
Agosto de 2021. Dezessete meses de pandemia. Mente tensionada entre jogar toalha ou prosseguir. Fadiga existencial.
Às 15h o interfone tocou.
– Tem encomenda aqui pro senhor. Avisou a portaria do prédio.

Recebi presente do amigo e sócio Jason Olívio. Pacote de café árabe de altíssima qualidade. Amigo é coisa pra se guardar… Recordações à baila.
Segundo semestre de 2014.
– Dará aula hoje à noite?
Não.
– Quero bater um papo contigo
Café na Livraria Cultura do Salvador Shopping, o que acha? Propus.
– Fechado
Jason Olívio havia sido meu aluno no curso de Jornalismo das então Faculdades Jorge Amado, em Salvador. Excelente discente, registre-se. Fui partícipe da sua banca de TCC, onde apresentou livro-reportagem sobre trajetória do Esporte Clube Galícia, agremiação que já teve fiel torcida na capital baiana. Resgatou pormenores do clube pertencente à numerosa colônia galega da Bahia.
Dois cafés, por favor.
Antes das xícaras pousarem na mesa, Jason havia retirado da pasta projeto de agência de comunicação. Explicou detalhes. Apresentou possibilidades. Conversávamos pouco. Só ouvia.
Finda a exposição, indagou. E aí?
Topo! Colo contigo!
O olhar do brother passou confiança.
Em 2015 lançamos primeiro produto da agência, inédito na Bahia. Curso de gestão em redes sociais. Sucesso. Turma lotada e alunos e alunas satisfeitos. Rigor nas entregas. Hotel de eventos equipado e bem localizado. Detalhes mínimos da sala observados à miúde. Da logomarca ao aroma do ambiente. Final de semana intenso e produtivo. Professores convidados de altíssimo nível. Fiquei recôndito ao projeto pedagógico-metodológico. Jason à produção e execução, e também colaborou na construção da metodologia. Com maestria. Pé direito na largada.
Mão amiga num momento que, de alguma forma, seguia itinerário sob rescaldo de sentimentos mal resolvidos à época.
Posteriormente, montamos sala comercial em belo estilo. Empreendemos outros projetos, campanhas políticas, consultorias etc. Período que não pude me dedicar à agência como deveria devido à função que exercia no Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, o IRDEB. Coordenava redes sociais da TVE e Rádio Educadora. Agenda apertada.
Jason e outro sócio que depois compôs conosco seguraram a casa na unha. Gratidão.
Crise econômica acelerou e tivemos de entregar a sala. Momento que intensa depressão retornou. Perda do chão e conflitos de relacionamento com companheira daquela quadra da vida. Jason, ponto de equilíbrio. Conselho amigo.
Tudo passa.
Não só dor. Alegrias em maior escala, vero. Rir junto com Jason é uma das terapias mais gratificantes que a vida oportunizou. Muitos momentos. Um deles, emblemático.
Em julho de 2017 fomos realizar trabalho em Itabuna, Sul da Bahia. Fiquei encarregado de palestrar sobre redes sociais para profissionais da área de saúde. Desembarcamos no aeroporto de Ilhéus numa sexta e de lá seguimos.
Coquetel de abertura do evento, barriga cheia. E agora, o que fazer numa cidade de médio porte, capital da região cacaueira, e que há mais de 15 anos é um centro tacanho e sem vida cultural?
Sem escolhas. Ops, com escolha!
– Porra nenhuma, vamos ficar na noite de sexta sem fazer nada? Inquiriu.
Pra onde, Jason?
– Sei lá, qualquer porra, Zito!
Então, tá.
Chamamos um táxi e pactuamos a noite com o motorista. Táxi para estação lunar, bom frisar.
– Onde é que tem um bar de responsa com umas bucetas pra gente olhar? A pergunta de Jason foi direta. Com ele não tem arrodeios.
O cara riu, mas entendeu. Deu a dica.
– Deixa a gente lá, velho. Se incomoda de acendermos um negócio aqui?
Não, pode tacar fogo!
– Assim que eu gosto.
O diálogo de Jason com o motorista me levou a rir como há muito não ocorria. Rir de doer os músculos do abdômen. Rodamos pelas poucas opções de Itabuna. Achamos um bar com música ao vivo. Uma merda.
Enquanto rodávamos, trocava mensagens com a mulher que seria minha próxima namorada. Alegria dobrada.
– Pelo menos tem cerveja boa e umas gatas.
Mais gargalhadas. E Jason rindo baixo e impávido.
– Vou chamar o motorista. Ligou.
Em minutos o carro estava à nossa espera.
– Mermão, onde fica o puteiro aqui?
Depois da ponte.
– Leva a gente lá.
Tocamos fogo de novo.
Casa acanhada, luz de boate de décima-quinta e meninas passando de um lado a outro. Estávamos ali para rir, nosso único propósito. Não para desdenhar de nada ou de ninguém. Tampouco à busca de aventuras sexuais. Longe disso. Escolhemos um lugar animado, apenas. Ambiente em extinção, já que a prostituição é online ou em casas de altíssimo luxo para executivos endinheirados. Não era nosso caso.
Olha, nós temos uma champagne aqui que é a especialidade da casa, sugeriu a gerente do estabelecimento.
– Que champagne é essa?
Importada. Respondeu de pronto.
– De onde?
Jason não parava de retrucar a mulher.
Vamos beber cerveja mesmo. Estamos fudidos, sem grana.
Nesse momento a mulher entendeu que se tratava de dois caras afim de trocar uma ideia. Nos deixou em paz e não ofertou mais a especialidade da casa.
Rimos até às 2h da manhã. Foi divertido.
Amigo é amigo, filho da puta é filho da puta. Mantra de Jason.
Descendente de libaneses maronitas, jeito de nativo da Ribeira que não teve sucesso como centroavante nas divisões de base do Esporte Clube Vitória, seu time do coração, porradeiro do Bogari com quase dois metros de altura, disfarça sensibilidade extrema do leonino de 13 de agosto.
– Nasci no mesmo dia que Fidel Castro! Sempre lembra da data com satisfação.
Nunca chorei por perdas amorosas à frente de nenhum irmão, pais ou parente. Mas com Jason não tive pruridos quando quis desabafar.
Sim, já mandamos um ao outro tomar no cu, se fuder. Divergimos politicamente em alguns encaminhamentos estratégicos e fomos às turras, embora sejamos comunistas natos.
Jason é comunicólogo raro, entende de projeto como poucos. Raciocina em velocidade extrema. Aprendo muito com ele, a quem um dia ensinei.
Amigo é amigo e filho da puta é filho da puta.
Jason é meu amigo. Fé de que ainda faremos muitas coisas bacanas.
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