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Por intermédio de uma amiga tive acesso ao documentário Precisamos falar com os homens? O filme, iniciativa da ONU Mulheres e produção do site Papo de Homem, volta-se ao debate sobre questões como igualdade de gênero, machismo, misoginia, violência contra mulheres e outros temas afins. O roteiro é bem estruturado, mas peca num ponto essencial: a ausência da discussão acerca da execução das leis da Guarda Compartilhada e Alienação Parental.

Simples: nenhum debate sobre estes temas pode se eximir de contemplar estas questões. Depoimentos de especialistas de diversas áreas abordam situações que se estruturam e decorrem de uma sociedade paternocrata e falocêntrica. Mas deixam buracos que empobrecem a argumentação.

Muito embora, e em boa medida, haja o consenso entre as fontes de que homens e mulheres devem ser protagonistas com equidade de ações para o enfrentamento destes problemas, a situação do homem é abordada sob a perspectiva de “convidá-lo” à adequação civilizatória e à compreensão da igualdade de gênero. Respeito às mulheres, divisão dos trabalhos domésticos, cuidados para com os filhos etc.

Em situações pontuais, há referências à necessidade, por exemplo, da extensão do tempo da licença-paternidade, que hoje é de uma semana. Pais também devem dividir as árduas tarefas dos cuidados iniciais para com os recém-nascidos. Nada mais natural. Da mesma forma que assevera com precisão a necessidade de uma nova mentalidade masculina face à díade masculino X feminino. A violência decorre de um construto sociocultural que amalgama valores introjetados desde a infância e que são responsáveis pelo quadro atual.

Mas aí emerge situação paradoxal. Desde que a Lei da Guarda Compartilhada foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em 2012, esta modalidade de guarda vem crescendo. Entre 2015 e 2016 saltou de 12,9% para 16,9%. Cada vez mais homens têm buscado estar presente e ter mais convívio na vida dos filhos após separados. No entanto, o maior empecilho à execução da Lei reside na resistência que muitas mulheres têm em dividir a guarda dos filhos com os pais.

Alguns argumentos são pífios. Alegam “feministas” que se trata de uma lei “de opressão de gênero”; outras acreditam que pais não têm capacidade de assumir tal tarefa. Ora, isso é tudo que possa ser concebível, menos que se trate de uma postura feminista.

Não é. É maternocracia. É o machismo na sua forma mais sofisticada. É uma espécie de violência de gênero dissimulada e que embaça o debate. Sim, é. E o documentário sequer tangencia a questão. Busca ouvir fontes ligadas a institutos voltados à reeducação masculina quanto a sua responsabilidade para com os filhos, igualdade de gênero e respeito às mulheres. No entanto, se esquiva de abordar a violência perpetrada por muitas mulheres que apenas se limitam entender os pais como disseminadores de sêmen e provedores materiais.

São milhares de casos relatados no Brasil e no mundo de cidadãos que desejam aproximação para o natural direito de convívio com os filhos após separados, ou mesmo frutos de uma relação efêmera, e que são criminosamente impedidos desse direito, que também é dos filhos.

Ainda nos anos 80 ficou reconhecido internacionalmente o movimento “Pais por Justiça” (Father for Justice), iniciado na Inglaterra por iniciativa de pais vítimas de decisões judiciais absurdas que limitavam o convívio com as crias, lhes impondo visitas quinzenas e uma série de restrições. Pais, registre-se, com condutas ilibadas. Esses pais resolveram se expressar em tribunais com performances e flash mobs.

No Brasil, o movimento também ganhou corpo. Foi uma resposta. Em diversas situações mulheres inventam falsas denúncias para confundir a Justiça e afastar pais de filhos. O rancor e as mágoas para com ex-companheiros são transferidos para as crianças. Outrossim, trata-se também de um jogo econômico. Pensão alimentícia, com muitas exceções, virou indústria.

Esse contexto leva a muitos casos de alienação parental, crime previsto em lei e que figura com  milhares de registros neste macabro enredo. O documentário A morte Inventada, filme de iniciativa da produtora Caramiola, apresenta o problema com relatos gritantes. Na Bahia, está em fase final a produção de outro doc que navega na mesma direção. O documentário Tranças, de autoria de Lívia Sampaio, relata grave problema ainda em curso.

Debater igualdade de gênero sem que tais questões sejam inclusas enfraquece sobremaneira qualquer iniciativa neste sentido. Se existe a indubitável necessidade de falar com os homens, parte significativa deles têm também que ser ouvida. Indagações dirigidas a mulheres que, ao fim e ao cabo, se apegam a vendetas para estender desfechos mal resolvidos.

Num determinado momento do documentário, num círculo de discussão, o facilitador afirma a necessidade do “homem chorar”. Vale registrar que muitos têm chorado pelo fato de não terem possibilidade de exercer suas paternidades.

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