
Maravilhoso anarquista. Há quase 12 anos todas as trincheiras da luta pela liberdade perderam o médico, terapeuta, escritor, dramaturgo e roteirista Roberto Freire, falecido em 23 de maio de 2008. Autor de 25 livros, dentre os quais Cléo e Daniel, Sem Tesão Não Há Solução, Ame e dê Vexame, Coiote e Eu e um outro, Roberto Freire, o bigode, foi seguramente um dos maiores intelectuais do país. Para a televisão, escreveu os roteiros da Grande Família e TV Mulher. A repercussão da sua morte, à época, não teve o destaque merecido. Freire era uma espécie de bad boy entre os círculos mais letrados deste Brasil, à direita e à esquerda.
Chutar o balde lhe dava prazer. E ele o fazia com maestria. Hoje faz falta alguém como Roberto Freire nestes tempos bicudos em que transar e gozar são quase sinônimos de subversão neste país que encaretou e ficou sisudo. A terapia da soma é uma das mais deliciosas lembranças do que de bom legou os anos 80.
Recordo quando tive o primeiro e único contato com o terapeuta aqui em Salvador. Era 1989. O Muro de Berlim ruíra. Terrível baratino. Neste ano fui convidado a conhecer um bar diferente, o Tesão e Cia, nas imediações da Praia de Jaguaribe. Cooperativa de jovens que nos finais de semana trabalhava com o bar e no restante dos dias oferecia terapias de grupo. Encantei-me pelo trabalho, ainda que polemizando. À época militante de uma esquerda mais ortodoxa, aquilo tudo poderia ser uma grande blasfêmia. Mas assumo que capitulei diante dos argumentos daquele “coroa”.
Roberto Freire me apontou caminhos de transformação social que jamais vislumbrara.
Quem foi esse cara? Livre militante de ideias libertárias, realizou sua formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise. Posteriormente, rompeu com a prática psicanalítica e se aproximou da obra do alemão William Reich (Análise do Caráter e Psicologia de Massas do Fascismo, entre outros livros), que trabalhou com a bioenergética nos anos 20 e 30 e morreu numa penitenciária da Pensilvânia, nos EUA, em 1957.
A partir da terapia reichiniana, Freire desenvolveu a proposta da terapia anarquista, a somaterapia, prática que, segundo ele, buscava liberar as potencialidades do ser humano.
Diz o terapeuta: “A pessoa saudável é aquela que vive sua originalidade se auto-regulando e buscando sua unicidade. Essa seria a finalidade biológica de cada vida. Toda vez que alguém não consegue expressar sua originalidade, a nossa espécie e o ecossistema em que vivemos perdem uma contribuição ao seu desenvolvimento, tornando-se, então, essa vida uma experiência inútil”.
A partir dos meados dos anos 80, quando o regime militar acenava sinais de fadiga, Freire iniciou a rede de somaterapia país afora. Dezenas de núcleos foram implantados em diversas cidades. O trabalho se dava mediante exercícios teatrais, jogos lúdicos e de sensibilização, criando uma série de vivências que possibilitavam ricas descobertas sobre o comportamento coletivo. A soma busca perceber como o corpo reage diante de situações comuns no cotidiano das relações humanas, a exemplo da agressividade, comunicação, sensualidade e a associação com os sentimentos e emoções. O objetivo é criar contraponto à massificação. Esta terapia se constituiu como processo com conteúdo ideológico explícito, o anarquismo. Que seus frutos proliferem neste momento em que as liberdades no Brasil estão por um fio.
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