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Diego Lisboa em companhia de Evo Morales em viagem de campanha

 

 

 

 

 

Entrevista – Diego Lisboa

Estratégias de fake news para tumultuar o cenário e enganar a população, violência contra ex-integrantes do governo, discriminação contra as populações indígenas. A Bolívia, não muito diferente do Brasil, amarga o ataque a democracia e está mergulhada no caos político e econômico. Para entender um pouco o atual quadro desta nação andina, entrevistamos o experiente documentarista Diego Lisboa, que trabalhou na campanha à reeleição do então presidente Evo Morales. O profissional teve diversos contatos com o chefe de estado no período que se encontrava naquele país.

A Bolívia tem histórico de conflitos. Já registrou mais de 193 golpes de estado, inclusas as tentativas; vivenciou ditaduras como a do general Hugo Banzer; e em 2006 elegeu o primeiro líder indígena, o aimara Evo Morales, pelo partido Movimento ao Socialismo, o MAS. Após ser reeleito em outubro, Evo foi apeado do poder em novembro passado depois de quatro mandatos consecutivos, fato que convulsionou politicamente o país.

Lisboa, 36 anos, baiano, é formado em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV. Pensador inquieto, leitor voraz e ávido por conhecimento, o jovem cineasta já carrega densa bagagem atuando na comunicação política, além de outros segmentos da mídia. Trabalhou na campanha de Jaques Wagner para governador da Bahia em 2010; na do deputado federal Nelson Pelegrino para prefeito de Salvador em 2012; na pré-campanha de Hugo Chaves a presidente da Venezuela neste mesmo ano; na de Flávio Dino para governador do Maranhão em 2014 – quando o candidato comunista destronou a clã dos Sarneys -; na de Marcelo Freixo para prefeito do Rio de Janeiro em 2016; na de Lula/Haddad em 2018; e na de Daniel Martínez, candidato a presidente do Uruguai pela Frente Ampla em 2019. Neste final de ano Diego Lisboa nos deu a honra desta entrevista exclusiva.

Zeca Peixoto – Você atuou nesta última campanha de Evo. No decorrer do trabalho já se podia sentir que o processo democrático estava ameaçado?

Diego Lisboa – Fui diretor do audiovisual da campanha de Evo Morales e falarei do que tive conhecimento com as limitações inerentes à minha função. Quando cheguei à Bolívia o trabalho já estava em curso. Neste primeiro momento não tinha nenhuma percepção de que o processo democrático estivesse ameaçado. Porque tudo funcionava bem. A campanha política lá é diferente, é só de comercial, não tem o programa político em si (horários determinados por legislação para rádio e TV). Não se acompanha tanto as estratégias dos outros (candidatos), a não ser nas redes ou se ficar ligado na grade de comerciais. Não se tinha muita clareza disso. Todos tinham seus espaços na TV. Claro que nas redes sociais já se observava as mazelas das fake news, fenômeno que já antecedia o período eleitoral na Bolívia. Mas comecei ter percepção de que alguma coisa poderia ocorrer quando se acentuaram os questionamentos do 21F (referendo ocorrido em 21 de Fevereiro de 2016 no qual 51,3% se opôs à ideia de uma terceira candidatura de Morales, que não aceitou o resultado e recorreu ao Tribunal Constitucional, que, em 28 de novembro de 2017, invalidou o referendo com base na Convenção Interamericana de Direitos Humanos – que estabelece que todo cidadão deve poder “eleger ou ser eleito” e que, de acordo com a Constituição boliviana, tem precedência sobre o direito nacional –, a instituição abriu caminho para a terceira candidatura de Morales). Na reta final da campanha comecei a visualizar que os dois lados poderiam não aceitar o resultado. Lembro que conversava com a jornalista Silvia Colombo, da Folha de São Paulo, e tínhamos a percepção de que poderia acontecer algo. Na reta final já era perceptível este cenário.

Zeca Peixoto – Evo é um líder cocaleiro. Como observou as relações dele com as lideranças indígenas no decorrer da campanha? Havia desgaste?

Diego Lisboa – Tive oportunidade de presenciar alguns encontros de Evo com líderes. Chamávamos “O dia de EVO”. Chegava bem cedo e encontrava com o presidente no palácio do governo. As reuniões começavam às 5h30 da manhã. De lá, voávamos para alguns departamentos para discutir coisas específicas. Geralmente, inauguração de algum espaço, mas com reuniões políticas e contato com a população. Me parecia uma relação de muito respeito com esses líderes indígenas. E não só, mas também com governadores de departamentos que eram descendentes de indígenas. Conversas muito leves e descontraídas. Uma vez o vi endurecendo numa dessas ocasiões, mas numa relação bem amistosa. Não foram muitas estas situações. Vi também contato com ministros e outras autoridades. Mas sempre nos povoados que chegávamos havia lideranças indígenas dando apoio com recepções muito calorosas. Era muito interessante. Eles têm a cultura da guirlanda (colares de flores) e as índias sempre estavam com guirlandas nas mãos quando eles chegavam. Então, me parecia caminhar tudo muito bem no que diz respeito a relação com essas lideranças. Mas sentia desgaste com pessoas que não estavam no círculo do próprio Evo. Conversas com taxistas, motoristas de ônibus, nos botecos. Eu fazia sempre essa quali (pesquisa) pessoal. Percebia que havia um desgaste do presidente entre os próprios aimaras. As fake news (ou não) de que ele teria filhos fora do casamento tinham acertado em cheio a relação dele (Evo) com os aimaras mais conservadores, que entendiam que ter um filho fora do casamento os envergonhava. “Evo nos envergonhou”, diziam alguns. Terminada a campanha, fui a uma comunidade aimara mais distante e fora do circuito turístico. Se percebia nitidamente esse sentimento.

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Durante sua estada na Bolívia, o documentarista teve diversos contatos com populares

Zeca Peixoto – Era perceptível alguma perda de apoio popular à gestão de Evo?

Diego Lisboa – Sim. Não estive na Bolívia em 2006 quando possivelmente refletia o nível de satisfação dos dois mandatos de Lula. Em 2019 creio que o nível de satisfação era similar ao início do segundo mandato de Dilma, já sem apoio popular mais consistente. Quando haviam as caminhadas organizadas pelo MAS (Movimento ao Socialismo, partido de Evo) tinha um número grande de pessoas, claro. No entanto, reparei que os que não eram “masistas” (não tinham ligação declarada com o MAS) e se encontravam nas suas casas, nas janelas, não se observava vibração. Era como um cortejo de militantes do MAS e a população assistindo sem envolvimento caloroso. Diferente de muitas caminhadas que presenciei com Lula, quando se observava manifestações espontâneas. Em La Paz principalmente, onde estávamos sediados, era muito comum ver críticas de pessoas que não estavam apoiando e discordavam de Evo. Uma dessas situações ocorreu quando arrumei uma turma para jogar tênis e a maioria não apoiava o presidente. Assim como num estúdio de tatuagem onde fui fazer uma. Perceptível a queda de popularidade do presidente, muito embora ainda se constatasse o apoio da maioria. Mas se via que estes discursos contrários eram pouco embasados. Talvez em decorrência da quantidade de anos no poder. Eram discursos, claro, sempre alicerçados pelo 21F, que deixou uma mágoa muito grande no boliviano da classe média.

Zeca Peixoto – No que o MAS pode ter errado?

Diego Lisboa – Em relação ao MAS não tenho propriedade para avaliar os possíveis erros que o partido incorreu. A parte do marketing eleitoral não estava no coração do partido. Tive pouca vivência com os responsáveis por esta área da campanha. Quando cheguei estava instalado o clima do “já ganhou” e este pode ter sido um erro coletivo e o MAS estava envolvido nisso. Percebia que quando chegava nos departamentos havia uma distância das bases. Estava tudo muito tranquilo e ninguém quase que não esperava o desfecho de uma eleição tão apertada. A tecla que eles mais batiam era a agenda da corrupção. E na Internet eram muitas micro-agendas para conturbar o debate, assim como o adjetivo de “ditador” em relação a Evo. Isso era o todo o tempo citado.

Zeca Peixoto – Do ponto de vista das conquistas sociais, embora com o desgaste de anos no poder, o que ainda levava uma maioria, mesmo que com pequena margem, a apoiar a gestão do presidente Evo Morales?                      

As conquistas sociais do Governo Evo são imensas. Estive em todos os departamentos e pude constatar os benefícios reais na vida das pessoas. Vi uma Bolívia desenvolvida e pulsante, claro que com muita coisa a ser feita ainda. Um povo com duas identidades respeitadas e fortalecidas por estarem representadas na Whipala (bandeira que reúne as diversas nações indígenas). Não é de se estranhar que ele ainda tenha maioria. A Bolívia foi o país que mais cresceu na América Latina nos últimos seis anos. Os processos de nacionalização dos recursos naturais foram bem sucedidos e hoje a Bolívia vende o que comprava. Claro que há falhas em alguns setores e o longo tempo no cargo geraram desgastes e fortaleceram a oposição. Uma oposição que não aceitou o resultados das urnas e gerou uma terrível instabilidade a ponto de forçar a renúncia de Evo. Um golpe duro contra a democracia. Neste momento existe morte e perseguição na Bolívia sob o comando de uma golpista. O que os amigos que estão lá me pedem é que sigamos denunciando os abusos que estão ocorrendo e é isso que estamos fazendo!

Zeca Peixoto – Outrora, a minas de Potosi, região produtora de prata, foram alvo da cobiça por parte das potências imperialistas. O lítio, mineral utilizado para produção de telas de LCD e com grandes reservas nas minas de Malku Khota, pode ter sido um dos principais fatores para o desencadeamento do golpe?  

Diego Lisboa – Certamente! O fato da Bolívia ter a maior reserva de lítio do mundo foi determinante para o golpe. O próprio Evo fala isso a todo instante. Assim como ele menciona o “golpe racista”, o que ficou claro da forma que o processo se encaminhou. As grandes potências imperialistas jamais permitiriam, mesmo que a exploração desse mineral já estivesse se dando em parceria com o setor privado em acordos de exploração com a China e a Alemanha. Mas as grandes potências não aceitariam que estas riquezas estivessem sob domínio de um país governado por um líder indígena. Um líder que falava que a Bolívia decidiu o preço do lítio no mundo. Não admitiriam isso, é a história se repetindo.

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Diego dirigiu o trabalho de audiovisual da campanha de Evo Moraes

Zeca Peixoto – As oposições a Evo utilizaram dos mesmos expedientes que a extrema-direita no Brasil utilizou para eleger o projeto bolsonarista, a exemplo de fake News e uso de redes sociais para disseminá-las?

Diego Lisboa – Com certeza. Vivi as duas campanhas, a Lula/Haddad e a de Evo Morales. A forma de utilização, o nível das informações eram muito parecidos com o modelo que foi aplicado no Brasil. Inclusive à boca miúda se falava na mesma equipe que trabalhou com Bolsonaro e da atuação de Steven Bannon, mas são fatos que não tenho como comprovar, era o que escutávamos. No entanto, era perceptível a semelhança do formato, com a utilização de robôs, pela velocidade com que essas mensagens eram espalhadas, os memes, os conteúdos com baixarias. Foi utilização idêntica à ocorrida no Brasil, não há dúvida.

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