
Alguns colégios particulares Brasil afora enviaram cartas a pais, mães e responsáveis orientando-os a não permitirem que seus filhos assistam a série sul-coreana Round 6. A produção da plataforma de streaming Netflix, escrita e dirigida por Hwang Dong-hyuk, tem arrebatado grandes audiências em todo mundo.
O intento aqui não é encetar nenhuma crítica ou análise fílmica sobre a série. Falta-me expertise e deixo para quem entende.
Atenho-me à análise do apelo dessas instituições.
O que primeiro chama atenção é a preocupação desses colégios em ocupar o lugar de avaliação dos genitores e genitoras sobre deixar ou não seus filhos e filhas assistirem.
O conteúdo é exibido com recomendação a partir de 16 anos, e é o bastante para a reflexão. A rigor, o critério deve ser definido pelas famílias.
E é aí que se percebe que o buraco é bem mais embaixo quanto ao alarido com verniz de preocupação pedagógica.
Justificam violência extrema e baboseiras como “indução ao homossexualismo”.
Patético. Adolescentes que cresceram jogando Grand Theft Auto (grande ladrão de carros) e outros games com muito sangue jorrando nas telas, são agora alvos da falsa moral de colégios que se tomam preocupados com a violência de Round 6.
Só rindo.
Há motivos. Round 6 expõe as vísceras da sociedade capitalista e põe abaixo o corolário de valores que muitas dessas escolas têm como sacrossantos: o sucesso depende do mérito individual daqueles que “se esforçam” para conquistá-lo. São os outdoors nada educativos estampando o/a “melhor” porque conseguiu ascender ao curso de Medicina. E ser médico é atalho à grana, ao dinheiro. O mercado recompensa. A escola X, Y ou Z é o caminho e a verdade. Trilha da prosperidade.
Passaram recibo. Se sentiram nús ante o dedo enfiado na ferida. Numa sociedade desigual o “sucesso” é legitimado pelas amplas possibilidades de um punhado de gente em detrimento de muitos. A vida societária é um jogo. E estes colégios ensinam a jogar, a chegar “lá”. Pode Big Brother e o Caldeirão do Hulk com sua benemerência fake. Sempre pôde Silvio Santos e seu Baú da Felicidade onde pessoas pobres eram ridicularizadas para ganhar uns trocados sob as gargalhadas de Abravanel. No país que esfomeados atacam caminhões de lixo para se alimentar a violência reside na série Round 6.
Melhor bancar a egípcia à realidade concreta do que refletir sobre ela. Seus alunos e alunas devem ser preparados para se tornarem os vips, os que chegarão “lá” e conquistarão os louros no topo escalada. E de cima contemplarão a disputa por ossos e restos de comidas.
Não são tiros e corpos ensanguentados que incomodam esses colégios e sim o subtexto que revela e não aliena.
Pedagogia da hipocrisia.
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