Estertores da estupidez

EstúpidosAinda não assisti O Processo, documentário de Maria Augusta Ramos que trata do golpe de Estado de 2016 que depôs a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita com 54 milhões de votos. No subtítulo do filme, a pergunta: “De que lado você estava?”
Pertinente.
E muito embora possa parecer uma indagação óbvia àqueles que trazem convicções políticas assentadas, que é o meu caso, é de complexidade oceânica.
Desde que me conheço por gente mudei de posicionamentos diversas vezes. Mas nunca de lado. Observar a História, sobretudo.
No entanto, e digo sem a soberba de me entender como o senhor da verdade, de 2013 para cá foi acirrada no Brasil a temporada de arroto e ode à absoluta ignorância.
Há quem discorde, mas continuo cravando: as chamadas “jornadas de junho” abriram os portais da estupidez coletiva.
Jovens de classe média enrolados na bandeira do Brasil e ufando que “meu partido é o meu país” fora uma das senhas de que a serpente rompera a casca do ovo.
O fascismo chegou à superfície com todas suas cadelas no cio.
E queria gozar.
Essa turba cresceu com o apoio ingênuo e bobo de muitos militantes de esquerda, que viam naquelas mobilizações alguma legitimidade de enfrentamento de classe.
Se passaram. Não era.
Era, sim, o engrossar da intempestividade histérica movida, de início, pelos grandes grupos da mídia corporativa, enquanto o aparato jurídico do Estado se preparava para o segundo round pós-mensalão, a famigerada Ação 470 que foi legitimada até por “intelectuais” que se auto-intitulam de esquerda.
Lembro bem, tenho os registros.
A partir daquele momento, começa a ser nítida a díade: apoio ou não ao convescote golpista.
E não cabia nem continua cabendo meio termo.
Ou se posicionava pela manutenção do Estado Democrático de Direito ou embarcava na ruptura com nuances obscurantistas e protofascistas.
A segunda posição foi hegemônica. Formada a espiral de silêncio, tomando emprestado a Elisabeth Noelle-Neumann, a histeria coletiva “anti-corrupção” sufocou as dissonâncias de opinião. Nas ruas e nas redes sociais.
Ânimus que representou, irrefutavelmente, a postura de uma classe média historicamente bestializada, absolutamente iletrada, ignara, estúpida, preconceituosa, infantil e adepta da crença de que problemas estruturais se resolvem com heróis de ocasião.
Eles estavam do lado de lá.
Do lado do golpe.
Dois anos se passaram. O desemprego cresce, o combustível aumenta, a fome retorna, os direitos sociais são paulatinamente destituídos e as panelas… as panelas se calaram.
Pensando bem, de que lado eles estavam? Do lado que nunca, de fato, refletiram objetivamente. São escravocratas aceitando a condição de escravos; foram capitães do mato se achando senhores de engenho. São tolos. E hoje têm vergonha de se assumirem como tais.
Eles estavam do lado sabe de que? Dos seus próprios demônios; dos fantasmas que lhes atormentam a vida desde a última e inesquecível viagem a Miami e um passeio a um clube meia boca em Boca Raton.
Eles estavam do lado do sofá da sala inebriados pelo folhetim telenovelesco ou orando dentro de uma igreja neopentencostal na viva fé da bem aventurança financeira.
Eles estavam do lado da atitude fácil; da lábia maneira da vizinha revoltada que achava o tomate caro e agora não sabe como comprar o gás. Eles estavam na lista do whatsapp da escola do filho indignados porque queriam “o país de volta”.
Eles estavam do lado que sempre estiveram, o da incapacidade de enxergar a realidade. Não porquê não queiram, mas porque não conseguem.
Sigam, estúpidos. Vocês ganharam. Porque perderam.

  1. Avatar de textosaovento
    textosaovento

    ·

    Republicou isso em Textos ao Ventoe comentado:

    Um alô à estupidez.

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