramas políticas do palco nacional ao xadrez da geopolítica internacional. O petróleo era uma das cerejas do bolo que as águias ultraneoliberaliberais salivavam de desejo.
O golpe parlamentar de 2016 foi o terceiro turno das eleições de 2014. Os argumentos arranjados – pedalas fiscais etc – eram tão frágeis quanto uma casca de ovo. Mas tornaram-se rocha quando dentro do ovo a serpente do fascismo se inquietava para ocupar o espaço que solicitamente o ultraneoliberalismo começava a ceder.
Não sem razão o espernear de órgãos de imprensa como Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Rede Globo, Rede Record e outros grandes players das corporações de mídia do Brasil.
Apostaram na narrativa da mentira para apear Dilma da presidência. E o documentário os denuncia como mentirosos. Sim, mentiam.
Além da imprensa, a indicação de Democracia em Vertigem despertou a ira de partidos políticos.
Previsíveis os ataques ao filme ancorados em baboseiras infantis do baixo clero fascista-miliciano-neopentencostal. Fascistas não gostam de ciência, arte e cultura e têm horror ao conhecimento. Normal.
Vergonhosa foi a posição do PSDB, que saiu do túmulo como um zumbi babando de ódio para atacar a diretora e sua obra. O partido de Aécio Neves, candidato derrotado, vestiu carapuça e passou recibo público quando acusou a pancada pela indicação.
O senador Antonio Anastasia, do PSDB de Minas Gerais, foi o relator do impeachment no Senado Federal. Um relatório que, aí sim, é uma obra de ficção.
Deu pena a reação do grupelho de Fernando Henrique Cardoso e Aloysio Nunes. Derrotado quatro vezes consecutivas na disputa à Presidência, foi engolfado pelo fascismo em 2018 e está à beira de amargar mais uma derrota. E esta em escala internacional.
O PSDB foi o partido do golpe e avalista da escalada fascista no Brasil.
E retornará ao túmulo com direito a féretro sob o olhar do mundo.
Sorvendo o caldo noticioso nesta aurora de 2020, chega-se à assertiva constatação que a obra “Para onde vai a política brasileira?”, do cientista político Cláudio André de Souza, ressoa como inquietante vaticínio à situação do Brasil neste final/início de década. “A democracia brasileira está sendo testada em alto nível de complexidade”, assevera o doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor de Ciência Política da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), campus dos Malês, Bahia.
No momento que comento este livro, pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada enquanto fogos ainda saudavam a chegada do ano novo, indica que brasileiros que consideram a democracia melhor forma de governo diminuiu de 69% para 62% durante o primeiro ano da presidência de Jair Bolsonaro. Queda de sete pontos percentuais. Gradiente negativo de descrença concomitante à disparada do preço da carne, dos combustíveis e do gás de cozinha, entre outros itens, e após 12 meses de esmagamento dos direitos sociais.
Cenário complexo e perigoso. A História já nos deu fartas provas do que pode resultar esta combinação de fatores.
Recordo que quando Claudio me entregou o exemplar, novembro do ano passado, teceu o seguinte comentário: “verá que as pistas que aponto lamentavelmente é aonde estamos chegando”. Não fosse ciência em estado refinado diria se tratar de profecia em estado bruto.
Manuseando com maestria bisturi e robusto instrumental da sociologia política, André analisa a crise de representação que ganha corpo em 2013 com as chamadas jornadas de junho e culmina com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em abril de 2016. Posteriormente, este quadro reforça a narrativa da negação da política, fenômeno que alavanca o sentimento de contraponto ao “sistema” e leva a extrema-direita à vitória eleitoral em outubro de 2018.
Quais claquetes foram batidas à enredagem das cenas dos gigantescos e violentos protestos contra aumentos de preços dos serviços de transportes e, ao mesmo tempo, estabeleceram pontes com o início da perda de fôlego do projeto lulopetista, que ainda registrava momentos de pujança, embora já sob a batuta de Dilma Vana Rousseff? Quais espaços são ocupados pelas narrativas que negaram a política numa auspiciosa engenharia ultraneoliberal cujos representantes, não tendo players que lhes respondessem a contento às entregas represadas num mundo em crise econômica, apostaram suas fichas num combo que reuniu fascismo de costumes, instrumentalização dos órgãos de controle e desconstrução de valores democráticos e mesmo liberais?
O cientista observa estes cenários num panóptico que reúne robusta gama de pesquisas de opinião e referências bibliográficas de peso, enquanto pinça com rigor o espelhamento destes cenários a partir da agenda jornalística. Artigos, trechos de matérias, comentários de articulistas e jornalistas ilustram as densas argumentações e hipóteses levantadas por Cláudio André. Seja na busca de entender o esfacelamento do projeto encetado pelo Partido dos Trabalhadores e aliados a partir de 2002; seja para descortinar as tramas que entendem a necessidade de pôr fim ao modelo de conciliação de classes, concessão que permitiu, até certo limite, que agendas econômicas mais distributivas dessem feições a um projeto republicano num desenho de nação mais inclusiva.
Claudio André avalia o comportamento dos principais líderes políticos do país no tabuleiro de disputas nos últimos sete anos, sobretudo o fiador do projeto de conciliação de classes, o metalúrgico e posteriormente presidente Luís Inácio Lula da Silva, a quem o autor não declina de analisar com crivo distanciamento. Assim como não se esquiva de projetar possíveis cenários que não se concretizaram em decorrência de cálculos políticos balizados na ambição de projetos pessoais. Não obstante, crava os papéis que políticos como Ciro Gomes, Guilherme Boulos, entre outros, podem desempenhar à frente.
O fator Bolsonaro, conforme André, decorreu de forte mobilização (“não confundir com a participação”, alerta) da sociedade, embora não perca de vista o papel das redes sociais como rolo de impacto (uso do Whatsapp e disseminação de fake news), que se não foi determinante, agiu como forte catalisador de expectativas nas chaves de valores bem exploradas pela extrema-direita. Inimaginável que temas da Guerra Fria, a exemplo do anticomunismo visceral, retomassem imaginários de diversos grupos, o que ocorreu nas variadas formas narrativas catapultadas pelas fake news.
Da mesma forma que aponta as entranhas do poder nas gestões capitaneadas pelo PT de serem, de alguma forma, responsáveis pela paralisia dos movimentos sociais, arrefecendo-os numa espécie de acomodação deletéria à energia necessária que as ruas exigiam para rechaçar retrocessos, o que não ocorreu.
Para tal, o autor entende impreterível a reinvenção das estratégias da esquerda no Brasil ante o perigo, já em curso, do fascismo se cristalizar como fenômeno social. Neste quesito, pondera a real necessidade dos futuros pactos se estabelecerem ancorados em efetivos enfrentamentos e reformas e não arranjos orçamentários temporãs apenas com o fito de atender demandas pontuais. Roteiro que se constituiu em efemérides de gestão.
Declinar, por exemplo, das reformas política e tributária, melindradas pelo governo Lula quando o presidente conduzia a nau em céu de brigadeiro com cerca de 87% de popularidade, levou o projeto lulopetista à zona de conforto que talvez tenha obnubilado o percurso que poderia garantir couraça mais rígida ante as previsíveis investidas do grande capital, que ocorreriam inexoravelmente. Na disputa pela pouca farinha, todo o pirão, mais uma vez, foi reapropriado pelos senhores da casa grande.
Como retomá-lo?
Serviço:
SOUZA, Cláudio André. Para onde vai a política brasileira? Breve ensaio sobre a crise de representação e o pós-impeachment. Appris Editora, Curitiba, 2018.
Obs: o livro pode ser adquirido com o próprio autor.
Diego Lisboa em companhia de Evo Morales em viagem de campanha
Entrevista – Diego Lisboa
Estratégias de fake news para tumultuar o cenário e enganar a população, violência contra ex-integrantes do governo, discriminação contra as populações indígenas. A Bolívia, não muito diferente do Brasil, amarga o ataque a democracia e está mergulhada no caos político e econômico. Para entender um pouco o atual quadro desta nação andina, entrevistamos o experiente documentarista Diego Lisboa, que trabalhou na campanha à reeleição do então presidente Evo Morales. O profissional teve diversos contatos com o chefe de estado no período que se encontrava naquele país.
A Bolívia tem histórico de conflitos. Já registrou mais de 193 golpes de estado, inclusas as tentativas; vivenciou ditaduras como a do general Hugo Banzer; e em 2006 elegeu o primeiro líder indígena, o aimara Evo Morales, pelo partido Movimento ao Socialismo, o MAS. Após ser reeleito em outubro, Evo foi apeado do poder em novembro passado depois de quatro mandatos consecutivos, fato que convulsionou politicamente o país.
Lisboa, 36 anos, baiano, é formado em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV. Pensador inquieto, leitor voraz e ávido por conhecimento, o jovem cineasta já carrega densa bagagem atuando na comunicação política, além de outros segmentos da mídia. Trabalhou na campanha de Jaques Wagner para governador da Bahia em 2010; na do deputado federal Nelson Pelegrino para prefeito de Salvador em 2012; na pré-campanha de Hugo Chaves a presidente da Venezuela neste mesmo ano; na de Flávio Dino para governador do Maranhão em 2014 – quando o candidato comunista destronou a clã dos Sarneys -; na de Marcelo Freixo para prefeito do Rio de Janeiro em 2016; na de Lula/Haddad em 2018; e na de Daniel Martínez, candidato a presidente do Uruguai pela Frente Ampla em 2019. Neste final de ano Diego Lisboa nos deu a honra desta entrevista exclusiva.
Zeca Peixoto – Você atuou nesta última campanha de Evo. No decorrer do trabalho já se podia sentir que o processo democrático estava ameaçado?
Diego Lisboa – Fui diretor do audiovisual da campanha de Evo Morales e falarei do que tive conhecimento com as limitações inerentes à minha função. Quando cheguei à Bolívia o trabalho já estava em curso. Neste primeiro momento não tinha nenhuma percepção de que o processo democrático estivesse ameaçado. Porque tudo funcionava bem. A campanha política lá é diferente, é só de comercial, não tem o programa político em si (horários determinados por legislação para rádio e TV). Não se acompanha tanto as estratégias dos outros (candidatos), a não ser nas redes ou se ficar ligado na grade de comerciais. Não se tinha muita clareza disso. Todos tinham seus espaços na TV. Claro que nas redes sociais já se observava as mazelas das fake news, fenômeno que já antecedia o período eleitoral na Bolívia. Mas comecei ter percepção de que alguma coisa poderia ocorrer quando se acentuaram os questionamentos do 21F (referendo ocorrido em 21 de Fevereiro de 2016 no qual 51,3% se opôs à ideia de uma terceira candidatura de Morales, que não aceitou o resultado e recorreu ao Tribunal Constitucional, que, em 28 de novembro de 2017, invalidou o referendo com base na Convenção Interamericana de Direitos Humanos – que estabelece que todo cidadão deve poder “eleger ou ser eleito” e que, de acordo com a Constituição boliviana, tem precedência sobre o direito nacional –, a instituição abriu caminho para a terceira candidatura de Morales). Na reta final da campanha comecei a visualizar que os dois lados poderiam não aceitar o resultado. Lembro que conversava com a jornalista Silvia Colombo, da Folha de São Paulo, e tínhamos a percepção de que poderia acontecer algo. Na reta final já era perceptível este cenário.
Zeca Peixoto – Evo é um líder cocaleiro. Como observou as relações dele com as lideranças indígenas no decorrer da campanha? Havia desgaste?
Diego Lisboa – Tive oportunidade de presenciar alguns encontros de Evo com líderes. Chamávamos “O dia de EVO”. Chegava bem cedo e encontrava com o presidente no palácio do governo. As reuniões começavam às 5h30 da manhã. De lá, voávamos para alguns departamentos para discutir coisas específicas. Geralmente, inauguração de algum espaço, mas com reuniões políticas e contato com a população. Me parecia uma relação de muito respeito com esses líderes indígenas. E não só, mas também com governadores de departamentos que eram descendentes de indígenas. Conversas muito leves e descontraídas. Uma vez o vi endurecendo numa dessas ocasiões, mas numa relação bem amistosa. Não foram muitas estas situações. Vi também contato com ministros e outras autoridades. Mas sempre nos povoados que chegávamos havia lideranças indígenas dando apoio com recepções muito calorosas. Era muito interessante. Eles têm a cultura da guirlanda (colares de flores) e as índias sempre estavam com guirlandas nas mãos quando eles chegavam. Então, me parecia caminhar tudo muito bem no que diz respeito a relação com essas lideranças. Mas sentia desgaste com pessoas que não estavam no círculo do próprio Evo. Conversas com taxistas, motoristas de ônibus, nos botecos. Eu fazia sempre essa quali (pesquisa) pessoal. Percebia que havia um desgaste do presidente entre os próprios aimaras. As fake news (ou não) de que ele teria filhos fora do casamento tinham acertado em cheio a relação dele (Evo) com os aimaras mais conservadores, que entendiam que ter um filho fora do casamento os envergonhava. “Evo nos envergonhou”, diziam alguns. Terminada a campanha, fui a uma comunidade aimara mais distante e fora do circuito turístico. Se percebia nitidamente esse sentimento.
Durante sua estada na Bolívia, o documentarista teve diversos contatos com populares
Zeca Peixoto – Era perceptível alguma perda de apoio popular à gestão de Evo?
Diego Lisboa – Sim. Não estive na Bolívia em 2006 quando possivelmente refletia o nível de satisfação dos dois mandatos de Lula. Em 2019 creio que o nível de satisfação era similar ao início do segundo mandato de Dilma, já sem apoio popular mais consistente. Quando haviam as caminhadas organizadas pelo MAS (Movimento ao Socialismo, partido de Evo) tinha um número grande de pessoas, claro. No entanto, reparei que os que não eram “masistas” (não tinham ligação declarada com o MAS) e se encontravam nas suas casas, nas janelas, não se observava vibração. Era como um cortejo de militantes do MAS e a população assistindo sem envolvimento caloroso. Diferente de muitas caminhadas que presenciei com Lula, quando se observava manifestações espontâneas. Em La Paz principalmente, onde estávamos sediados, era muito comum ver críticas de pessoas que não estavam apoiando e discordavam de Evo. Uma dessas situações ocorreu quando arrumei uma turma para jogar tênis e a maioria não apoiava o presidente. Assim como num estúdio de tatuagem onde fui fazer uma. Perceptível a queda de popularidade do presidente, muito embora ainda se constatasse o apoio da maioria. Mas se via que estes discursos contrários eram pouco embasados. Talvez em decorrência da quantidade de anos no poder. Eram discursos, claro, sempre alicerçados pelo 21F, que deixou uma mágoa muito grande no boliviano da classe média.
Zeca Peixoto – No que o MAS pode ter errado?
Diego Lisboa – Em relação ao MAS não tenho propriedade para avaliar os possíveis erros que o partido incorreu. A parte do marketing eleitoral não estava no coração do partido. Tive pouca vivência com os responsáveis por esta área da campanha. Quando cheguei estava instalado o clima do “já ganhou” e este pode ter sido um erro coletivo e o MAS estava envolvido nisso. Percebia que quando chegava nos departamentos havia uma distância das bases. Estava tudo muito tranquilo e ninguém quase que não esperava o desfecho de uma eleição tão apertada. A tecla que eles mais batiam era a agenda da corrupção. E na Internet eram muitas micro-agendas para conturbar o debate, assim como o adjetivo de “ditador” em relação a Evo. Isso era o todo o tempo citado.
Zeca Peixoto – Do ponto de vista das conquistas sociais, embora com o desgaste de anos no poder, o que ainda levava uma maioria, mesmo que com pequena margem, a apoiar a gestão do presidente Evo Morales?
As conquistas sociais do Governo Evo são imensas. Estive em todos os departamentos e pude constatar os benefícios reais na vida das pessoas. Vi uma Bolívia desenvolvida e pulsante, claro que com muita coisa a ser feita ainda. Um povo com duas identidades respeitadas e fortalecidas por estarem representadas na Whipala (bandeira que reúne as diversas nações indígenas). Não é de se estranhar que ele ainda tenha maioria. A Bolívia foi o país que mais cresceu na América Latina nos últimos seis anos. Os processos de nacionalização dos recursos naturais foram bem sucedidos e hoje a Bolívia vende o que comprava. Claro que há falhas em alguns setores e o longo tempo no cargo geraram desgastes e fortaleceram a oposição. Uma oposição que não aceitou o resultados das urnas e gerou uma terrível instabilidade a ponto de forçar a renúncia de Evo. Um golpe duro contra a democracia. Neste momento existe morte e perseguição na Bolívia sob o comando de uma golpista. O que os amigos que estão lá me pedem é que sigamos denunciando os abusos que estão ocorrendo e é isso que estamos fazendo!
Zeca Peixoto – Outrora, a minas de Potosi, região produtora de prata, foram alvo da cobiça por parte das potências imperialistas. O lítio, mineral utilizado para produção de telas de LCD e com grandes reservas nas minas de Malku Khota, pode ter sido um dos principais fatores para o desencadeamento do golpe?
Diego Lisboa – Certamente! O fato da Bolívia ter a maior reserva de lítio do mundo foi determinante para o golpe. O próprio Evo fala isso a todo instante. Assim como ele menciona o “golpe racista”, o que ficou claro da forma que o processo se encaminhou. As grandes potências imperialistas jamais permitiriam, mesmo que a exploração desse mineral já estivesse se dando em parceria com o setor privado em acordos de exploração com a China e a Alemanha. Mas as grandes potências não aceitariam que estas riquezas estivessem sob domínio de um país governado por um líder indígena. Um líder que falava que a Bolívia decidiu o preço do lítio no mundo. Não admitiriam isso, é a história se repetindo.
Diego dirigiu o trabalho de audiovisual da campanha de Evo Moraes
Zeca Peixoto – As oposições a Evo utilizaram dos mesmos expedientes que a extrema-direita no Brasil utilizou para eleger o projeto bolsonarista, a exemplo de fake News e uso de redes sociais para disseminá-las?
Diego Lisboa – Com certeza. Vivi as duas campanhas, a Lula/Haddad e a de Evo Morales. A forma de utilização, o nível das informações eram muito parecidos com o modelo que foi aplicado no Brasil. Inclusive à boca miúda se falava na mesma equipe que trabalhou com Bolsonaro e da atuação de Steven Bannon, mas são fatos que não tenho como comprovar, era o que escutávamos. No entanto, era perceptível a semelhança do formato, com a utilização de robôs, pela velocidade com que essas mensagens eram espalhadas, os memes, os conteúdos com baixarias. Foi utilização idêntica à ocorrida no Brasil, não há dúvida.
A Venezuela saiu dos noticiários. A Argentina também. Por quê? O silêncio encontra resposta por duas vias de apostas por parte dos grandes meios corporativos. A concretização do golpe de estado em solo venezuelano com a ascensão do autoproclamado presidente e herói de proveta Juan Guaidó, que num ato de redenção livraria os venezuelanos da “tirania” socialista da Revolução Bolivariana, fecharia a mandala com a “exitosa” gestão de Mauricio Macri na Argentina.
Combo narrativo perfeito à afirmação das suas teses.
O triunfo do ultraneoliberalismo selaria o destino da América do Sul. O Brasil estaria no caminho certo.
Maurício Sardenberg era só risos na bancada da Globonews.
O povo venezuelano resistiu ao golpe e Nicolas Maduro, presidente do país, segue firme enfrentando o violento bloqueio econômico imposto por Donald Trump, mandatário estadunidense. Os problemas na Venezuela são muitos. Há escassez de alimentos e gêneros de primeira necessidade. Não é fácil encarar a maior potência econômica do planeta e que deseja pôr as mãos na principal riqueza do país. Trilhões de barris de petróleo de altíssima qualidade se encontram no seu subsolo. Mas o povo bravamente resiste. E Guaidó? O patético já não consegue sequer reunir cem seguidores num churrasco.
E na Argentina? Bem, a Argentina seria a vitrine que os grandes meios de comunicação incensaram com a eleição do direitista Mauricio Macri. Sim, agora o país se desenvolveria com as redentoras políticas neoliberais festejadas pelos colunistas “especializados”. Em pouco tempo, a era Cristina Kirchner, com seu programa de centro-esquerda, estaria superada. O “novo” momento com pleno emprego e abundância finalmente chegaria à Argentina. O maná do ultraneoliberalismo proveria nossos vizinhos. O tempo de fartura estava prestes a se concretizar. Os olhos de Miriam Leitão brilhavam.
Tiro pela culatra.
Tenho dito, a História é uma senhora tinhosa. E seu curso é um intrépido vagão que atropela indiferente todo aquele que a negue, pedindo licença ao poeta.
As políticas ultraneoliberais impostas por Macri na Argentina estão levando o país ao caos. A inflação chega à casa dos 50% e a taxa de juros bate a 70%. Nas ruas das grandes cidades, o retorno da prática do “trueque”. As pessoas estão trocando roupas por pão; serviços por comida; serviços por serviços. Outros se alimentam nos lixos enquanto famílias despejadas das suas residências por falta de pagamento das prestações ou aluguéis são obrigadas a dormir nas ruas. Pais, mães e filhos vivendo nas calçadas com o que resta dos seus móveis e utensílios.
E é este o mesmo modelo que estão impondo ao Brasil, hoje com mais de 15 milhões de desempregados, sem contar outros tantos milhões em situação de trabalho precário numa espécie de neo-escravidão.
A Venezuela passa por problemas similares? Em parte, sim. Mas não porque o governo de lá esteja conduzindo uma política que favoreça banqueiros e magnatas, mas em decorrência de um enfrentamento, de uma guerra econômica que tem motivação diametralmente oposta aos intentos do ultraneoliberalismo.
O ultraneoliberalismo pune de maneira semelhante aqueles que o endossam e também os que o rechaçam.
Delírio do século XXI.
E os grandes meios de comunicação? Estes seguem à risca seus roteiros, sobretudo na América do Sul. Obliterar os fatos e conduzir as narrativas com enquadramentos direcionados é a ordem dos aquários das redações. Quantos no Brasil souberam da vigorosa greve geral ocorrida na Argentina no último dia 29 de maio? Creio que pouquíssimos. Quantos nos Brasil souberam das estrondosas manifestações de apoio ao governo da Venezuela durante a tentativa de golpe do bolsomínio local, Juan Guaidó? Conta-se nos dedos.
Por isso que Bolsonaro está tão preocupado com a quase certa derrota de Macri na Argentina; por isso que Bolsonaro recebeu o patético Guaidó no Palácio do Planalto com honras de chefe de Estado.
Trump o conduz.
A agenda de privatização da previdência pública, do desmonte das leis trabalhistas, da precarização do trabalho, da destruição das políticas de proteção social, do ataque à educação pública e à cultura, do ódio às minorias, do desmonte do Estado e a capitulação ao sistema financeiro internacional e, enfim, da uberização da vida, é o roteiro macabro que a sociedade mundial enfrenta neste final da segunda década do século XXI.
E a escolha das nossas consciências tem que optar: civilização ou barbárie?
Neste início de semestre, 27/08, fui partícipe de evento promovido pelo Centro Acadêmico Caju, entidade que representa os alunos do curso de Jornalismo de uma faculdade particular de Salvador. O tema contemplado foi Jornalismo de Dados. Oportuna escolha. Na mesa, as jornalistas Lívia Lemos, social media e empreendedora digital, Mariela Santiago, jornalista da área cultural e também cantora, e o jornalista, professor e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas Yuri Almeida.
As falas dos convidados, em resumo, indicaram situação muito clara: empreender é o caminho para profissionais que historicamente foram, em boa medida, forjados a trajetórias dentro de empresas tradicionais de mídia cujo mercado, no Brasil, é desenhado em grandes oligopólios concentrados nas mãos de poucos grupos, a maior parte familiares.
Outrora, a meta do recém-formado era a cadeia de emissoras X, o conglomerado de impressos Y, a rede de rádios Z ou a comunicação corporativa. A Internet redesenhou este panorama e não apenas abriu mais oportunidades como acena com possibilidades antes inimagináveis.
Mas calma!
Provocações necessárias. O que está ocorrendo na formação dos jornalistas e comunicólogos em geral num ecossistema midiático que vivencia tremendo sacolejo nesta segunda década do século XXI? E de que maneira egressos desses cursos podem acumular know how suficiente para estarem aptos como empreendedores a suprir um mercado de mídia que cada vez mais demanda atributos e competências bem diversas das que lhes são ofertadas nos caducos cursos de Comunicação?
A percepção que ocorre é que, guardadas exceções, os cursos de Comunicação, nas suas várias habilitações, vivenciam um delay programático de, no mínimo, quinze anos. Os programas e disciplinas se encontram engessados no tempo e remetem a modelos já superados da economia política da mídia.
Comentando acerca deste evento com um colega, ele mencionou a expressão “queda de braço” ao se referir à plausível díade “domínio de ferramentas x formação humanista do profissional”. A nosso ver, essa díade não enseja tensão. Contrário, aponta a necessidade de complementação.
Bom texto, formação humanística e capacidade de reflexão crítica da realidade são insumos intelectuais indispensáveis às formações das áreas de Comunicação. No entanto, entender que são o bastante é equívoco sem tamanho. Ou vai esperar que o mercado complemente a formação desses estudantes num momento que é flagrante o borramento do campo profissional dos comunicólogos, inclusas todas as habilitações? Ou o que fará, de fato, um comunicólogo formado na academia ser um comunicólogo stricto senso? Adianto: por enquanto esta tarefa não é levada a cabo na maioria esmagadora dos cursos de Comunicação. Porque defasados e preguiçosos de entender e acompanhar os novos ventos da mídia.
Há alguns meses, ao entrevistar candidatas e candidatos para uma vaga de estágio, busquei saber deles acerca do conceito da pauta estendida. Ou seja, em que medida um conteúdo publicado deve ser acompanhado na reverberação por parte dos públicos? Perguntei também sobre ferramentas gratuitas como o Gephi, Netvizz, Netlylic e outras, assim como a importância das análises de discursos na prospecção qualitativa das grandes big datas narrativas. Num universo de 12 discentes, três tinham alguma competência em manusear estas ferramentas, no entanto nenhum deles sabia o que fazer com as informações extraídas. Os demais não detinham conhecimento de nada.
Este descompasso, a rigor, é reflexo de formações que vestem supostas máscaras tecnológicas – incentivos a acessos a portais, aulas a distância etc – mas que, ao fim ao cabo, não provém os discentes de competências necessárias que os coloquem aptos a exercer o Jornalismo e outras narrativas do campo comunicacional nos seus vários desenhos contemporâneos.
Ademais, infantilizam os discentes com joguetes idiossincráticos em plataformas burras. E, o mais grave, nem ao menos se importam com a velocidade de entrega do sinal do wifi a estes acadêmicos nos espaços de ensino. Enxergam este quesito como um “detalhe” do suporte técnico, quando na verdade é a infraestrutura determinante. Porque estruturante.
Entender o texto no Twitter, Facebook e Instagram, acessar as trends do Google, perceber as repercussões dos conteúdos publicados e agrega-las à pauta máster, compreender as métricas das redes sociais, ter razoável conhecimento de aspectos relevantes da Sociologia digital e até dominar o manuseio do Excell, entre outras habilidades instrumentais, constituem arsenal de competências que os cursos de Comunicação pouquíssimo ou nada contemplam nos seus currículos. Em pleno momento da ciência de dados e da ascensão da midialogia, as formações dos futuros comunicólogos, com devidas exceções, ainda rastejam no paleolítico da mídia.
É fácil construir narrativas pseudo-pedagógicas de que seus conteúdos e modelos preparam estudantes para o mercado. Difícil mesmo é entender como está este mercado e que tipo de profissional demanda. No que concerne as formações das diversas áreas de Comunicação, a maior parte dos cursos ainda fala aramaico antigo e o mercado mandarim moderno. E o discente busca uma luz para entender este imbróglio.
A tarde passa cinza e úmida. Ecoa pelo quarto Luz e Mistério nas vozes de Dado Villa-Lobos e Lia Galdino, a balsâmica parceria de Beto Guedes e Caetano. Enquanto isso, a tela muda da TV transmite o duelo entre croatas e dinamarqueses. Gosto dos vikings.
“… Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração…”
Tempo de pensar. Defender-se do inferno astral que cerca os dias, as horas, os minutos… não é fácil encarar os greys como uma condenação do tempo. Muitos diriam ser dádiva. Nada consola.
Seguir irresoluto. Rivalizar com a ansiedade e o medo tentando ser mais forte do que passados e futuros. O olhar circonfere em 360. Revistas e livros desalinhados à mão. Nada apetece. Apenas o cérebro remói. E é intenso. Projeta fotografias magentas e vídeos riscados.
Sorrisos, momentos. Aquele dia feliz quando não se imaginava o que adviria à sombra do existir. Um bebê ao colo; a criança que engatinha e arrisca os primeiros passos; o filho companheiro que se apartou; os que se foram; a barriga que anuncia a chegada; a praia; a neve; o sol e a chuva. A punição das recordações.
O paladar pede doce. O amargor é intragável. Onde estará meu melhor disfarce? Aquele que conduz invisível às percepções intrusas e fingem livrar dos temores mais recônditos.
Viver menos à frente do que já se viveu.
Quisera o existir se resumisse às teclas. Seria mais fácil. O lúdico, em time lapse, salva da realidade. Seja por segundos. Mas, definitivamente, a vida nem sempre é uma família feliz como publicidade de margarina. Por vezes, melhor se enquadra num antigo outdoor da Benneton, daqueles que Oliviero Toscani fustiga intensamente os temores coletivos.
Na constelação de Câncer, os julhos não são convidativos. Desde que o lar escapou aos pés, que agora seguem trêmulos na corda de onde se mira o abismo e, logo abaixo, a estrada em miniatura que aponta à beleza de algum canto inatingível.
Quisera esse canto existisse, quisera…. A cada drama, cenários que se interligam. Como em Babel, de González Iñárritu. Todos partes de um mesmo roteiro. Nas quais os sofreres são inescapavelmente densos como os narrados por Álvares de Azevedo. Não há mais liras. Nem vinte anos.
Ainda não assisti O Processo, documentário de Maria Augusta Ramos que trata do golpe de Estado de 2016 que depôs a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita com 54 milhões de votos. No subtítulo do filme, a pergunta: “De que lado você estava?”
Pertinente.
E muito embora possa parecer uma indagação óbvia àqueles que trazem convicções políticas assentadas, que é o meu caso, é de complexidade oceânica.
Desde que me conheço por gente mudei de posicionamentos diversas vezes. Mas nunca de lado. Observar a História, sobretudo.
No entanto, e digo sem a soberba de me entender como o senhor da verdade, de 2013 para cá foi acirrada no Brasil a temporada de arroto e ode à absoluta ignorância.
Há quem discorde, mas continuo cravando: as chamadas “jornadas de junho” abriram os portais da estupidez coletiva.
Jovens de classe média enrolados na bandeira do Brasil e ufando que “meu partido é o meu país” fora uma das senhas de que a serpente rompera a casca do ovo.
O fascismo chegou à superfície com todas suas cadelas no cio.
E queria gozar.
Essa turba cresceu com o apoio ingênuo e bobo de muitos militantes de esquerda, que viam naquelas mobilizações alguma legitimidade de enfrentamento de classe.
Se passaram. Não era.
Era, sim, o engrossar da intempestividade histérica movida, de início, pelos grandes grupos da mídia corporativa, enquanto o aparato jurídico do Estado se preparava para o segundo round pós-mensalão, a famigerada Ação 470 que foi legitimada até por “intelectuais” que se auto-intitulam de esquerda.
Lembro bem, tenho os registros.
A partir daquele momento, começa a ser nítida a díade: apoio ou não ao convescote golpista.
E não cabia nem continua cabendo meio termo.
Ou se posicionava pela manutenção do Estado Democrático de Direito ou embarcava na ruptura com nuances obscurantistas e protofascistas.
A segunda posição foi hegemônica. Formada a espiral de silêncio, tomando emprestado a Elisabeth Noelle-Neumann, a histeria coletiva “anti-corrupção” sufocou as dissonâncias de opinião. Nas ruas e nas redes sociais.
Ânimus que representou, irrefutavelmente, a postura de uma classe média historicamente bestializada, absolutamente iletrada, ignara, estúpida, preconceituosa, infantil e adepta da crença de que problemas estruturais se resolvem com heróis de ocasião.
Eles estavam do lado de lá.
Do lado do golpe.
Dois anos se passaram. O desemprego cresce, o combustível aumenta, a fome retorna, os direitos sociais são paulatinamente destituídos e as panelas… as panelas se calaram.
Pensando bem, de que lado eles estavam? Do lado que nunca, de fato, refletiram objetivamente. São escravocratas aceitando a condição de escravos; foram capitães do mato se achando senhores de engenho. São tolos. E hoje têm vergonha de se assumirem como tais.
Eles estavam do lado sabe de que? Dos seus próprios demônios; dos fantasmas que lhes atormentam a vida desde a última e inesquecível viagem a Miami e um passeio a um clube meia boca em Boca Raton.
Eles estavam do lado do sofá da sala inebriados pelo folhetim telenovelesco ou orando dentro de uma igreja neopentencostal na viva fé da bem aventurança financeira.
Eles estavam do lado da atitude fácil; da lábia maneira da vizinha revoltada que achava o tomate caro e agora não sabe como comprar o gás. Eles estavam na lista do whatsapp da escola do filho indignados porque queriam “o país de volta”.
Eles estavam do lado que sempre estiveram, o da incapacidade de enxergar a realidade. Não porquê não queiram, mas porque não conseguem.
Sigam, estúpidos. Vocês ganharam. Porque perderam.
Acasos, destinos e amores que se trançam em meio a lembranças que unem passado e presente. Há filmes que são feitos para eternidade. Trem noturno para Lisboa, adaptação da obra literária do francês Pascal Mercier, é um deles. Professor suíço, magistralmente interpretado por Jeremy Irons, é movido pela curiosidade quando se depara em situação inusitada com livro-relato de autor português. Lisboa é seu destino. Lá que resolve desencavar episódios que o levam aos primeiros anos dos 70 em plena ditadura de Salazar. Mais do que denunciar a violência de um regime cruel e fascista, o filme do diretor dinamarquês Bille August discute relações humanas. Ser bom ou mau, amar e trair são posturas e sentimentos que passam à margem de posicionamentos políticos e ideológicos. Tempo se encarrega de explicar destinos e escolhas. Revolução dos Cravos, que em 1974 libertou Portugal, também aprisionou ressentimentos e mágoas. Produção alemã de 2013, traz também participações de Charlotte Rampling, Bruno Ganz e a ponta luxuosa de Lena Olin. Se pretende filme político sem se deixar levar pelo panfleto. Narrativa sustentada por roteiro marcante, a película constata que no trem da vida o inesperado é que dá o leme do itinerário. Filme pra ver e rever.