Vazio

Casa

Orquestra de grilos. Sempre começa às 17h30 nesta época do ano. Sol em clima de despedida por estas bandas do Hemisfério Sul. Passados 17 meses do início da pandemia, a casa se tornou reinvenção da rua. 

Ônus e bônus.

Maior parte do tempo só, exceto os poucos dias que minha filha fica por aqui, aprendi mais sobre mim mesmo. Fácil não é lidar com os próprios fantasmas. Assustam mais do que os de outrora.

Espaço. Vozes dos confins da mente. Grilos. Sinfonia do martírio. 

Pedindo licença ao poeta britânico George Gordon Byron (1788-1824), que externou os dissabores da vida com maestria, tangencio espécie de micro ponto do mal do século. Olhar-se ao espelho e projetar a caveira de Vincent Van Gogh.

Tempo ocupado é dádiva. Responder emails sucessivamente e espraiar tentáculos de atividades em várias frentes. Edita um texto, avalia conjunto de métricas, reúne por tela, analisa o desboard, prepara um curso de pós, debate documento político e no final do dia corre oito-dez quilômetros.

Sobrevivência. Tal qual um hamster enjaulado. 

Útero, no entanto. O dia-a-dia pandêmico revelou que casa é aconchego. Mesmo que a solitude impere. Se antes não recebia convites para churrascos ou reuniões com sommeliers de vinho, muito menos agora. Nem quero. O ser anti-social que sempre forjou meu existir potencializou. Vírus levou às cordas. Ir ao supermercado, mercearia, onde seja, é similar à escalada do Himalaia.

Jogo xadrez me desafiando. Só. O que me lembra o filme Trem Noturno para Lisboa. Revejo-me no personagem do professor Raimund Gregorius, interpretado magnificamente por Jeremy Irons. Cinquenta e sete anos, vive solitário em Berna, Suíça. Parte para Portugal com finalidade de desvendar mistério, onde tem encontro casual com uma médica. Começam se conhecer e ele confessa que é solitário porque a esposa o havia deixado. “Sou um cara chato”, se adjetiva. Momento em que ela retruca: “você não é chato”. Se apaixonam. Ainda não encontrei ninguém para me desconstruir essa crença, de que sou chato (rindo muito). Quem sabe?

Intuo que preciso mudar. Orcs não diferenciam notas de cabernet ou merlot. Preferência pela zuadinha da tampa liberando o gás da long neck. E há muito que nem isso.

Ponta de esperança. Crença no amor. Ou no fim de tudo.

Agora tem futebol na TV. Vou ao estádio. Da sala.

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