
Ao ler Os engenheiros do caos do jornalista e escritor ítalo-suíço Giuliano Da Empoli interrogo-me se Walter Benjamin era profeta e não filósofo. Distopias. Democracia se dissolve em diversas regiões do planeta estuprada por estratégias de tecnopolítica que têm transformado partidos em agências de marketing digital.
Debate político deu lugar à programação de algoritmos capazes de levar narrativas devidamente “empacotadas” aos eleitores. Os spin doctors têm minerado comportamentos de milhões nas redes sociais e portais de buscas para identificar fragilidades e expectativas dos indivíduos. Entregam o medo e os fazem refém dele alimentado suas emoções negativas. William Reich tinha razão.
Reedição do neofascismo se dá mediante enxurradas de fake news e teorias da conspiração, tornando-o o fenômeno de massa. Importante é vociferar, criar polêmicas inúteis, naturalizar o absurdo e se valer do escárnio fácil aos inimigos de ocasião. Para cada bolha de opinião um discurso costumizado e devidamente entregue. A finalidade é agregar eleitores sem que estes entendam que estão se constituindo num grande rebanho.
Movimento 5 Estrelas na Itália, Donald Trump nos EUA, Victor Orbán na Hungria e Jair Bolsonaro no Brasil são algumas das crias desse tenebroso roteiro.
Política deriva da cultura. Assim pensava o ministro da propaganda de Hitler, Josef Goebbels; assim ocorre com a pandemia neofascista do século XXI.
“Se, nos anos 1960, os gestos de provocação dos manifestantes visavam sobretudo atingir a moral comum e quebrar os tabus de uma sociedade conservadora, hoje os nacional-populistas adotam um estilo transgressor em sentido oposto: quebrar os códigos das esquerdas e do politicamente correto tornou-se regra número 1 de sua comunicação”, afirma Da Empoli.
Estes eventos, diz o jornalista, conformam, na interpretação deste comentarista, espécie de buraco negro da política capaz de sugar e anulá-la. Dispensa-se a democracia, “sistema” comandado por corruptos e ladrões de ilusões de um povo ordeiro e conservador que deseja viver em paz e protegido por um líder forte.
É o que o autor chama de “política quântica”. Sem macular esta teoria da Física, se vale dela para ilustrar modelos matemáticos de prospecção de tendências comportamentais de grandes grupamentos humanos, via big datas, com a finalidade de organizar manobras e estratégias de comunicação.
Opinião. O capitalismo assumiu o manche da nau nesta primeira década do século XXI. E as esquerdas, neste ano pandêmico de 2021, procuram se desvencilhar das cordas. Tarefa hercúlea. A aposta no conservadorismo de costumes é o combustível que move as esmagadoras máquinas neofascistas que agem como batedores do grande capital. No canto do ringue, algumas lideranças à esquerda têm se rendido às mesmas estratégias narrativas na vã ilusão de que podem disputar fatias deste eleitorado. Equívoco.
É o rabo querendo conduzir o cachorro.
Serviço
Os engenheiros do caos. Como os fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar as eleições.
Autor: Giuliano Da Empoli
Editora Vestígio
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