Nem lira nem vinte anos

Lira

A tarde passa cinza e úmida. Ecoa pelo quarto Luz e Mistério nas vozes de Dado Villa-Lobos e Lia Galdino, a balsâmica parceria de Beto Guedes e Caetano. Enquanto isso, a tela muda da TV transmite o duelo entre croatas e dinamarqueses. Gosto dos vikings.

“… Amargo e sombra escura

Procuro em vão

Banhar-me em ti

E poder decifrar teu coração…”

Tempo de pensar. Defender-se do inferno astral que cerca os dias, as horas, os minutos… não é fácil encarar os greys como uma condenação do tempo. Muitos diriam ser dádiva. Nada consola.

Seguir irresoluto. Rivalizar com a ansiedade e o medo tentando ser mais forte do que passados e futuros. O olhar circonfere em 360. Revistas e livros desalinhados à mão. Nada apetece. Apenas o cérebro remói. E é intenso. Projeta fotografias magentas e vídeos riscados.

Sorrisos, momentos. Aquele dia feliz quando não se imaginava o que adviria à sombra do existir. Um bebê ao colo; a criança que engatinha e arrisca os primeiros passos; o filho companheiro que se apartou; os que se foram; a barriga que anuncia a chegada; a praia; a neve; o sol e a chuva. A punição das recordações.

O paladar pede doce. O amargor é intragável. Onde estará meu melhor disfarce? Aquele que conduz invisível às percepções intrusas e fingem livrar dos temores mais recônditos.

Viver menos à frente do que já se viveu.

Quisera o existir se resumisse às teclas. Seria mais fácil. O lúdico, em time lapse, salva da realidade. Seja por segundos. Mas, definitivamente, a vida nem sempre é uma família feliz como publicidade de margarina. Por vezes, melhor se enquadra num antigo outdoor da Benneton, daqueles que Oliviero Toscani fustiga intensamente os temores coletivos.

Na constelação de Câncer, os julhos não são convidativos. Desde que o lar escapou aos pés, que agora seguem trêmulos na corda de onde se mira o abismo e, logo abaixo, a estrada em miniatura que aponta à beleza de algum canto inatingível.

Quisera esse canto existisse, quisera…. A cada drama, cenários que se interligam. Como em Babel, de González Iñárritu. Todos partes de um mesmo roteiro. Nas quais os sofreres são inescapavelmente densos como os narrados por Álvares de Azevedo. Não há mais liras. Nem vinte anos.

O tempo passou. E não retorna.

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