Livro_André

Sorvendo o caldo noticioso nesta aurora de 2020, chega-se à assertiva constatação que a obra “Para onde vai a política brasileira?”, do cientista político Cláudio André de Souza, ressoa como inquietante vaticínio à situação do Brasil neste final/início de década. “A democracia brasileira está sendo testada em alto nível de complexidade”, assevera o doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor de Ciência Política da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), campus dos Malês, Bahia.

No momento que comento este livro, pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada enquanto fogos ainda saudavam a chegada do ano novo, indica que brasileiros que consideram a democracia melhor forma de governo diminuiu de 69% para 62% durante o primeiro ano da presidência de Jair Bolsonaro. Queda de sete pontos percentuais. Gradiente negativo de descrença concomitante à disparada do preço da carne, dos combustíveis e do gás de cozinha, entre outros itens, e após 12 meses de esmagamento dos direitos sociais.

Cenário complexo e perigoso. A História já nos deu fartas provas do que pode resultar esta combinação de fatores.

Recordo que quando Claudio me entregou o exemplar, novembro do ano passado, teceu o seguinte comentário: “verá que as pistas que aponto lamentavelmente é aonde estamos chegando”. Não fosse ciência em estado refinado diria se tratar de profecia em estado bruto.

Manuseando com maestria bisturi e robusto instrumental da sociologia política, André analisa a crise de representação que ganha corpo em 2013 com as chamadas jornadas de junho e culmina com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em abril de 2016. Posteriormente, este quadro reforça a narrativa da negação da política, fenômeno que alavanca o sentimento de contraponto ao “sistema” e leva a extrema-direita à vitória eleitoral em outubro de 2018.

Quais claquetes foram batidas à enredagem das cenas dos gigantescos e violentos protestos contra aumentos de preços dos serviços de transportes e, ao mesmo tempo, estabeleceram pontes com o início da perda de fôlego do projeto lulopetista, que ainda registrava momentos de pujança, embora já sob a batuta de Dilma Vana Rousseff? Quais espaços são ocupados pelas narrativas que negaram a política numa auspiciosa engenharia ultraneoliberal cujos representantes, não tendo players que lhes respondessem a contento às entregas represadas num mundo em crise econômica, apostaram suas fichas num combo que reuniu fascismo de costumes, instrumentalização dos órgãos de controle e desconstrução de valores democráticos e mesmo liberais?

O cientista observa estes cenários num panóptico que reúne robusta gama de pesquisas de opinião e referências bibliográficas de peso, enquanto pinça com rigor o espelhamento destes cenários a partir da agenda jornalística. Artigos, trechos de matérias, comentários de articulistas e jornalistas ilustram as densas argumentações e hipóteses levantadas por Cláudio André. Seja na busca de entender o esfacelamento do projeto encetado pelo Partido dos Trabalhadores e aliados a partir de 2002; seja para descortinar as tramas que entendem a necessidade de pôr fim ao modelo de conciliação de classes, concessão que permitiu, até certo limite, que agendas econômicas mais distributivas dessem feições a um projeto republicano num desenho de nação mais inclusiva.

Claudio André avalia o comportamento dos principais líderes políticos do país no tabuleiro de disputas nos últimos sete anos, sobretudo o fiador do projeto de conciliação de classes, o metalúrgico e posteriormente presidente Luís Inácio Lula da Silva, a quem o autor não declina de analisar com crivo distanciamento. Assim como não se esquiva de projetar possíveis cenários que não se concretizaram em decorrência de cálculos políticos balizados na ambição de projetos pessoais. Não obstante, crava os papéis que políticos como Ciro Gomes, Guilherme Boulos, entre outros, podem desempenhar à frente.

O fator Bolsonaro, conforme André, decorreu de forte mobilização (“não confundir com a participação”, alerta) da sociedade, embora não perca de vista o papel das redes sociais como rolo de impacto (uso do Whatsapp e disseminação de fake news), que se não foi determinante, agiu como forte catalisador de expectativas nas chaves de valores bem exploradas pela extrema-direita. Inimaginável que temas da Guerra Fria, a exemplo do anticomunismo visceral, retomassem imaginários de diversos grupos, o que ocorreu nas variadas formas narrativas catapultadas pelas fake news.

Da mesma forma que aponta as entranhas do poder nas gestões capitaneadas pelo PT de serem, de alguma forma, responsáveis pela paralisia dos movimentos sociais, arrefecendo-os numa espécie de acomodação deletéria à energia necessária que as ruas exigiam para rechaçar retrocessos, o que não ocorreu.

Para tal, o autor entende impreterível a reinvenção das estratégias da esquerda no Brasil ante o perigo, já em curso, do fascismo se cristalizar como fenômeno social. Neste quesito, pondera a real necessidade dos futuros pactos se estabelecerem ancorados em efetivos enfrentamentos e reformas e não arranjos orçamentários temporãs apenas com o fito de atender demandas pontuais. Roteiro que se constituiu em efemérides de gestão.

Declinar, por exemplo, das reformas política e tributária, melindradas pelo governo Lula quando o presidente conduzia a nau em céu de brigadeiro com cerca de 87% de popularidade, levou o projeto lulopetista à zona de conforto que talvez tenha obnubilado o percurso que poderia garantir couraça mais rígida ante as previsíveis investidas do grande capital, que ocorreriam inexoravelmente. Na disputa pela pouca farinha, todo o pirão, mais uma vez, foi reapropriado pelos senhores da casa grande.

Como retomá-lo?

Serviço:

SOUZA, Cláudio André. Para onde vai a política brasileira? Breve ensaio sobre a crise de representação e o pós-impeachment. Appris Editora, Curitiba, 2018.

Obs: o livro pode ser adquirido com o próprio autor.

Facebook: https://www.facebook.com/claudio.a.souza.7

Twitter: @claudioandre_

Ou no site da Editora Appris: https://www.editoraappris.com.br/ 

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