O Gilbertinho

crédito: Nick Elmoor/ Divulgação

Noites geladas de junho em Brasília povoam pensamentos em time lapse. Décadas se passaram. Aquele jovem no vigor dos 27 agora bate à porta da existência no quase fechamento do ciclo dos 50. Recordar o psicólogo nem sempre é edificante. “Daqui a alguns anos você chega lá”. É, parece que chega mesmo. E com muito mais ônus do que bônus. De resto, hipocrisias sinceras. Ou então, acalorar-se no consolo da bela canção do Roupa Nova, Linda Juventude. Porque não é piegas. 

Saudade crua.    

Gilbertinho, assim denominava o espaço no Lago Norte onde tribos diversas se reuniam nas noites de sexta e sábado na capital do país. Aquele pedacinho do Planalto Central se transmutava numa espécie de ruela de Berlim, Londres ou Copenhague. 

Punks, darks e afins misturavam-se à frente das galerias que davam acesso por escadas às catacumbas dos undergrounds. Pubs com imensos balcões onde estranhos se encontravam e debatiam sobre o último disco de David Bowie ou se Joe Strummer ficou mais visceral ou não após o The Clash se desfazer, o que deixara legião de órfãs e órfãos descontentes. Era como se estivessem perdido a própria razão de ser. Afinal, de onde sairia a palavra de ordem anárquica para incendiar o mundo? Melhor seguir ou deixar pra lá?

Rosto bonito, forte maquiagem em riscos negros, batom cinza-escuro, cabelos azulados e desenhado em cut side. Natasha gostava de Nietzsche, Bakunin, Rimbaud e haxixe. Casaco de couro preto, meias rendadas com pequenos rasgos, botas pretas e cravejadas. Tinha estilo. Sempre chegava à meia noite em explosão incomum. Gritava ao ambiente para quem quisesse ouvir: “põe Joy Divison, porra!” Sem chances de alguém deduzir que a moça um tanto desbocada havia passado o dia na Universidade de Brasília, onde estudava Ciência Política.

“Jornalista escroto!”, cumprimentava Javier Di Tasso em tom de galhofa. E ele ria à beça. Afinal, era cônscio da categoria à qual pertencia. Com valiosas exceções, permeada de abutres pagando de Clark Kent, o Super Homem babaca dos anos 30 que defendia a “ordem”. Nunca foram heróis de nada. Paus mandados de chefetes golpistas, como se constatou anos depois entre 2013 e 2016. Natasha tinha razão em sacanear.

Pedrão, o “Podre”, nome de guerra que o próprio se auto-apelidou, também chegava chegando. Negro de estatura mediana, forte, cabelo tipo moicano, quatro brincos em cada uma das orelhas, não raro trazia à mão uma fita cassete com as últimas gravações da sua banda de garagem. Fazia planos para Helsinque ou Amsterdam. Baixista exímio e findando o curso de Arquitetura na mesma universidade de Natasha. Punk autêntico. Daqueles que inspiraram Herbert Vianna a compor o Passo do Lui. Poucos como Pedro conversavam com um baixo em primorosas pegadas de ska, ritmo de reggae acelerado. O cara machucava as quatro cordas com maestria. Além de ser artista e desenhista de mão cheia. 

Em movimento rápido, Natasha pulou da cadeira alta do balcão e se dirigiu à juckbox, engenhoca que hoje é artigo de museu. Todo pub que se respeitasse tinha a sua. Pôs a ficha na máquina e em segundos o bar foi tomado por Satélite Love, de Lou Reed.

– O que pretende fazer, Javier?

A indagação de Natasha se referia à decisão que Javier deveria tomar nos próximos dias. Funcionário de um parque de mídia estatal, teria que escolher aonde passaria os três meses seguintes como correspondente. A agência que o contratara queria enviá-lo à Argentina.

– Sei lá, Nat, nem pensei, embora a decisão esteja se aproximando. Talvez, Buenos Aires. Quase certo. Respondeu.

– Man, vai se jogar mesmo na Recoleta? A garota indagou gargalhando se referindo ao bairro mais boêmio da capital argentina.

– Vai dançar tango pra caralho, interviu Pedro se esbaldando de rir enquanto chamava o barman para pedir mais uma cerveja.

– Acho que a gente acelera sua decisão rapidinho, Javier. 

A fala de Natasha em tom de deboche significava convite para subir e rodar um beck. 

Lá foram.

Quatorze dias se passaram e Javier já perambulava pela Avenida 9 de Julio (Julho em espanhol), vislumbrando o obelisco e as cafeterias aconchegantes da capital portenha. 

Três meses depois, retornara a Brasília.

O apartamento e suas coisas. Acendeu um kush e pôs a ouvir What’s Up, do 4 Non Blondes. Verão chegando. Férias a vencer. Tudo certo. Enquanto a chuva em dilúvio inundava Brasília, característica daquela estação no Planalto Central, passou a vagar pela cabeça de Javier a possibilidade de ir à Bahia visitar os pais. Ideia que não lhe agradava muito, mas tinha os velhos… 

Só não presumiria o que viria ocorrer. Em pouco tempo sua vida daria um loop. Naquela mesma noite Natasha apareceu para um papo.

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    Eder Capobianco

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