
A Venezuela saiu dos noticiários. A Argentina também. Por quê? O silêncio encontra resposta por duas vias de apostas por parte dos grandes meios corporativos. A concretização do golpe de estado em solo venezuelano com a ascensão do autoproclamado presidente e herói de proveta Juan Guaidó, que num ato de redenção livraria os venezuelanos da “tirania” socialista da Revolução Bolivariana, fecharia a mandala com a “exitosa” gestão de Mauricio Macri na Argentina.
Combo narrativo perfeito à afirmação das suas teses.
O triunfo do ultraneoliberalismo selaria o destino da América do Sul. O Brasil estaria no caminho certo.
Maurício Sardenberg era só risos na bancada da Globonews.
O povo venezuelano resistiu ao golpe e Nicolas Maduro, presidente do país, segue firme enfrentando o violento bloqueio econômico imposto por Donald Trump, mandatário estadunidense. Os problemas na Venezuela são muitos. Há escassez de alimentos e gêneros de primeira necessidade. Não é fácil encarar a maior potência econômica do planeta e que deseja pôr as mãos na principal riqueza do país. Trilhões de barris de petróleo de altíssima qualidade se encontram no seu subsolo. Mas o povo bravamente resiste. E Guaidó? O patético já não consegue sequer reunir cem seguidores num churrasco.
E na Argentina? Bem, a Argentina seria a vitrine que os grandes meios de comunicação incensaram com a eleição do direitista Mauricio Macri. Sim, agora o país se desenvolveria com as redentoras políticas neoliberais festejadas pelos colunistas “especializados”. Em pouco tempo, a era Cristina Kirchner, com seu programa de centro-esquerda, estaria superada. O “novo” momento com pleno emprego e abundância finalmente chegaria à Argentina. O maná do ultraneoliberalismo proveria nossos vizinhos. O tempo de fartura estava prestes a se concretizar. Os olhos de Miriam Leitão brilhavam.
Tiro pela culatra.
Tenho dito, a História é uma senhora tinhosa. E seu curso é um intrépido vagão que atropela indiferente todo aquele que a negue, pedindo licença ao poeta.
As políticas ultraneoliberais impostas por Macri na Argentina estão levando o país ao caos. A inflação chega à casa dos 50% e a taxa de juros bate a 70%. Nas ruas das grandes cidades, o retorno da prática do “trueque”. As pessoas estão trocando roupas por pão; serviços por comida; serviços por serviços. Outros se alimentam nos lixos enquanto famílias despejadas das suas residências por falta de pagamento das prestações ou aluguéis são obrigadas a dormir nas ruas. Pais, mães e filhos vivendo nas calçadas com o que resta dos seus móveis e utensílios.
E é este o mesmo modelo que estão impondo ao Brasil, hoje com mais de 15 milhões de desempregados, sem contar outros tantos milhões em situação de trabalho precário numa espécie de neo-escravidão.
A Venezuela passa por problemas similares? Em parte, sim. Mas não porque o governo de lá esteja conduzindo uma política que favoreça banqueiros e magnatas, mas em decorrência de um enfrentamento, de uma guerra econômica que tem motivação diametralmente oposta aos intentos do ultraneoliberalismo.
O ultraneoliberalismo pune de maneira semelhante aqueles que o endossam e também os que o rechaçam.
Delírio do século XXI.
E os grandes meios de comunicação? Estes seguem à risca seus roteiros, sobretudo na América do Sul. Obliterar os fatos e conduzir as narrativas com enquadramentos direcionados é a ordem dos aquários das redações. Quantos no Brasil souberam da vigorosa greve geral ocorrida na Argentina no último dia 29 de maio? Creio que pouquíssimos. Quantos nos Brasil souberam das estrondosas manifestações de apoio ao governo da Venezuela durante a tentativa de golpe do bolsomínio local, Juan Guaidó? Conta-se nos dedos.
Por isso que Bolsonaro está tão preocupado com a quase certa derrota de Macri na Argentina; por isso que Bolsonaro recebeu o patético Guaidó no Palácio do Planalto com honras de chefe de Estado.
Trump o conduz.
A agenda de privatização da previdência pública, do desmonte das leis trabalhistas, da precarização do trabalho, da destruição das políticas de proteção social, do ataque à educação pública e à cultura, do ódio às minorias, do desmonte do Estado e a capitulação ao sistema financeiro internacional e, enfim, da uberização da vida, é o roteiro macabro que a sociedade mundial enfrenta neste final da segunda década do século XXI.
E a escolha das nossas consciências tem que optar: civilização ou barbárie?
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