Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • machismo-precisamos-falar-com-os-homens-800

    Por intermédio de uma amiga tive acesso ao documentário Precisamos falar com os homens? O filme, iniciativa da ONU Mulheres e produção do site Papo de Homem, volta-se ao debate sobre questões como igualdade de gênero, machismo, misoginia, violência contra mulheres e outros temas afins. O roteiro é bem estruturado, mas peca num ponto essencial: a ausência da discussão acerca da execução das leis da Guarda Compartilhada e Alienação Parental.

    Simples: nenhum debate sobre estes temas pode se eximir de contemplar estas questões. Depoimentos de especialistas de diversas áreas abordam situações que se estruturam e decorrem de uma sociedade paternocrata e falocêntrica. Mas deixam buracos que empobrecem a argumentação.

    Muito embora, e em boa medida, haja o consenso entre as fontes de que homens e mulheres devem ser protagonistas com equidade de ações para o enfrentamento destes problemas, a situação do homem é abordada sob a perspectiva de “convidá-lo” à adequação civilizatória e à compreensão da igualdade de gênero. Respeito às mulheres, divisão dos trabalhos domésticos, cuidados para com os filhos etc.

    Em situações pontuais, há referências à necessidade, por exemplo, da extensão do tempo da licença-paternidade, que hoje é de uma semana. Pais também devem dividir as árduas tarefas dos cuidados iniciais para com os recém-nascidos. Nada mais natural. Da mesma forma que assevera com precisão a necessidade de uma nova mentalidade masculina face à díade masculino X feminino. A violência decorre de um construto sociocultural que amalgama valores introjetados desde a infância e que são responsáveis pelo quadro atual.

    Mas aí emerge situação paradoxal. Desde que a Lei da Guarda Compartilhada foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em 2012, esta modalidade de guarda vem crescendo. Entre 2015 e 2016 saltou de 12,9% para 16,9%. Cada vez mais homens têm buscado estar presente e ter mais convívio na vida dos filhos após separados. No entanto, o maior empecilho à execução da Lei reside na resistência que muitas mulheres têm em dividir a guarda dos filhos com os pais.

    Alguns argumentos são pífios. Alegam “feministas” que se trata de uma lei “de opressão de gênero”; outras acreditam que pais não têm capacidade de assumir tal tarefa. Ora, isso é tudo que possa ser concebível, menos que se trate de uma postura feminista.

    Não é. É maternocracia. É o machismo na sua forma mais sofisticada. É uma espécie de violência de gênero dissimulada e que embaça o debate. Sim, é. E o documentário sequer tangencia a questão. Busca ouvir fontes ligadas a institutos voltados à reeducação masculina quanto a sua responsabilidade para com os filhos, igualdade de gênero e respeito às mulheres. No entanto, se esquiva de abordar a violência perpetrada por muitas mulheres que apenas se limitam entender os pais como disseminadores de sêmen e provedores materiais.

    São milhares de casos relatados no Brasil e no mundo de cidadãos que desejam aproximação para o natural direito de convívio com os filhos após separados, ou mesmo frutos de uma relação efêmera, e que são criminosamente impedidos desse direito, que também é dos filhos.

    Ainda nos anos 80 ficou reconhecido internacionalmente o movimento “Pais por Justiça” (Father for Justice), iniciado na Inglaterra por iniciativa de pais vítimas de decisões judiciais absurdas que limitavam o convívio com as crias, lhes impondo visitas quinzenas e uma série de restrições. Pais, registre-se, com condutas ilibadas. Esses pais resolveram se expressar em tribunais com performances e flash mobs.

    No Brasil, o movimento também ganhou corpo. Foi uma resposta. Em diversas situações mulheres inventam falsas denúncias para confundir a Justiça e afastar pais de filhos. O rancor e as mágoas para com ex-companheiros são transferidos para as crianças. Outrossim, trata-se também de um jogo econômico. Pensão alimentícia, com muitas exceções, virou indústria.

    Esse contexto leva a muitos casos de alienação parental, crime previsto em lei e que figura com  milhares de registros neste macabro enredo. O documentário A morte Inventada, filme de iniciativa da produtora Caramiola, apresenta o problema com relatos gritantes. Na Bahia, está em fase final a produção de outro doc que navega na mesma direção. O documentário Tranças, de autoria de Lívia Sampaio, relata grave problema ainda em curso.

    Debater igualdade de gênero sem que tais questões sejam inclusas enfraquece sobremaneira qualquer iniciativa neste sentido. Se existe a indubitável necessidade de falar com os homens, parte significativa deles têm também que ser ouvida. Indagações dirigidas a mulheres que, ao fim e ao cabo, se apegam a vendetas para estender desfechos mal resolvidos.

    Num determinado momento do documentário, num círculo de discussão, o facilitador afirma a necessidade do “homem chorar”. Vale registrar que muitos têm chorado pelo fato de não terem possibilidade de exercer suas paternidades.

  • Postagem_2

    Sociedade que marcha gradativamente para estado político pós-neofascista. Embora não utilize diretamente esta expressão, em Estado pós-Democrático. Neo-obscurantismo e gestão de indesejáveis, o juiz Rubens Casara, mestre em Ciências Penais e membro da Associação de Juízes pela Democracia, expõe a situação de gradativa barbárie político-judicial pela qual passa a sociedade brasileira.

    Interesses neoliberais ditam regras que têm levado o país à quebra do Estado Democrático de Direito. Para tal, utilizam como suporte ligado a esses interesses a poderosa operação da mídia corporativa, que praticamente põe de joelhos boa parte do Poder Judiciário, usando-o como braço necessário à implantação radical da agenda ultraneoliberal.

    Liberdades e garantias individuais mandadas às favas em detrimento do legítimo jogo democrático. Destituição em gradiente crescente dos direitos sociais da maioria da população. Estado com nuances fascistas movido a maiorias de opinião de ocasião que transforma os ritos judiciais em espetáculos midiáticos.

    Assim foi consolidado o bolsonarismo.

    Publicado pela Civilização Brasileira, o livro tem orelha assinada pela filósofa Márcia Tiburi.
    Fica a dica.

  • Misturados entre nós

    Foto_Postagem_Neardental

    Não me arrisco a livros ofertados em prateleiras na entrada de livrarias.
    Não é esnobismo. Longe disso.
    Mas este me chamou atenção. Sou aficcionado pelas humanidades e meu lado sociólogo sempre fez um par perfeito com o comunicólogo. Muito embora ache essa distinção rarefeita e às vezes até tola.
    Arrebatei e comecei a ler no próprio café do estabelecimento.
    Adorei.
    É um mix de profunda pesquisa científica, livro-reportagem e arranjos de narrativas literárias que ilustram a problemática e dão enredo aos debates.
    Escrito pela paleantropóloga Silvana Condemi e pelo jornalista científico François Savatier, o livro foi publicado no Brasil pela editora Vestígio.
    Por que a espécie humana Neandertal sumiu do planeta? O problema, que deriva outros tantos e repousa em algumas hipóteses, é perseguido sob diversas angulações e abordagens ancoradas em rigorosos argumentos científicos.
    Não há conclusões definitivas. Nem caberia. No entanto, o trabalho deixa pistas que esta espécie humana, irmã do Homo Sapiens, teve vida societária complexa e, tudo indica, mestiçou não apenas com o Sapiens assim como com outras espécies Homo. Ou seja, toda humanidade, de alguma forma, carrega determinado percentual do DNA Neandertal.
    Foram espécies cujas clãs, em diversas partes do mundo, mesclaram culturas e gens.
    Destaco as ilustrações do artista Benoît Clarys.
    Super indico.

  • Seita? Filosofia de vida? Terapias coletivas? Dissidência do sistema? Rebeldia para com os valores morais do Ocidente? Fuga existencial? Fanatismo religioso? Wild Wild Country, série documental da Netflix sobre a passagem do guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho, pelo estado do Oregon, nos EUA, traz à baila estas e outras questões que envolveram o polêmico líder espiritual.
    O filme, que passou a ser ofertado sem maiores estardalhaços pelo serviço de streaming estadunidense, é, até o momento, uma das melhores produções da empresa, que nem sempre é feliz no que produz, haja vista a bizarra série-panfleto “O Mecanismo”, entre outras.
    Contando com depoimentos contundentes e esclarecedores, inclusive os da chefa do estado maior do Bhagwan, Ma Anand Sheela, o documentário mergulha em situações recônditas da experiência do guru e de alguns dos seus milhares de discípulos nas terras do Tio Sam.
    Projeto audacioso. Construir infraestrutura para uma comunidade com mais de 10 mil pessoas na região de Antelope, minúscula e pacata cidade habitada por 40 cidadãos, a maioria aposentados. Grupo de hábitos conservadores que de repente viu a invasão de milhares de seguidores apaixonados pelo místico hindu que para lá peregrinaram afim de praticar variadas técnicas de meditação, buscar conforto existencial e uma vida sem amarras para o sexo livre e relações abertas.
    Desde que iniciara seu trabalho na Índia, na cidade de Ponna, nos meados dos 70, o Osho acenara com conforto espiritual àqueles que transitavam entre os embalos da contracultura e a abundância de uma vida material recém conquistada. Jovens milionários yuppies dos grandes centros da Europa e EUA buscavam um capitalismo para chamar de seu. E o Bhagwan lhes apresentava o modelo social para tal.
    O Ashram do guru era o shangrila perfeito. O Nirvana estava ali. Para mestre e discípulos. Os endinheirados seguidores do Osho doavam vultuosas quantias ao mestre e este lhes retribuía com a libertação do cativeiro mental da sociedade de consumo. Não precisavam se desfazer das suas riquezas, bastava investi-las na utopia coletiva e seletiva que o guru prometia, além de muita kundalini e gritos tribais catárticos para exorcizar fantasmas psíquicos.
    O cerco apertou na Índia e o Osho, pondo Sheela no comando das operações, migrou para os EUA onde uma fundação que lá criara já havia comprado milhares de hectares no estado do Oregon, precisamente no condado de Wasco. Amparado pelo Constituição dos EUA, que assegura liberdade religiosa, o projeto, de início, encontrou todas as facilidades.
    O empreendimento ergueu prédios, casas, construiu diques, dinamizou a agricultura, constituiu uma economia com moeda própria e, de alguma maneira, modificou a paisagem da localidade. Não apenas geográfica, mas também humana. Os discípulos, a maioria estadunidenses, vestiam roupas vermelhas e alaranjadas e andavam aos bandos entre gargalhadas, beijos e carícias. Hábitos que passaram a incomodar os moradores de Antelope.
    Oposição de conservadores não só do Oregon como de todo o país e as previsíveis dissensões internas entre os sannyasis, assim chamados os discípulos do Bhagwan, foram fatores que determinaram o início do fim da utopia no Oregon.
    A comuna passa a registrar conflitos internos e os órgãos de controle dos EUA apontam lupas sobre as atividades da fundação. Rajneeshpuram, como a comuna fora denominada, representou o sonho que para milhares ainda não acabou desde que o Osho faleceu em condições misteriosas em 19 de janeiro de 1990 na cidade de Poona, margem ocidental do planalto de Decão, na Índia.
    O documentário tem roteiro extremamente bem escrito e conta com vasto arquivo e depoimentos de personagens que amaram e odiaram Bhagwan Shree Rajneesh. O amor e o ódio que o próprio guru afirmava não haver fronteira. Aliás, sua trajetória e a de muitos dos seus seguidores são exemplos dessa mescla.
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    Do disciplinado frade Sobral da Ordem dos Capuchinhos no Mosteiro de Guaramiranga-CE a símbolo sexual de voz cortante e poesias-navalhadas em belas e harmoniosas melodias, Antonio Carlos Belchior, falecido em 30 de abril de 2017, teve sua biografia escrita por um dos mais competentes jornalistas entre os que acompanham a cena da MPB e da cultura pop internacional. Em “Belchior, apenas um rapaz latino-americano”, a trajetória do então disciplinado noviço nos meados dos 60 e beatnik à brasileira dos 70/80 é narrada com riqueza de detalhes por Jotabê Medeiros.
    O livro de Jotabê, que chegou às prateleiras ainda sob o impacto da morte do poeta, conduz a passagens da vida do artista-gênio que fecham os quebra-cabeças às interpretações de muitas letras e composições de Belchior.
    Circunstâncias sociais e políticas, fatos, ambientes, infortúnios, sofrimentos, desafetos, companhias, paixões e amores. O compositor e cantor cearense é uma espécie de esponja que não apenas traga o que vive e está à sua volta, mas também responde às inquietações nos caminhos que percorre mediante canções e letras. Belchior é um trovador da vida profunda.
    O ex-estudante de Medicina, com robusta formação humanista advinda da breve passagem religiosa e também como erudito autodidata, é um intelectual que desdenha caprichosamente desta condição. Como afirma em Alucinação, um dos seus maiores sucessos, trata-se de um jovem que “não está interessado em nenhuma teoria” e sua alucinação são “experiências com coisas reais”.
    Acervo cultural que lhe serve de combustível para provocar ícones da MPB, a exemplo de Caetano Veloso, para quem mandou o recado de que “nada é divino e maravilhoso”, em referência ao título homônimo de uma das canções do artista baiano. Ou mesmo peitar destemidamente seu companheiro da sócio-gênese musical da “turma do Ceará”, Raimundo Fagner, com quem compôs Mucuripee depois rompeu em desavenças que quase chegaram às vias de fato.
    Belchior é reflexo de um Ceará culturalmente insurgente nos sufocantes anos 70, que reuniu artistas e intelectuais valiosos, como Fausto Nilo, Amelinha, Petrúcio Maia, Ednardo e Barbosa Coutinho, entre outros. Este último, intelectual de envergadura e psicanalista, é o personagem ao qual o Bob Dylan do Nordeste se refere num trecho da letra de Divina Comédia Humana, outro dos seus grandes sucessos. É Barbosa, este amigo seu, que o aconselha a ser “feliz direito”.
    Contestador não apenas do sistema político-social-econômico, Belchior também enfrenta os meandros nem sempre éticos da indústria fonográfica, à qual não se dobra para renunciar princípios por trocas mercantis fulgazes. É firme e dribla os ditames do mercado com produções que jamais renunciam às suas digitais artísticas, o que não significou nenhum tipo de purismo à Elis Regina, intérprete de voz incomum que chegou a comandar passeatas contra a guitarra elétrica, instrumento, segundo ela e outros, do imperialismo cultural estadunidense.
    Ao contrário. O cearense jamais se permitiu a querelas com questões menores e risíveis. Flertou com o blues, o rock, o jazz e a dancing music mesclando estes gêneros ao baião, o xaxado e outros ritmos do seu Nordeste. Via como convergentes influências musicais de Dylan e Luiz Gonzaga; assim como amava as obras de Gonçalves Dias e do estadunidense contraculturalista Alen Gisberg.
    E pelos acasos da vida, foi Elis Regina a responsável por lançar Belchior ao reconhecimento nacional interpretando magistralmente Como Nossos Pais, hino da resistência à opressão da ditadura.
    A pesquisa de Jotabê acompanha a trajetória do artista até seu auto-exílio no sul do país, onde se entrega ao anonimato por mais de uma década entre desventuras e dificuldades financeiras.
    A opção por uma vida discreta, como um cidadão fora dos holofotes e que declinava de voltar à ribalta e também de ser ajudado por outros artistas, amigos e admiradores talvez tenha sido o veredicto que Belchior se impôs para afirmar sua relação com a existência humana, o que ele tentou compreender à exaustão e, de alguma forma, traduziu suas mazelas e esplendores belíssimamente.

    Serviço:
    Belchior, Apenas um Rapaz Latino-americano
    Editora Todavia
    235 páginas       
  • Márcia Misi, à direita, e Ana Beatriz, à esquerda Foto: Zeca Peixoto

    Nunca fui repórter fotográfico. No texto escrito atuei como repórter, editor e chefiei reportagens, embora minha velha Nikon FM2, analógica e manual, companheira de muitas estradas e hoje decorando a estante, sempre estivesse à mão. Devo à essa querida extensão de prótese ocular muitos registros, mesmo que meras manchas desfocadas. Um deles, o que figura acima, é, para mim, emblemático.
    Explico enquanto escuto Tudo outra vez, do imortal Belchior.
    Há aproximadamente três meses fui procurado pelo amigo Penildon Silva Filho, atuante do movimento estudantil na década de 90 e hoje pró-reitor de Graduação da UFBA. Me pediu algumas imagens. Registros de passeatas e mobilizações do ME em Salvador quando do grande levante nacional pela deposição, via impeachment, do então presidente Fernando Collor de Mello. À época havia me aproximado de algumas dessas lideranças. Entre idas e vindas na ponte Salvador-Brasília, onde já residia, conheci Penildo, estudante de Engenharia, e Alexandre Sales Vieira, estudante de Direito.
    Era bom estar entre eles. Não apenas porque eram fontes necessárias ao meu trabalho. De alguma forma, me renovavam o espírito de luta. Aos 29 anos já tivera passagens pelo movimento secundarista, quando fui presidente do grêmio do colégio Ipiranga e, concomitantemente, quadro da Ação Popular, onde aprendi a fazer, estudar e, também, contestar a política para posteriormente seguir a terapia anarquista, do psicanalista Roberto Freire. Do cristianismo utópico à militância do corpo foi um pulo. Era mais divertido e revolucionário, tinha certeza.  
    Cedi as imagens, claro.
    Grata surpresa. O material passou a integrar o site colaborativo www.foracollor25anos.com.br.      
    E nele, entre os registros de minha autoria lá publicados, figura uma das fotografias dentre as que mais me marcaram a trajetória como profissional de comunicação. Não necessariamente pela repercussão pública que a imagem teve, mas, e sobretudo, no recôndito do meu pensamento. 
    Por mais de duas décadas observava eventualmente a foto e me perguntava onde estariam aquelas meninas. Mudei de residência e cidade em diversas ocasiões e a caixa com os negativos daqueles registros era a primeira preocupação. Memórias das trilhas por onde passei.   
    1992. Agosto. O país fervilhava exigindo o impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo. Me encontrava em frente à Reitoria da UFBA quando observei duas jovens “caras pintadas”. Seus rostos estavam hermeticamente divididos em preto e branco. Preto era a cor que marcava os protestos que exigiam a saída de Collor de Melo do Palácio do Planalto. O Brasil estava pintado de preto.
    As jovens conversavam animadamente. Empunhei a câmera e me dirigi às duas: posso? Permissão concedida, puxei a manivela e disparei o dedo numa sequência de cliques. Eram as estudantes de Direito Márcia Misi e Ana Beatriz. Revelei o material e entreguei aos integrantes do Diretório Central dos Estudantes da UFBA.
    A foto explodiu em circulação e se tornou um dos símbolos das mobilizações do ME de Salvador no período da luta pelo impeachment de Fernando Collor. Márcia fora apontada como musa do movimento. Bonita, cabelos untados e penteados para trás emolduravam um olhar desafiador, destemido. Ao lado, sua companheira Ana Beatriz, exibindo o mesmo penteado, dispensava um belo sorriso discreto e complacente com a amiga.   
    Não eram expressões de diversão e sim de luta.
    Na sexta, 29/09, fui convidado para a solenidade de lançamento do site no Sindicato dos Engenheiros da Bahia.
    Penildo, as meninas da foto estão aqui?
    – Sim, Márcia Misi está aqui ao seu lado.
    Me aproximei e indaguei à ela apontando para a projeção da foto na tela: é você? Solicitamente ela respondeu que sim balançando a cabeça. Praticamente o mesmo rosto. 
    Sou o autor da foto, disse.
    Márcia se levantou e nos cumprimentamos. Emoção. Calculava como impossível reencontrar as personagens daquele click. Mas reencontrei uma delas e por alguns instantes um filme me percorreu a mente. Conversamos. “Ainda lembro daquele momento”, assegurouAtualmente advogada e professora da UEFS, Márcia detalha o clima que envolveu a imagem. “Havia um sentimento misto de frustração e esperança. Frustração porque estávamos querendo tirar o primeiro presidente eleito depois de uma longa ditadura. Esperança porque tudo indicava que isso aconteceria, como aconteceu, em respeito à ordem constitucional recém estabelecida, com os militares de fora!”
    Sobre o momento do click, lembra: “Saímos da casa de Bia (Beatriz) com vontade de mostrar nossas caras pintadas (…) mostrar esses sentimentos antagônicos de tristeza e alegria. Mas também queríamos mostrar que a democracia é construída coletivamente. Quando você (este que escreve) pediu para tirar uma foto, chamei a minha cara metade. Sem pensar, a composição expressou com precisão o que se passava naquele momento”
    O depoimento de Márcia é corroborado por Ana Beatriz.”(…) Essa foto marcou uma época e marcou também nossas vidas. Momento importante na democracia brasileira, ainda tão jovem. Lembro bem do dia. Eu e Marcinha resolvemos fazer cara metade pra nos complementarmos, pra mostrar que inteiro éramos mais fortes! Estávamos fazendo história!”, recorda.
    Embora não estivesse presente no lançamento do site, Beatriz nos concedeu este depoimento de São Paulo, onde reside. Ela deixou a faculdade de Direito no terceiro ano para trilhar outros caminhos. Cursou Letras Vernáculas com língua estrangeira e posteriormente também se graduou em Design com especialização em paisagismo. “Sou eclética”, brinca.  
    Reencontrei também o advogado Alexandre Sales Vieira, ex-presidente da UNE, com quem o papo fluiu por mais de uma hora. Vieira recordou alguns pormenores daqueles dias. “Era uma disputa política também acirrada nas hostes da oposição. Todos queriam tirar proveito do movimento, inclusive os à época candidatos a prefeito de Salvador, o que não permitíamos individualmente. O movimento era maior”, afirma.   
    Serindipidades.
    Gratidão ao amigo Penildo Silva e desculpas pelos contratempos de fazer o material chegar às suas mãos. Sem a iniciativa dele estes momentos, riscados como rupestres existenciais da minha vida, certamente que nunca seriam rememorados. 
    Muita gratidão, Pena!
    Fica a dica: sugiro àqueles que ainda não visitaram o site que o façam. É uma excelente oportunidade de observar registros históricos cujos desmembramentos ainda se fazem presentes na vida social e política do país, que tanto necessita do vigor da juventude para enfrentar a estupidez política que avança neste nosso sofrido Brasil. Lembrando um hit da banda de rock Plebe Rude, bastante veiculado naqueles dias, até quando esperar? 
  • Qual a verdadeira fé? Qual religião ou filosofia representa Deus? Quem está certo ou errado quanto às narrativas das diversas crenças professadas na humanidade? Nenhuma dessas três perguntas é respondida em O budista e o cristão; um diálogo pertinente. E é justamente pelo fato dessas indagações não virem à baila que faz deste livro uma página muito especial no que se refere ao respeito às diferenças.
    Conversa elucidativa. Seja àqueles que se apegam a dogmas e entendem sua denominação como portadora única da suposta representação do divino; seja por se tratar de leitura leve, agradável e que apresenta aspectos interessantes dessas religiões dificilmente comentados para públicos mais amplos.
    A obra é fruto do diálogo entre os jornalistas e escritores Heródoto Barbeiro, iniciado no budismo aos 22 anos e que como monge leigo adotou o nome de Gento Ryotetsu, e Frei Betto, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, ligado à corrente da Teologia da Libertação da Igreja Católica. Para a prosa que resultou na publicação, os dois ficaram recônditos três dias no convento dos frades dominicanos, em São Paulo.
    A conversa, que transita por situações casuais e também contempla ensinamentos profundos que envolvem as duas filosofias de vida, é uma aula de ecumenismo, compreensão e convocação sensata ao diálogo inter-religioso.
    Partindo da interpretação dos dois autores, há muito mais convergências do que divergências entre o budismo e o cristianismo. Sidarta Gautama, o Buda, e Jesus de Nazaré, o Cristo, jamais escreveram uma linha sequer sobre o que professavam e ensinavam. Ambos demonstravam suas respectivas visões de mundo com atos. Os relatos envolvendo os dois personagens, seus ensinamentos e ocorridos, foram ditos e escritos pelos discípulos e, posteriormente, por outros seguidores. 
    Frei Betto e Heródoto também assimilam com tranquilidade e sem nenhuma barreira dogmática a origem sincrética das duas religiões. No cristianismo, dissidência do judaísmo, foi marcante a influência do zoroastrismo, assim como o budismo bebeu muito no hinduismo. E, à frente, subdividiram-se em diversas denominações e correntes as quais assumiram posturas diversas às das respectivas origens.
    Nem mesmo questões sensíveis da geopolítica internacional escaparam ao diálogo. “O Dalai-Lama é chefe de uma vertente do budismo tibetano estabelecida hoje na Índia. Mas se você for para outras regiões budistas no mundo, ninguém sabe quem é Dalai-Lama”, afirma Barbeiro, que, entrelinhas, o coloca também na História como herdeiro da representação do Tibet feudal, combatido pela Revolução Chinesa, iniciada em 1949.
    Da mesma forma que Frei Betto despeja uma pá de cal numa das crenças mais caras aos criacionistas. “(…) Somos todos resultados de uma evolução, e não filhos de seu Adãoe dona Eva. Para quem sabe um pouco de hebraico, Adão significa terra, e Eva, vida”, explica. E prossegue: “Em toda Bíblia não há uma só aula de doutrina ou tratado teológico (…) Por último, se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens, Abel e Caim, Como estamos aqui? Graças ao incesto entre mão e filho?”, alfineta o frade.
    Corroborando com Frei Betto, diz Barbeiro: “Curiosamente o budismo não é criacionista, não se contrapõe à ciência. Pelo contrário: entende que o objeto da ciência é a felicidade humana (…) quanto mais nos aprofundamos na ciência nos tornamos religioso”, assegura o budista, a quem o cristão emenda: “Somos todos frutos de 13,7 bilhões de anos de evolução da natureza”. A teoria do Big Bang é aceita pelos dois como fato concreto.
    E quando se adentra ao campo do amor carnal, especialmente no que se refere à questão sexual, Ryotetsu fala com convicção: “Dentre as religiões contemporâneas a única que tem um viés sexual é o budismo. De certa forma, isso é uma herança do hinduismo (…) a ideia de que a força sexual é a maior do Universo, a maior de todas”. No mesmo diapasão, Libânio lembra que “(…) A primeira imagem de Deus que aparece na Bíblia ou na Torá é o Deus da fertilidade. A grande promessa a Abraão era uma descendência tão múltipla quanto as estrelas do céu e as areias das praias do mar (…)”.
    Saltando à questão espiritual, quando o diálogo ganha contornos filosóficos mais profundos, há um momento em que ao mencionar Gautama Sidarta, Heródoto fala da “concepção do vazio” ou “deixar de existir” ao se atingir a “iluminação”, no que é interrompido por Frei Betto com a pergunta: “É uma forma de transcendência?”. Conforme Barbeiro, a partir da concepção budista, a verdade suprema refere-se à percepção da suprema realidade como vazio, por meio da compreensão intuitiva, discernimento e sabedoria. “Por isso compreendo a morte como uma volta, e não como uma partida. Voltamos de onde viemos, do vazio”, explica.
    Neste aspecto, emerge mais um ponto de concordância entre os escritores, a meditação. O monge leigo atenta ao fato de que no budismo as orações coletivas são práticas comuns, “(…) mas o foco central é a meditação”, enquanto o frade revela: “Minha maneira de orar é meditar. Já não faço distinção entre orar e meditar”.
    A situação social numa sociedade extremamente desigual não é deixada de lado na conversa. Enquanto Frei Betto assegura a opção socialista dos ensinamentos de Jesus, Barbeiro sustenta que o verdadeiro budista deve estar atento à construção de um mundo melhor para todos. Jesus e Buda pautaram suas ações dando o exemplo da renúncia à ostentação material, muito embora os escritores admitam que o dualismo, o bem e o mal, é uma questão a ser enfrentada. “Engels era rico e não era mau”, dispara Heródoto Barbeiro; “Tem muita gente que é pobre e é má e tem muita gente que é rica e é boa”, afirma Frei Betto.

    Serviço: O budista e o cristão; um diálogo pertinente, 131 páginas, foi publicado pela editora Fontanar, 2017.
  • Há alguns dias participei de debate numa turma de formandos do curso de Psicologia da Faculdade Social da Bahia. O convite partiu da professora Monica Coutinho, a quem sou grato pela oportunidade. O tema foi “O discurso do ódio na mídia”. Para mim, um momento bastante produtivo e de aprendizado.
    Mas um fato me chamou atenção: o interesse daquele(a)s futuro(a)s psicólogo(a)s acerca do comportamento da mídia, inclusas as suas diversas modalidades de narrativas.
    O evento só reforçou minha tese de que, do ponto de vista da formação, urge atualizar os currículos dos cursos de Comunicação.
    O advento da Internet está redesenhando o modelo da economia política da mídia, sobretudo nos seus planos de negócios. É hora de se repensar as grades curriculares ofertadas aos futuros comunicólogos.
    Áreas de conhecimento como a Psicologia Social, Etnografia digital – Netnografia -, Sociologia Digital e o incremento de conteúdos e ferramentas relativos à atuação nas redes sociais, hoje devem compor considerável espaço nestas grades.
    Vou além. E me perdoem se cometo algum tipo de heresia acadêmica. Proponho que a formação seja em Midialogia, à semelhança do que já ocorre há alguns anos na Unicamp.
    Habilitações como Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Produção Cultural, Rádio e TV, Marketing e até mesmo Cinema devem advir desta formação básica. 
    A Midialogia é a possibilidade de encampar sólida base metodológica-científica que possibilite o(a) discente ter acesso a áreas de conhecimento que abarquem robusta formação teórico-humanista e que complemente à frente as especializações que hoje conhecemos como habilitações.
    Jornalistas, publicitários, relações públicas, radialistas, profissionais de marketing e cineastas certamente que se constituirão em players muito mais capacitados e adaptados às novas realidades demandadas por um mercado que exige smarths comunicadores nas suas diversas expertises.
    Um profissional com bom texto (premissa si ne qua non) também terá que ter razoável domínio sobre análises de métricas e costumizações de edições de audiovisuais para redes sociais. 
    Até mesmo porque será ele o responsável pela captação e edição dos conteúdos imagéticos – vídeos e fotos. Assim como responderá pelo primazia do texto, seja escrito ou falado.
    Internet é convergência. 
    Ou seja, seu olhar sobre o objeto a ser narrado deverá resultar num combo discursivo que tenha capacidade de reter atenção diante de uma oferta de conteúdos que bombardeia por minuto com milhões de vídeos, fotos e textos.
    A economia da atenção foi alterada significativamente. É disputa pesada. Portanto, o saque do profissional deverá se estender da leitura do comportamento dos usuários, que apenas não consomem informações, mas muito mais produzem, às estratégias narrativas que consigam otimizar as retenções de atenção num ambiente no qual a time line é a sua maior inimiga.
    Ambientes inescapáveis onde a concorrência já se dá com conteúdos de altíssima qualidade a memes dos mais idiossincráticos possíveis, porém passíveis de, por vezes, arregimentar grandes séquitos de internautas.
    As mortes do jornalismo diário impresso e do modelo tradicional de TV deixam espaços a serem ocupados por players da mídia que tiverem capacidade de entender este novo consumidor/produtor de informação.
    Por isso, corram. E tentem trocar os pneus com os carros em movimento. Não há mais tempo para parar. De modo contrário, serão tragados pelos fatos.

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