
Neste início de semestre, 27/08, fui partícipe de evento promovido pelo Centro Acadêmico Caju, entidade que representa os alunos do curso de Jornalismo de uma faculdade particular de Salvador. O tema contemplado foi Jornalismo de Dados. Oportuna escolha. Na mesa, as jornalistas Lívia Lemos, social media e empreendedora digital, Mariela Santiago, jornalista da área cultural e também cantora, e o jornalista, professor e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas Yuri Almeida.
As falas dos convidados, em resumo, indicaram situação muito clara: empreender é o caminho para profissionais que historicamente foram, em boa medida, forjados a trajetórias dentro de empresas tradicionais de mídia cujo mercado, no Brasil, é desenhado em grandes oligopólios concentrados nas mãos de poucos grupos, a maior parte familiares.
Outrora, a meta do recém-formado era a cadeia de emissoras X, o conglomerado de impressos Y, a rede de rádios Z ou a comunicação corporativa. A Internet redesenhou este panorama e não apenas abriu mais oportunidades como acena com possibilidades antes inimagináveis.
Mas calma!
Provocações necessárias. O que está ocorrendo na formação dos jornalistas e comunicólogos em geral num ecossistema midiático que vivencia tremendo sacolejo nesta segunda década do século XXI? E de que maneira egressos desses cursos podem acumular know how suficiente para estarem aptos como empreendedores a suprir um mercado de mídia que cada vez mais demanda atributos e competências bem diversas das que lhes são ofertadas nos caducos cursos de Comunicação?
A percepção que ocorre é que, guardadas exceções, os cursos de Comunicação, nas suas várias habilitações, vivenciam um delay programático de, no mínimo, quinze anos. Os programas e disciplinas se encontram engessados no tempo e remetem a modelos já superados da economia política da mídia.
Comentando acerca deste evento com um colega, ele mencionou a expressão “queda de braço” ao se referir à plausível díade “domínio de ferramentas x formação humanista do profissional”. A nosso ver, essa díade não enseja tensão. Contrário, aponta a necessidade de complementação.
Bom texto, formação humanística e capacidade de reflexão crítica da realidade são insumos intelectuais indispensáveis às formações das áreas de Comunicação. No entanto, entender que são o bastante é equívoco sem tamanho. Ou vai esperar que o mercado complemente a formação desses estudantes num momento que é flagrante o borramento do campo profissional dos comunicólogos, inclusas todas as habilitações? Ou o que fará, de fato, um comunicólogo formado na academia ser um comunicólogo stricto senso? Adianto: por enquanto esta tarefa não é levada a cabo na maioria esmagadora dos cursos de Comunicação. Porque defasados e preguiçosos de entender e acompanhar os novos ventos da mídia.
Há alguns meses, ao entrevistar candidatas e candidatos para uma vaga de estágio, busquei saber deles acerca do conceito da pauta estendida. Ou seja, em que medida um conteúdo publicado deve ser acompanhado na reverberação por parte dos públicos? Perguntei também sobre ferramentas gratuitas como o Gephi, Netvizz, Netlylic e outras, assim como a importância das análises de discursos na prospecção qualitativa das grandes big datas narrativas. Num universo de 12 discentes, três tinham alguma competência em manusear estas ferramentas, no entanto nenhum deles sabia o que fazer com as informações extraídas. Os demais não detinham conhecimento de nada.
Este descompasso, a rigor, é reflexo de formações que vestem supostas máscaras tecnológicas – incentivos a acessos a portais, aulas a distância etc – mas que, ao fim ao cabo, não provém os discentes de competências necessárias que os coloquem aptos a exercer o Jornalismo e outras narrativas do campo comunicacional nos seus vários desenhos contemporâneos.
Ademais, infantilizam os discentes com joguetes idiossincráticos em plataformas burras. E, o mais grave, nem ao menos se importam com a velocidade de entrega do sinal do wifi a estes acadêmicos nos espaços de ensino. Enxergam este quesito como um “detalhe” do suporte técnico, quando na verdade é a infraestrutura determinante. Porque estruturante.
Entender o texto no Twitter, Facebook e Instagram, acessar as trends do Google, perceber as repercussões dos conteúdos publicados e agrega-las à pauta máster, compreender as métricas das redes sociais, ter razoável conhecimento de aspectos relevantes da Sociologia digital e até dominar o manuseio do Excell, entre outras habilidades instrumentais, constituem arsenal de competências que os cursos de Comunicação pouquíssimo ou nada contemplam nos seus currículos. Em pleno momento da ciência de dados e da ascensão da midialogia, as formações dos futuros comunicólogos, com devidas exceções, ainda rastejam no paleolítico da mídia.
É fácil construir narrativas pseudo-pedagógicas de que seus conteúdos e modelos preparam estudantes para o mercado. Difícil mesmo é entender como está este mercado e que tipo de profissional demanda. No que concerne as formações das diversas áreas de Comunicação, a maior parte dos cursos ainda fala aramaico antigo e o mercado mandarim moderno. E o discente busca uma luz para entender este imbróglio.
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