trajetória de (re)existência

Alguns colégios particulares Brasil afora enviaram cartas a pais, mães e responsáveis orientando-os a não permitirem que seus filhos assistam a série sul-coreana Round 6. A produção da plataforma de streaming Netflix, escrita e dirigida por Hwang Dong-hyuk, tem arrebatado grandes audiências em todo mundo.
O intento aqui não é encetar nenhuma crítica ou análise fílmica sobre a série. Falta-me expertise e deixo para quem entende.
Atenho-me à análise do apelo dessas instituições.
O que primeiro chama atenção é a preocupação desses colégios em ocupar o lugar de avaliação dos genitores e genitoras sobre deixar ou não seus filhos e filhas assistirem.
O conteúdo é exibido com recomendação a partir de 16 anos, e é o bastante para a reflexão. A rigor, o critério deve ser definido pelas famílias.
E é aí que se percebe que o buraco é bem mais embaixo quanto ao alarido com verniz de preocupação pedagógica.
Justificam violência extrema e baboseiras como “indução ao homossexualismo”.
Patético. Adolescentes que cresceram jogando Grand Theft Auto (grande ladrão de carros) e outros games com muito sangue jorrando nas telas, são agora alvos da falsa moral de colégios que se tomam preocupados com a violência de Round 6.
Só rindo.
Há motivos. Round 6 expõe as vísceras da sociedade capitalista e põe abaixo o corolário de valores que muitas dessas escolas têm como sacrossantos: o sucesso depende do mérito individual daqueles que “se esforçam” para conquistá-lo. São os outdoors nada educativos estampando o/a “melhor” porque conseguiu ascender ao curso de Medicina. E ser médico é atalho à grana, ao dinheiro. O mercado recompensa. A escola X, Y ou Z é o caminho e a verdade. Trilha da prosperidade.
Passaram recibo. Se sentiram nús ante o dedo enfiado na ferida. Numa sociedade desigual o “sucesso” é legitimado pelas amplas possibilidades de um punhado de gente em detrimento de muitos. A vida societária é um jogo. E estes colégios ensinam a jogar, a chegar “lá”. Pode Big Brother e o Caldeirão do Hulk com sua benemerência fake. Sempre pôde Silvio Santos e seu Baú da Felicidade onde pessoas pobres eram ridicularizadas para ganhar uns trocados sob as gargalhadas de Abravanel. No país que esfomeados atacam caminhões de lixo para se alimentar a violência reside na série Round 6.
Melhor bancar a egípcia à realidade concreta do que refletir sobre ela. Seus alunos e alunas devem ser preparados para se tornarem os vips, os que chegarão “lá” e conquistarão os louros no topo escalada. E de cima contemplarão a disputa por ossos e restos de comidas.
Não são tiros e corpos ensanguentados que incomodam esses colégios e sim o subtexto que revela e não aliena.
Pedagogia da hipocrisia.

Rever erros, atitudes, posturas. Viajar no tempo. Adentrar universos paralelos e encarar diversas versões de si próprio à busca de contornar situações indesejáveis que causaram transtornos e tragédias. Reconstruir relação com o amor que marcou a existência. Possibilidade de tudo ser reparado. Ou não.
A sci-fi Se eu não tivesse te conhecido, produção catalã original Netflix, tem roteiro sustentado na hipótese da relatividade do tempo, formulada pelos astrofísicos Albert Einstein e Stephen Hawking.
No entanto, a opção pelo gênero serve apenas como argumento para arremessar os personagens protagonistas a escolhas de condutas pelas quais se pagará um preço. E às vezes alto.
Compreender melhor a companheira, o companheiro, os filhos; o beijo inconscientemente negligenciado à mãe; o amor não declarado verbalmente ao pai. Se arrepender e retornar para reparar o dano causado. A entes queridos e a si mesmo. Reconduzir trajetórias.
Uma das personagens principais, a cientista Lizbeth Everest, vivida pela atriz Mercedes Sampietro, realiza experiências com o executivo Eduard Marina (Pablo Derqui), viúvo da professora de artes Elisa Montclant (Andrea Ros) com quem tinha dois filhos, também falecidos no mesmo acidente que vitimou a mãe.
Eduard, ou Edu, transcende a diversos universos nos quais têm oportunidade de reaver momentos e fazer descobertas que o levarão à infância e juventude com objetivo de reencontrar Elisa, seu grande amor. Descobertas que também o atormentarão.
Ao menos nesta primeira temporada, o final é surpreendente. Torçamos que a produtora catalã prossiga.
A série conta com 10 episódios de 50 minutos cada, em média. Além de trilha sonora belíssima, com destaque para a música-tema El risc dára interpretada pela atriz catalã Andrea Ros.
Vale muito à pena.

Sociedade que marcha gradativamente para estado político pós-neofascista. Embora não utilize diretamente esta expressão, em Estado pós-Democrático. Neo-obscurantismo e gestão de indesejáveis, o juiz Rubens Casara, mestre em Ciências Penais e membro da Associação de Juízes pela Democracia, expõe a situação de gradativa barbárie político-judicial pela qual passa a sociedade brasileira.
Interesses neoliberais ditam regras que têm levado o país à quebra do Estado Democrático de Direito. Para tal, utilizam como suporte ligado a esses interesses a poderosa operação da mídia corporativa, que praticamente põe de joelhos boa parte do Poder Judiciário, usando-o como braço necessário à implantação radical da agenda ultraneoliberal.
Liberdades e garantias individuais mandadas às favas em detrimento do legítimo jogo democrático. Destituição em gradiente crescente dos direitos sociais da maioria da população. Estado com nuances fascistas movido a maiorias de opinião de ocasião que transforma os ritos judiciais em espetáculos midiáticos.
Assim foi consolidado o bolsonarismo.
Publicado pela Civilização Brasileira, o livro tem orelha assinada pela filósofa Márcia Tiburi.
Fica a dica.

Ao ler Os engenheiros do caos do jornalista e escritor ítalo-suíço Giuliano Da Empoli interrogo-me se Walter Benjamin era profeta e não filósofo. Distopias. Democracia se dissolve em diversas regiões do planeta estuprada por estratégias de tecnopolítica que têm transformado partidos em agências de marketing digital.
Debate político deu lugar à programação de algoritmos capazes de levar narrativas devidamente “empacotadas” aos eleitores. Os spin doctors têm minerado comportamentos de milhões nas redes sociais e portais de buscas para identificar fragilidades e expectativas dos indivíduos. Entregam o medo e os fazem refém dele alimentado suas emoções negativas. William Reich tinha razão.
Reedição do neofascismo se dá mediante enxurradas de fake news e teorias da conspiração, tornando-o o fenômeno de massa. Importante é vociferar, criar polêmicas inúteis, naturalizar o absurdo e se valer do escárnio fácil aos inimigos de ocasião. Para cada bolha de opinião um discurso costumizado e devidamente entregue. A finalidade é agregar eleitores sem que estes entendam que estão se constituindo num grande rebanho.
Movimento 5 Estrelas na Itália, Donald Trump nos EUA, Victor Orbán na Hungria e Jair Bolsonaro no Brasil são algumas das crias desse tenebroso roteiro.
Política deriva da cultura. Assim pensava o ministro da propaganda de Hitler, Josef Goebbels; assim ocorre com a pandemia neofascista do século XXI.
“Se, nos anos 1960, os gestos de provocação dos manifestantes visavam sobretudo atingir a moral comum e quebrar os tabus de uma sociedade conservadora, hoje os nacional-populistas adotam um estilo transgressor em sentido oposto: quebrar os códigos das esquerdas e do politicamente correto tornou-se regra número 1 de sua comunicação”, afirma Da Empoli.
Estes eventos, diz o jornalista, conformam, na interpretação deste comentarista, espécie de buraco negro da política capaz de sugar e anulá-la. Dispensa-se a democracia, “sistema” comandado por corruptos e ladrões de ilusões de um povo ordeiro e conservador que deseja viver em paz e protegido por um líder forte.
É o que o autor chama de “política quântica”. Sem macular esta teoria da Física, se vale dela para ilustrar modelos matemáticos de prospecção de tendências comportamentais de grandes grupamentos humanos, via big datas, com a finalidade de organizar manobras e estratégias de comunicação.
Opinião. O capitalismo assumiu o manche da nau nesta primeira década do século XXI. E as esquerdas, neste ano pandêmico de 2021, procuram se desvencilhar das cordas. Tarefa hercúlea. A aposta no conservadorismo de costumes é o combustível que move as esmagadoras máquinas neofascistas que agem como batedores do grande capital. No canto do ringue, algumas lideranças à esquerda têm se rendido às mesmas estratégias narrativas na vã ilusão de que podem disputar fatias deste eleitorado. Equívoco.
É o rabo querendo conduzir o cachorro.
Serviço
Os engenheiros do caos. Como os fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar as eleições.
Autor: Giuliano Da Empoli
Editora Vestígio

Acasos, destinos e amores que se trançam em meio a lembranças que unem passado e presente. Há filmes que são feitos para eternidade. Trem noturno para Lisboa, adaptação da obra literária do francês Pascal Mercier, é um deles.
Professor suíço, magistralmente interpretado por Jeremy Irons, é movido pela curiosidade quando se depara em situação inusitada com livro-relato de autor português. Lisboa é seu destino. Lá que resolve desencavar episódios que o levam aos primeiros anos dos 70, em plena ditadura de Salazar.
Mais do que denunciar a violência de um regime cruel e fascista, o filme do diretor dinamarquês Bille August discute relações humanas. Ser bom ou mau, amar e trair são posturas e sentimentos que passam à margem de posicionamentos políticos e ideológicos.
Tempo se encarrega de explicar destinos e escolhas. Revolução dos Cravos, que em 1974 libertou Portugal, também aprisionou ressentimentos e mágoas.
Produção alemã de 2013, traz também participações de Charlotte Rampling, Bruno Ganz e a ponta luxuosa de Lena Olin. Se pretende filme político sem se deixar levar pelo panfleto. Narrativa sustentada por roteiro marcante, a película constata que no trem da vida o inesperado é que dá o leme do itinerário. Filme pra ver e rever.

Agosto de 2021. Dezessete meses de pandemia. Mente tensionada entre jogar toalha ou prosseguir. Fadiga existencial.
Às 15h o interfone tocou.
– Tem encomenda aqui pro senhor. Avisou a portaria do prédio.

Recebi presente do amigo e sócio Jason Olívio. Pacote de café árabe de altíssima qualidade. Amigo é coisa pra se guardar… Recordações à baila.
Segundo semestre de 2014.
– Dará aula hoje à noite?
Não.
– Quero bater um papo contigo
Café na Livraria Cultura do Salvador Shopping, o que acha? Propus.
– Fechado
Jason Olívio havia sido meu aluno no curso de Jornalismo das então Faculdades Jorge Amado, em Salvador. Excelente discente, registre-se. Fui partícipe da sua banca de TCC, onde apresentou livro-reportagem sobre trajetória do Esporte Clube Galícia, agremiação que já teve fiel torcida na capital baiana. Resgatou pormenores do clube pertencente à numerosa colônia galega da Bahia.
Dois cafés, por favor.
Antes das xícaras pousarem na mesa, Jason havia retirado da pasta projeto de agência de comunicação. Explicou detalhes. Apresentou possibilidades. Conversávamos pouco. Só ouvia.
Finda a exposição, indagou. E aí?
Topo! Colo contigo!
O olhar do brother passou confiança.
Em 2015 lançamos primeiro produto da agência, inédito na Bahia. Curso de gestão em redes sociais. Sucesso. Turma lotada e alunos e alunas satisfeitos. Rigor nas entregas. Hotel de eventos equipado e bem localizado. Detalhes mínimos da sala observados à miúde. Da logomarca ao aroma do ambiente. Final de semana intenso e produtivo. Professores convidados de altíssimo nível. Fiquei recôndito ao projeto pedagógico-metodológico. Jason à produção e execução, e também colaborou na construção da metodologia. Com maestria. Pé direito na largada.
Mão amiga num momento que, de alguma forma, seguia itinerário sob rescaldo de sentimentos mal resolvidos à época.
Posteriormente, montamos sala comercial em belo estilo. Empreendemos outros projetos, campanhas políticas, consultorias etc. Período que não pude me dedicar à agência como deveria devido à função que exercia no Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, o IRDEB. Coordenava redes sociais da TVE e Rádio Educadora. Agenda apertada.
Jason e outro sócio que depois compôs conosco seguraram a casa na unha. Gratidão.
Crise econômica acelerou e tivemos de entregar a sala. Momento que intensa depressão retornou. Perda do chão e conflitos de relacionamento com companheira daquela quadra da vida. Jason, ponto de equilíbrio. Conselho amigo.
Tudo passa.
Não só dor. Alegrias em maior escala, vero. Rir junto com Jason é uma das terapias mais gratificantes que a vida oportunizou. Muitos momentos. Um deles, emblemático.
Em julho de 2017 fomos realizar trabalho em Itabuna, Sul da Bahia. Fiquei encarregado de palestrar sobre redes sociais para profissionais da área de saúde. Desembarcamos no aeroporto de Ilhéus numa sexta e de lá seguimos.
Coquetel de abertura do evento, barriga cheia. E agora, o que fazer numa cidade de médio porte, capital da região cacaueira, e que há mais de 15 anos é um centro tacanho e sem vida cultural?
Sem escolhas. Ops, com escolha!
– Porra nenhuma, vamos ficar na noite de sexta sem fazer nada? Inquiriu.
Pra onde, Jason?
– Sei lá, qualquer porra, Zito!
Então, tá.
Chamamos um táxi e pactuamos a noite com o motorista. Táxi para estação lunar, bom frisar.
– Onde é que tem um bar de responsa com umas bucetas pra gente olhar? A pergunta de Jason foi direta. Com ele não tem arrodeios.
O cara riu, mas entendeu. Deu a dica.
– Deixa a gente lá, velho. Se incomoda de acendermos um negócio aqui?
Não, pode tacar fogo!
– Assim que eu gosto.
O diálogo de Jason com o motorista me levou a rir como há muito não ocorria. Rir de doer os músculos do abdômen. Rodamos pelas poucas opções de Itabuna. Achamos um bar com música ao vivo. Uma merda.
Enquanto rodávamos, trocava mensagens com a mulher que seria minha próxima namorada. Alegria dobrada.
– Pelo menos tem cerveja boa e umas gatas.
Mais gargalhadas. E Jason rindo baixo e impávido.
– Vou chamar o motorista. Ligou.
Em minutos o carro estava à nossa espera.
– Mermão, onde fica o puteiro aqui?
Depois da ponte.
– Leva a gente lá.
Tocamos fogo de novo.
Casa acanhada, luz de boate de décima-quinta e meninas passando de um lado a outro. Estávamos ali para rir, nosso único propósito. Não para desdenhar de nada ou de ninguém. Tampouco à busca de aventuras sexuais. Longe disso. Escolhemos um lugar animado, apenas. Ambiente em extinção, já que a prostituição é online ou em casas de altíssimo luxo para executivos endinheirados. Não era nosso caso.
Olha, nós temos uma champagne aqui que é a especialidade da casa, sugeriu a gerente do estabelecimento.
– Que champagne é essa?
Importada. Respondeu de pronto.
– De onde?
Jason não parava de retrucar a mulher.
Vamos beber cerveja mesmo. Estamos fudidos, sem grana.
Nesse momento a mulher entendeu que se tratava de dois caras afim de trocar uma ideia. Nos deixou em paz e não ofertou mais a especialidade da casa.
Rimos até às 2h da manhã. Foi divertido.
Amigo é amigo, filho da puta é filho da puta. Mantra de Jason.
Descendente de libaneses maronitas, jeito de nativo da Ribeira que não teve sucesso como centroavante nas divisões de base do Esporte Clube Vitória, seu time do coração, porradeiro do Bogari com quase dois metros de altura, disfarça sensibilidade extrema do leonino de 13 de agosto.
– Nasci no mesmo dia que Fidel Castro! Sempre lembra da data com satisfação.
Nunca chorei por perdas amorosas à frente de nenhum irmão, pais ou parente. Mas com Jason não tive pruridos quando quis desabafar.
Sim, já mandamos um ao outro tomar no cu, se fuder. Divergimos politicamente em alguns encaminhamentos estratégicos e fomos às turras, embora sejamos comunistas natos.
Jason é comunicólogo raro, entende de projeto como poucos. Raciocina em velocidade extrema. Aprendo muito com ele, a quem um dia ensinei.
Amigo é amigo e filho da puta é filho da puta.
Jason é meu amigo. Fé de que ainda faremos muitas coisas bacanas.

À medida que o tempo passava (história lembrada depois desse episódio), Zito recordava situações da adolescência e juventude, a exemplo da emblemática guerra do Campo Grande, que nunca saiu da cabeça.
Raios de sol vazaram as frestas da janela. Olhos se abriram tentando resistir à luz já forte daquele mês de novembro de 1980. Ordem era ficar de pé às 6h. Disciplina e determinação. Preparo para enfrentar possível acirramento do regime militar. Extrema-direita estava à espreita. O acampamento no distrito de Lamarão, Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, contava com dezenas de militantes que preparavam faixas, cartazes e bombas de coquetel molotov. Manifestação de rua ocorreria nos próximos dias. Militante do movimento Novação, desdobramento estudantil da Ação Popular, partido político clandestino, aos 17 anos e iniciando o curso de Sociologia na Universidade Federal da Bahia, Zito Filho partiu pra luta. Nos anos anteriores foi dirigente do grêmio do Colégio Ipiranga, situado no largo Dois de Julho, bairro histórico e fronteiriço a um dos baixos meretrícios de Salvador. Local de imemoráveis farras nas suas ruelas e botecos, onde litros de cervejas foram consumidos em calorosos debates políticos.
Jamais se subjugou à autoridade ideológica de quem quer que fosse. Sua cabeça era livre. Concebia que a revolução tinha que ser total, sem amarras. Leu Marx, Reich, Marcuse, Jack Kerouac e tudo que podia ser bem-vindo à sua eclética formação libertária. Contracultura na veia, sim. Psicologia de Massas do Fascismo, de Reich, e Eros e Civilização, de Herbert Marcuse, ocupariam sua cabeceira por um bom tempo. Sem vontade e tesão não haveria transformação, assim entendia.
– Ó, Zito, pega mais garrafas pra gente terminar os coquetéis. Tem muita coisa pra fazer ainda.
Quem chamou atenção foi Joaquim Caravina, dirigente nacional da organização e que veio do Rio de Janeiro para coordenar as ações da AP na Bahia.
– Você vai dar ordem na puta que o pariu! Passei a tarde toda enchendo garrafa de gasolina e álcool e o bonitão aí discutindo teoria e estratégia. Tá me achando com cara de Mané, porra?
– Calma aí, Zito, precisa esquentar, não. A gente chama outro companheiro pra finalizar o serviço.
– É bom mesmo, tô cansado pra caralho!
Entediado, pegou a última garrafa, encheu de gasolina, amarrou a bucha na boca do vidro, lacrou e pôs o artefato junto a outras centenas deles. Fazia o serviço rápido e com maestria. Conhecia como ninguém o preparo de um molotov. O enfrentamento era certeza. A milicada viria reprimir a manifestação dos estudantes e líderes sindicais. Lutavam pela anistia ampla, geral e irrestrita para os exilados e presos políticos e pela redemocratização do país.
Zito queria mais. Não dissociava a disputa política das questões existenciais. Defendia os “desbundados”, hippies e afins. Para ele, comportamentos legítimos de resistência àquela situação. Criticava os discursos envelopados da à época esquerda tradicional.
– Vou dar um tempo ali, tomar uma água de côco. Avisou aos companheiros.
Chamou dois deles para fazer companhia. Helena Shaun, estudante de Engenharia Química da Universidade Federal da Bahia, e Paulo Birilo, colega do curso de Sociologia. Distanciaram-se cerca de 40 metros do acampamento. Zito tirou um pacotinho da sacola. Dixavou berlotas até formar um bolinho de mato oleoso. Preencheu a canoa de papel, enrolou e fechou as pontas.
Acenderam o baseado.
– Zito, você está ansioso pra essa manifestação? Sei não, mas eu acho que os macacos vêm pra cima, não acha? A pergunta de Helena só fez empolgá-lo.
É bom que venham. Estamos há três dias aqui enchendo coquetéis molotov. Se não vierem, não tem graça. Vamos jogar em quem?
A resposta de Zito valeu sonora gargalhada. Mais risadas rolaram naquele fim de tarde. Birilo pegou velho aparelho de fita cassete e pôs Paranoid, do Black Sabbath. Descontraíram-se e dançaram ao som precário do equipamento. Revolução.
Bombas, paz e amor
Estratégia armada numa pequena assembleia que reuniu lideranças de colégios públicos e particulares. Dois grupos se destacavam: alunos do Colégio Central e Escola Técnica Federal da Bahia, grêmios que eram comandados pela AP e PCdoB, respectivamente. Partidos fortes no movimento estudantil secundarista.
Definiram estratégia. Três grandes aglomerados sairiam de locais diferentes com propósito de baratinar a repressão. Um partiria do Garcia em direção ao Campo Grande; o segundo, vindo do Canela, seguiria o mesmo destino; o terceiro iniciaria a marcha a partir da Praça Castro Alves.
Dezenove de novembro de 1980, quarta-feira.
Universitários também bolaram seus planos. Pessoal da AP, com Zito e outros à frente, encarregado da “retaguarda”. Missão ousada. Surpreender a repressão pelas costas atacando com coquetéis molotovs. Não teriam como se defender de imediato. A ordem era confundi-los.
Às 14 horas concentrações iniciaram nos locais combinados. Faixas e cartazes chegando. Zito e companheiros se deslocaram em carros particulares para armazenar molotovs. Alguns agrupados em espaço escondido próximo à Reitoria da UFBA. Outros num canteiro de obras no Corredor da Vitória, esconderijo arranjado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Enquanto isso, o pessoal da agitação e propaganda espalhava folhetos entre a população denunciando arbitrariedades do regime militar e divulgando a pauta de reivindicações dos movimentos.
Cinco anos antes o regime militar assassinou o jornalista Vladimir Herzog e um ano depois o líder operário Manoel Fiel Filho. Linha dura do Exército não queria saber de abertura e, tudo indicava, se punha em marcha um golpe dentro do golpe sob a liderança do general Silvio Frota.
Aos poucos, as marchas foram se deslocando. “Abaixo a ditadura, anistia ampla, geral e irrestrita”; “por um governo democrático e popular”; “vai acabar, vai acabar, a ditadura militar”. Palavras de ordem variavam de acordo com a orientação política de cada grupo. Miscelânea de orientações de esquerda se aglutinava com objetivo comum. Até anarquistas se faziam presentes com seus gritos de guerra: “Pão, tesão e liberdade”. Zito simpatizava com eles, ao contrário dos companheiros, que os classificavam de “alienados”.
Meia hora depois de iniciadas as mobilizações, barulho das pisadas dos coturnos e patas dos cavalos ficou mais forte. Caminhões da Polícia Militar e tropas da Companhia de Guarda do Exército chegavam às dezenas. Clima tenso. A ordem era desmanchar qualquer aglomeração. Soldados desciam dos blindados com escudos, cassetetes e cinturões carregados de bombas de gás. Um primeiro aglomerado de capacetes partiu em direção aos secundaristas que chegavam do Garcia, nas imediações do Teatro Castro Alves.
– Fudeu! Os caras vão imprensar a gente aqui.
Betão, conhecido dirigente do grêmio do Instituto Social da Bahia, temeu pelo pior.
Tinha razão.
Em menos de cinco minutos o grupo foi disperso. Correria e perseguição. A repressão atacou com cães pastores. Cercaram os garotos e garotas distribuindo fantadas. Estudante do Colégio Central foi atingida na cabeça e desmaiou na rua. Sangue encharcou a farda. Outro derrapou na calçada caindo sobre o tacho fervente da baiana de acarajé. Queimaduras por todo o corpo. O Campo Grande se transformou em praça de guerra nublada por gases e poeira.
– Cadê o material, porra? Gritou alguém da esquina do teatro. Referia-se aos coquetéis molotovs.
Rapidamente, um grupo de universitários surgiu com sacolas carregadas de garrafas. De forma ágil, iniciada distribuição. Zito pegou duas, uma em cada mão, e amarrou uma terceira na cintura. Deu tempo de esconder a quarta no interior de um bar situado à frente da Reitoria. Correu e juntou-se a mais dois colegas, entre eles Adriana Zhitherman. Judia, cabelos avermelhados, estudante de Arquitetura. A garota nem mesmo sabia porque estava ali. Sempre se posicionava como pacifista. Aversa a mobilizações violentas, meio hippie e alternativa.
– Adriana, ajuda aí, pega uma garrafa dessas! Gritou Zito.
– É pra fazer o que com isso? Queimar pessoas? Vai resolver?
– Mas os caras estão baixando o pau na gente, não tá vendo?
– O melhor seria entregar flores a eles.
– Você tá maluca, pirou?
– Zito, violência só vai gerar mais violência, entendeu? Vocês não vão a lugar nenhum assim, querendo fazer guerra.
– Caralho, Adriana, são eles que estão vindo pra cima da gente.
– O melhor é se estivéssemos todos sentados na praça vestidos de branco, seria mais bonito, mais simbólico e mais forte.
Zito parou e olhou para o semblante de Adriana. Suspendeu em pensamento por alguns segundos. Retornou ao front. Empunhou a garrafa, acendeu a tocha e arremessou em direção a um grupo de militares que arregaçava pra cima de uns poucos garotos. O artefato não chegou a atingi-los, caiu próximo. Mas as chamas da explosão e os estilhaços de vidro dispersou-os, dando oportunidade aos estudantes de fugirem do cerco.
– Vumbora daqui, Zito! Pediu Adriana.
Ele ficou parado, pensativo, até que estendeu a mão à garota. Abraçou-a. Resolveram se retirar rapidamente do campo de batalha. Desceram a passos rápidos em direção ao Vale do Canela. Tomaram um táxi rumo ao Porto da Barra.
– Não sei se fiz certo. Deixei os companheiros apanhando daquele monte de gorilas. Eu sou de luta!
– Zito, existem várias formas de luta e a maior delas é contra seus gorilas internos. Se eles cultivam isso e todo mundo resolver cultivar também como se chegará à paz?
– Como podemos ser pacíficos diante desse regime?
– Ghandy venceu os ingleses meditando. Respondeu a garota.
Zito deu uma gargalhada e retrucou. A Índia hoje é uma miséria total com essa paz toda de Ghandy. Pra que serviu essa luta do seu guru, então?
– Existe a miséria material e a miséria espiritual. Qual o conceito de felicidade pra você, Zito?
Socialismo, uma sociedade mais justa e com renda melhor distribuída.
– E até hoje onde se construiu isso com violência? Questionou a garota.
– Vocês querem o socialismo, eu acho justo uma sociedade fraterna, mas para isso pretendem usar das mesmas armas daqueles que os oprimem. É um ciclo de ódio, de desamor. Não haverá sistema perfeito se o homem não buscar sua perfeição interior, seu equilíbrio. Continuará o caos, como neste momento ocorre no Campo Grande.
Zito ficou perturbado com a conversa. Tentou tergiversar com alguns argumentos, todos prontamente rebatidos por Adriana. Pausaram, trocaram alguns olhares e se beijaram. A noite findou com a paz e o amor que Zito não presumiria existir naquele dia. As palavras de Adriana ficaram marcadas. Um primeiro insight. Ainda levaria muito tempo para repensar seus modos e maneiras de entender a sociedade e seus conflitos. Muitas lutas o acompanhariam ao longo da jornada.
*Escrito em maio de 2013

Orquestra de grilos. Sempre começa às 17h30 nesta época do ano. Sol em clima de despedida por estas bandas do Hemisfério Sul. Passados 17 meses do início da pandemia, a casa se tornou reinvenção da rua.
Ônus e bônus.
Maior parte do tempo só, exceto os poucos dias que minha filha fica por aqui, aprendi mais sobre mim mesmo. Fácil não é lidar com os próprios fantasmas. Assustam mais do que os de outrora.
Espaço. Vozes dos confins da mente. Grilos. Sinfonia do martírio.
Pedindo licença ao poeta britânico George Gordon Byron (1788-1824), que externou os dissabores da vida com maestria, tangencio espécie de micro ponto do mal do século. Olhar-se ao espelho e projetar a caveira de Vincent Van Gogh.
Tempo ocupado é dádiva. Responder emails sucessivamente e espraiar tentáculos de atividades em várias frentes. Edita um texto, avalia conjunto de métricas, reúne por tela, analisa o desboard, prepara um curso de pós, debate documento político e no final do dia corre oito-dez quilômetros.
Sobrevivência. Tal qual um hamster enjaulado.
Útero, no entanto. O dia-a-dia pandêmico revelou que casa é aconchego. Mesmo que a solitude impere. Se antes não recebia convites para churrascos ou reuniões com sommeliers de vinho, muito menos agora. Nem quero. O ser anti-social que sempre forjou meu existir potencializou. Vírus levou às cordas. Ir ao supermercado, mercearia, onde seja, é similar à escalada do Himalaia.
Jogo xadrez me desafiando. Só. O que me lembra o filme Trem Noturno para Lisboa. Revejo-me no personagem do professor Raimund Gregorius, interpretado magnificamente por Jeremy Irons. Cinquenta e sete anos, vive solitário em Berna, Suíça. Parte para Portugal com finalidade de desvendar mistério, onde tem encontro casual com uma médica. Começam se conhecer e ele confessa que é solitário porque a esposa o havia deixado. “Sou um cara chato”, se adjetiva. Momento em que ela retruca: “você não é chato”. Se apaixonam. Ainda não encontrei ninguém para me desconstruir essa crença, de que sou chato (rindo muito). Quem sabe?
Intuo que preciso mudar. Orcs não diferenciam notas de cabernet ou merlot. Preferência pela zuadinha da tampa liberando o gás da long neck. E há muito que nem isso.
Ponta de esperança. Crença no amor. Ou no fim de tudo.
Agora tem futebol na TV. Vou ao estádio. Da sala.