Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • O velho partido dos coronéis, o “Pê-fê-lê”, vai mudar de nome. Passará a se chamar Democrata. O teatro de representação política, amplificado pelos meios de comunicação de massa, exige tal recurso de sobrevivência. Ganhar consensos na opinião pública e se colocar nessa agenda com imagens mais palatáveis são ações por vezes necessárias. No Brasil, como em outros países, a maior parte dos partidos tende a se acabar, reagrupar e, por fim, mudar de nome. Na verdade, poucas são as agremiações que aqui surgem para cumprir uma plataforma ideológica definida. Na sua maioria, constituem-se em legendas de aluguéis para propósitos diversos.
    No caso do PFL, trata-se do processo de esgotamento do próprio discurso que, diga-se, não vem de agora, mas dos idos da década de 40. Fiel representante das altas elites nacionais e agente dos mais variados interesses internacionais, o insucesso nas urnas nas últimas eleições deixou o partido em estado de alerta. O PFL já teve seis governadores e agora ver-se minguado com apenas um, o do Distrito Federal, assumido pelo ex-deputado José Roberto Arruda, aquele mesmo que ajudou seu correligionário Antônio Carlos Magalhães a fraudar o painel de votação do Senado e por isso foi obrigado a renunciar ao mandato em 2002, assim como fez o senador ACM.
    Muda-se o nome, mas não sua cadeia genética. O PFL herda uma tradição política que surge no país em 1945. O nome era União Democrática Nacional, a UDN, que foi fundada nesse ano para combater o getulismo com o discurso liberal de viés entreguista. Fez oposição sistemática a Vargas no seu segundo mandato, entre 1950 e 1954. Levou-o ao suicídio e já naquele momento tentava emplacar um golpe. Um dos primeiros demiurgos do ideário udenista era o assumido golpista Carlos Lacerda. Jornalista e empresário de comunicação, proprietário do jornal Tribuna da Imprensa no Rio de Janeiro e deputado federal pelo antigo Distrito Federal, Lacerda se notabilizou pelo discurso inflamado e o constante apelo à quebra da ordem constitucional. Assim como a Vargas, se opôs também ao presidente Juscelino Kubitschek e participou da conspiração do golpe de 1964. Udenistas e golpistas também eram a família Mesquita, proprietária do jornal Estado de São Paulo, Herbert Levy, dono do jornal Gazeta Mercantil e Roberto Marinho, proprietário do jornal O Globo e da Rádio Globo à época. Hoje seus herdeiros são donos do maior conglomerado de mídia do Brasil.
    Com o triunfo do golpe militar, a velha UDN trocou de roupa e passou a se chamar Aliança Renovadora Nacional, Arena. Sustentando o regime militar, o partido cresceu ainda mais por conta de uma legislação eleitoral autoritária. Foi o momento em que o baiano Antônio Carlos Magalhães passou a figurar como uma de suas estrelas emergentes. No fim do Regime Militar e com a imagem pra lá de desgastada, a Arena se transformou em Partido Democrático Social, PDS. O PDS viveu o suficiente para que fizesse aliança com setores da oposição moderada e participasse das eleições indiretas no Colégio Eleitoral. Finda a era militar e com o início da redemocratização, o PDS passa a se apresentar como Partido da Frente Liberal, o qual perdura até o momento. Agora, agonizando, providencia uma nova vestimenta com o sugestivo nome de “Democrata”.
    Pregando a agenda neoliberal, defensor do Estado mínimo e de uma sanha privatista incalculável, o PFL viu seus objetivos, ao menos por hora, se distanciarem com a reeleição do presidente Lula. Ao redor, observa uma América Latina que se levanta contra tudo que suas aspirações representam. O renascimento da esquerda no continente é fato e a mudança de nome do partido é um esforço no sentido de combater internamente essa tendência. A perda do espaço político na Bahia, Estado que o PFL dominava há 16 anos, o reduto de ACM que, mediante títeres, comandava com mão de ferro, foi um desastre sem precedentes para o partido.
    A opção pela nova sigla ocorreu depois que o cientista político Antônio Lavareda apontou o inevitável fim da agremiação. O presidente da legenda, Jorge Bornhausen (PFL-SC), após acatar as indicações do trabalho de consultoria de Lavareda, convocou os demais caciques para anunciar a medida. Aliás, é bom frisar, nomes como Antonio Carlos Magalhães Neto e Rodrigo Maia, filho do prefeito do Rio de Janeiro César Maia, praticamente exigiram a reestruturação do partido. Compreensível, já que ambos estão entre aqueles que ainda têm alguma chance de dar prosseguimento à obra que seus antepassados iniciaram. Entendeu-se que é preciso mudar a cara para que os velhos e atrasados intentos pairem com uma faceta “moderna”. Nada melhor do que se assumirem como “democratas”. “Democratas” que lutam contra a Reforma Agrária, contra a democratização dos meios de comunicação, contra a distribuição de renda, contra o fortalecimento de um Estado promotor do desenvolvimento, contra a manutenção das garantias sociais trabalhistas e a ampliação das mesmas, entre outras mazelas políticas. Estamos diante da mudança do conceito de democracia? Cremos ser isso possível quando o que vem a mover esse discurso é a própria herança daqueles que um dia foram senhores e proprietários de escravos, compradores de votos nos currais, auxiliares de regimes arbitrários e autoritários e responsáveis por legar um pais que tem o vexatório título de vice-campeão mundial em desigualdades sociais e que agora se levanta para mudar essa realidade. Tudo aquilo que os senhorios “democratas” não querem.
  • Já era em tempo. O discurso que o governador Jaques Wagner (PT) proferiu na abertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa da Bahia, na tarde de ontem, deixou um recado aos incautos: a sociedade tomará conhecimento, item a item, dos desmandos políticos e administrativos perpetrados pelo PFL baiano ao longo dos 16 anos de comando. “As urnas não derrotaram um governador. Derrotaram um sistema de autoritarismo, incompetência e falta de transparência desses longos anos de domínio oligárquico”, afirmou o governador. A palavra direta usada por Wagner dá o tom da amostra de como anda a situação da máquina pública da Bahia. Há muito que se sabia da inversão de prioridades de um governo que virava as costas para o social e privilegiava a gestão em função da propaganda política demasiada e o atendimento aos grupos econômicos diretamente ligados à claque política dominante ou quem em torno dela orbitasse. Enquanto isso, o Índice de Desenvolvimento Humano da Bahia amargava posições vexatórias. A capital do Estado, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), encontra-se na posição 471 entre os municípios brasileiros. E o Estado como um todo segue o mesmo itinerário. A Bahia é o maior concentrador de renda do país. Quem não se lembra do bombardeio midiático perpetrado pelo governo no último ano da gestão de Paulo Souto (PFL), cuja frase de efeito era: “A Bahia crescendo, o povo feliz, avança Bahia”. Uma afronta à realidade da maioria dos cidadãos baianos. Claro, o alarido das “viúvas” foi imediato. O deputado pefelista Heraldo Rocha, ex-secretário de Trabalho e Bem Estar Social e Justiça de Souto, no primeiro e segundo mandato respectivamente, afirmou que Wagner continua no palanque. Tal afirmação soa pra lá de hipócrita. No palanque eletrônico esteve por 16 anos o grupo ao qual ele pertence, favorecendo-se de amplas verbas publicitárias, canalizadas na sua maior parte para as empresas do senador ACM, seu guru político e chefe de toda matilha expulsa pelo povo baiano em outubro passado. Não há também rancor ou revanchismo, como afirmou outro carlista da oposição, Gildásio Penedo (PFL). O que existe é a exposição ao povo do estado caótico que se encontra o poder público. Usado como um brinquedo pelo carlismo, o Estado foi literalmente vilipendiado em função de interesses escusos. A Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola, cujo objetivo do trabalho é prestar serviço de assistência técnica aos produtores, conta com um passivo trabalhista na ordem de R$ 313 milhões. A Empresa Baiana de Alimentos (EBAL), projetada para vender comida mais barata à população, encerrou a gestão passada quebrada. Seus recursos eram desviados para financiar apoio a artistas de décima – quinta que se faziam de bobos da corte do carlismo. O Estado, por sua vez, contabiliza um déficit calculado em quase R$ 500 milhões. E com este, o que é pior, vem o déficit social. O melhor bactericida é a transparência e a claridade, e é isso que o novo governo deve fazer. Literalmente, escancarar o que havia de putrefo no antigo “reino dos amigos”.
  • Já era em tempo. O discurso que o governador Jaques Wagner (PT) proferiu na abertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa da Bahia, na tarde de ontem, deixou um recado aos incautos: a sociedade tomará conhecimento, item a item, dos desmandos políticos e administrativos perpetrados pelo PFL baiano ao longo dos 16 anos de comando. “As urnas não derrotaram um governador. Derrotaram um sistema de autoritarismo, incompetência e falta de transparência desses longos anos de domínio oligárquico”, afirmou o governador. A palavra direta usada por Wagner dá o tom da amostra de como anda a situação da máquina pública da Bahia. Há muito que se sabia da inversão de prioridades de um governo que virava as costas para o social e privilegiava a gestão em função da propaganda política demasiada e o atendimento aos grupos econômicos diretamente ligados à claque política dominante ou quem em torno dela orbitasse. Enquanto isso, o Índice de Desenvolvimento Humano da Bahia amargava posições vexatórias. A capital do Estado, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), encontra-se na posição 471 entre os municípios brasileiros. E o Estado como um todo segue o mesmo itinerário. A Bahia é o maior concentrador de renda do país. Quem não se lembra do bombardeio midiático perpetrado pelo governo no último ano da gestão de Paulo Souto (PFL), cuja frase de efeito era: “A Bahia crescendo, o povo feliz, avança Bahia”. Uma afronta à realidade da maioria dos cidadãos baianos. Claro, o alarido das “viúvas” foi imediato. O deputado pefelista Heraldo Rocha, ex-secretário de Trabalho e Bem Estar Social e Justiça de Souto, no primeiro e segundo mandato respectivamente, afirmou que Wagner continua no palanque. Tal afirmação soa pra lá de hipócrita. No palanque eletrônico esteve por 16 anos o grupo ao qual ele pertence, favorecendo-se de amplas verbas publicitárias, canalizadas na sua maior parte para as empresas do senador ACM, seu guru político e chefe de toda matilha expulsa pelo povo baiano em outubro passado. Não há também rancor ou revanchismo, como afirmou outro carlista da oposição, Gildásio Penedo (PFL). O que existe é a exposição ao povo do estado caótico que se encontra o poder público. Usado como um brinquedo pelo carlismo, o Estado foi literalmente vilipendiado em função de interesses escusos. A Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola, cujo objetivo do trabalho é prestar serviço de assistência técnica aos produtores, conta com um passivo trabalhista na ordem de R$ 313 milhões. A Empresa Baiana de Alimentos (EBAL), projetada para vender comida mais barata à população, encerrou a gestão passada quebrada. Seus recursos eram desviados para financiar apoio a artistas de décima – quinta que se faziam de bobos da corte do carlismo. O Estado, por sua vez, contabiliza um déficit calculado em quase R$ 500 milhões. E com este, o que é pior, vem o déficit social. O melhor bactericida é a transparência e a claridade, e é isso que o novo governo deve fazer. Literalmente, escancarar o que havia de putrefo no antigo “reino dos amigos”.
  • Cinema de primeira

    O que um criador de cabras no Marrocos, uma família classe média norte-americana, uma empregada mexicana imigrante e um executivo japonês, pai de uma deficiente auditiva, podem ter em comum? Babel, o novo filme do diretor mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu, estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, consegue amarrar, num excelente e bem inspirado roteiro, histórias de pessoas comuns que, entrelaçadas pelo destino, servem como pano de fundo para discutir desde a condição humana a relações de poder num mundo globalizado. É cinema de primeiríssima qualidade.
    Há quem diga que o filme de Iñarritu “é um festival de descompassos”, como apontou a jornalista Isabela Boscov, da revista Veja. Deixemos as tolices da Veja e seus críticos para lá, afinal de contas é pedir demais algum tipo de postura ética e sensata naquelas páginas.
    O fato é que a película não se candidata ao Oscar à toa. Nada disso. É a indústria cinematográfica dos Estados Unidos que se curva à maestria de uma discussão pra lá de séria sobre a humanidade. No elenco, além dos já citados intérpretes, participam também os atores japoneses Kôji Yakusho e Rinko Kikuchi e os mexicanos Gael Garcia Bernal e Adriana Berraza.
    De férias no Marrocos, os turistas norte-americanos Susan (Blanchett) e seu marido Richard (Brad Pitt) discutem a relação de um casamento em frangalhos. Um tiro acidental, dado pelo filho de um pastor de ovelhas, atinge Susan dentro do ônibus. O fato leva a uma crise diplomática, pois a polícia marroquina passa a perseguir os supostos terroristas que teriam disparado o tiro. Na verdade, uma fatalidade advinda da brincadeira de dois adolescentes encarregados pelo pai de tomar conta dos animais e atirar em chacais. O rifle, que fora recém-comprado pelo pastor, pertencera a outro camponês e havia sido presenteado a ele pelo executivo japonês Yasujiro, quando este se encontrava em solo marroquino caçando. Os dois adolescentes são perseguidos como animais pelos policiais.
    Enquanto isso, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, Amélia, empregada e imigrante ilegal, toma conta dos dois filhos do casal norte-americano. Empolgada com o casamento do filho mais velho, ela resolve levar as duas crianças para a celebração, que ocorre em solo mexicano. No retorno da festa, um incidente entre seu sobrinho Santiago e a polícia fronteiriça descamba para uma situação perturbadora envolvendo a mexicana e as duas crianças.
    Quase que simultaneamente, no outro lado do mundo, quem está perturbada é a cabeça da jovem estudante Chieko, a filha de Yasujiro. Surda e muda, Chieko mergulha num complexo de inferioridade pela sua deficiência auditiva e busca suprir suas carências sexuais num mundo marcado pelo preconceito. Ela não supera a morte da mãe assim como seu pai também. A incompreensão do mundo e dos homens para com a adolescente leva-a ao desespero. Na verdade, a película é um grito surdo que canaliza em línguas diferentes, mas numa só voz, a dor de seres humanos esmagados por conflitos de ordem psicológica, social, política, econômica e existencial. Nesse caldeirão de infortúnios, uma abastada família japonesa pode ser tão vítima quanto um pobre pastor do Marrocos assim como uma imigrante mexicana e um casal norte-americano perdido no deserto africano. A fragilidade da vida é o que conta.
  • Cinema de primeira

    O que um criador de cabras no Marrocos, uma família classe média norte-americana, uma empregada mexicana imigrante e um executivo japonês, pai de uma deficiente auditiva, podem ter em comum? Babel, o novo filme do diretor mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu, estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, consegue amarrar, num excelente e bem inspirado roteiro, histórias de pessoas comuns que, entrelaçadas pelo destino, servem como pano de fundo para discutir desde a condição humana a relações de poder num mundo globalizado. É cinema de primeiríssima qualidade.
    Há quem diga que o filme de Iñarritu “é um festival de descompassos”, como apontou a jornalista Isabela Boscov, da revista Veja. Deixemos as tolices da Veja e seus críticos para lá, afinal de contas é pedir demais algum tipo de postura ética e sensata naquelas páginas.
    O fato é que a película não se candidata ao Oscar à toa. Nada disso. É a indústria cinematográfica dos Estados Unidos que se curva à maestria de uma discussão pra lá de séria sobre a humanidade. No elenco, além dos já citados intérpretes, participam também os atores japoneses Kôji Yakusho e Rinko Kikuchi e os mexicanos Gael Garcia Bernal e Adriana Berraza.
    De férias no Marrocos, os turistas norte-americanos Susan (Blanchett) e seu marido Richard (Brad Pitt) discutem a relação de um casamento em frangalhos. Um tiro acidental, dado pelo filho de um pastor de ovelhas, atinge Susan dentro do ônibus. O fato leva a uma crise diplomática, pois a polícia marroquina passa a perseguir os supostos terroristas que teriam disparado o tiro. Na verdade, uma fatalidade advinda da brincadeira de dois adolescentes encarregados pelo pai de tomar conta dos animais e atirar em chacais. O rifle, que fora recém-comprado pelo pastor, pertencera a outro camponês e havia sido presenteado a ele pelo executivo japonês Yasujiro, quando este se encontrava em solo marroquino caçando. Os dois adolescentes são perseguidos como animais pelos policiais.
    Enquanto isso, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, Amélia, empregada e imigrante ilegal, toma conta dos dois filhos do casal norte-americano. Empolgada com o casamento do filho mais velho, ela resolve levar as duas crianças para a celebração, que ocorre em solo mexicano. No retorno da festa, um incidente entre seu sobrinho Santiago e a polícia fronteiriça descamba para uma situação perturbadora envolvendo a mexicana e as duas crianças.
    Quase que simultaneamente, no outro lado do mundo, quem está perturbada é a cabeça da jovem estudante Chieko, a filha de Yasujiro. Surda e muda, Chieko mergulha num complexo de inferioridade pela sua deficiência auditiva e busca suprir suas carências sexuais num mundo marcado pelo preconceito. Ela não supera a morte da mãe assim como seu pai também. A incompreensão do mundo e dos homens para com a adolescente leva-a ao desespero. Na verdade, a película é um grito surdo que canaliza em línguas diferentes, mas numa só voz, a dor de seres humanos esmagados por conflitos de ordem psicológica, social, política, econômica e existencial. Nesse caldeirão de infortúnios, uma abastada família japonesa pode ser tão vítima quanto um pobre pastor do Marrocos assim como uma imigrante mexicana e um casal norte-americano perdido no deserto africano. A fragilidade da vida é o que conta.
  • Alexandre Garcia, um dos porta-vozes do jornalismo na Globo destila exclusivo e bem particular conceito de democracia

    Um “bem entendido” conceito de democracia se alastra entre alguns comentaristas e jornalistas da Globo: a Venezuela tem um governo autoritário porque não irá renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Aliás, a Venezuela foi o último assunto abordado entre os repórteres globais Renato Machado, Alexandre Garcia e Miriam Leitão quando entrevistavam, na semana passada, a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência Dilma Roussef. Reconheçamos, o modos operandi discursivo estabelecido pela editoria do Jornal da Manhã foi matematicamente planejado. A começar pelos questionamentos ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Causa verdadeiro estorvo à Globo pensar em um Estado que invista na infraestrutura, educação e saúde. Para eles, crescimento só deve e pode existir se o Estado encolher e o sacrossanto mercado tomar as rédeas do país como a raposa toma conta do galinheiro. Para um bom entendedor, basta relembrar a forma como Alexandre Garcia inquiria a ministra sobre “a timidez no corte dos gastos”; Ou mesmo quando a “especialista” Miriam Leitão, do alto do seu conhecimento, questionava sobre ações macroeconômicas. Com malabarismos lingüísticos, esses jornalistas buscavam justificar suas crenças e teses no neoliberalismo ornando seus discursos com sofismas baratos, como que quisessem encantar os incautos e fazer crer que estavam num mar de razões. Por fim, veio à baila o verdadeiro tema trazido pela trinca de “ouro” escalada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo, para cumprir a tarefa: perguntar se o governo Lula poderia transformar o Brasil numa Venezuela. A ordem era misturar fatos e mandar o recado de que o Estado brasileiro não poderia agir fora dos limites estabelecidos pelas elites locais. E o gancho para isso foi o questionamento feito por Garcia se o governo de Lula reeditaria ou não a ação de Chávez em solo tupiniquim nesse segundo mandato.
    Adentramos então no conceito de democracia da Rede Globo de televisão. É sabido, não por todos e aí está o trunfo da Globo, que Hugo Chávez Frías foi eleito em dezembro passado com 63% dos votos. Chávez tem amplo apoio da população. O Estado venezuelano mobilizou a sociedade e tem utilizado a riqueza do petróleo para investir em programas sociais. A RCTV, por sua vez, pertence a um consórcio de empresários ligado a antiga direção da PSDVA, a companhia petrolífera venezuelana que outrora drenava suas receitas para encher os bolsos de magnatas. Foi a RCTV, junto a CNN e outras emissoras de menor porte, que planejou e executou a tentativa de golpe de Estado em 2002, que durou 48 horas e foi barrado pela pressão popular em Caracas. Para a jornalista Lourdes Zuazo, da Telesur, a atuação da RCTV é que se constitui um atentado à democracia. Zuazo afirma que esta emissora prega abertamente um golpe de Estado na Venezuela e não respeita a constituição do país. E que fique claro: não está se fechando um canal de televisão. A licença de atuação é que não será renovada porque a emissora foge à lei e prega a ilegalidade institucional. Alguém viu ou ouviu algum comentário sobre esses fatos na Rede Globo? Recordando o passado recente, onde se encontrava a voz da Rede Globo quando o país vivia sob o Regime Militar? Boas perguntas.
    Temos então um conceito de liberdade e democracia bastante evasivo e seletivo por parte da Vênus Platinada. A rede televisiva que diariamente vomita montanhas de cretinices e pieguices é a mesma que assume um discurso presumivelmente sério acerca dos graves problemas nacionais. No baú da Globo cabe tardes de domingo chorosas no Domingão do Faustão com panegíricos de artistas e celebridades e reportagens sobre o aquecimento global. No entanto, para a emissora dos Marinhos as intempéries climáticas que o planeta enfrenta em decorrência da emissão de gases poluentes nada têm a ver com a concentração da renda mundial e a ambição consumista do capitalismo internacional que está fritando a Terra na frigideira dos lucros. É informação pela metade com discurso enviesado onde tudo se empana para disfarçar a realidade. Hugo Chávez então é o mal e o bem é representado no bom mocismo de araque interpretado pelas suas personalidades e jornalistas ventríloquos dos consensos das elites. Os problemas sociais são vistos como um mosaico sem forma. A propósito, a participação popular que a Rede Globo admite é quando põe em votação, a nível nacional, a escolha de quem vai sair ou ficar na casa-laboratório do Big Brother. Para a Globo, o interesse público se faz necessário quando se trata de pasteurizar a competição social mediante estratagemas de espertezas. Corpos torneados e conversas pueris ganham destaque numa sociedade de excluídos que a emissora transforma em sonhadores que podem ganhar um milhão ao se espelharem naqueles seres-ratos trancafiados numa mansão de luxo.
  • Alexandre Garcia, um dos porta-vozes do jornalismo na Globo destila exclusivo e bem particular conceito de democracia

    Um “bem entendido” conceito de democracia se alastra entre alguns comentaristas e jornalistas da Globo: a Venezuela tem um governo autoritário porque não irá renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Aliás, a Venezuela foi o último assunto abordado entre os repórteres globais Renato Machado, Alexandre Garcia e Miriam Leitão quando entrevistavam, na semana passada, a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência Dilma Roussef. Reconheçamos, o modos operandi discursivo estabelecido pela editoria do Jornal da Manhã foi matematicamente planejado. A começar pelos questionamentos ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Causa verdadeiro estorvo à Globo pensar em um Estado que invista na infraestrutura, educação e saúde. Para eles, crescimento só deve e pode existir se o Estado encolher e o sacrossanto mercado tomar as rédeas do país como a raposa toma conta do galinheiro. Para um bom entendedor, basta relembrar a forma como Alexandre Garcia inquiria a ministra sobre “a timidez no corte dos gastos”; Ou mesmo quando a “especialista” Miriam Leitão, do alto do seu conhecimento, questionava sobre ações macroeconômicas. Com malabarismos lingüísticos, esses jornalistas buscavam justificar suas crenças e teses no neoliberalismo ornando seus discursos com sofismas baratos, como que quisessem encantar os incautos e fazer crer que estavam num mar de razões. Por fim, veio à baila o verdadeiro tema trazido pela trinca de “ouro” escalada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo, para cumprir a tarefa: perguntar se o governo Lula poderia transformar o Brasil numa Venezuela. A ordem era misturar fatos e mandar o recado de que o Estado brasileiro não poderia agir fora dos limites estabelecidos pelas elites locais. E o gancho para isso foi o questionamento feito por Garcia se o governo de Lula reeditaria ou não a ação de Chávez em solo tupiniquim nesse segundo mandato.
    Adentramos então no conceito de democracia da Rede Globo de televisão. É sabido, não por todos e aí está o trunfo da Globo, que Hugo Chávez Frías foi eleito em dezembro passado com 63% dos votos. Chávez tem amplo apoio da população. O Estado venezuelano mobilizou a sociedade e tem utilizado a riqueza do petróleo para investir em programas sociais. A RCTV, por sua vez, pertence a um consórcio de empresários ligado a antiga direção da PSDVA, a companhia petrolífera venezuelana que outrora drenava suas receitas para encher os bolsos de magnatas. Foi a RCTV, junto a CNN e outras emissoras de menor porte, que planejou e executou a tentativa de golpe de Estado em 2002, que durou 48 horas e foi barrado pela pressão popular em Caracas. Para a jornalista Lourdes Zuazo, da Telesur, a atuação da RCTV é que se constitui um atentado à democracia. Zuazo afirma que esta emissora prega abertamente um golpe de Estado na Venezuela e não respeita a constituição do país. E que fique claro: não está se fechando um canal de televisão. A licença de atuação é que não será renovada porque a emissora foge à lei e prega a ilegalidade institucional. Alguém viu ou ouviu algum comentário sobre esses fatos na Rede Globo? Recordando o passado recente, onde se encontrava a voz da Rede Globo quando o país vivia sob o Regime Militar? Boas perguntas.
    Temos então um conceito de liberdade e democracia bastante evasivo e seletivo por parte da Vênus Platinada. A rede televisiva que diariamente vomita montanhas de cretinices e pieguices é a mesma que assume um discurso presumivelmente sério acerca dos graves problemas nacionais. No baú da Globo cabe tardes de domingo chorosas no Domingão do Faustão com panegíricos de artistas e celebridades e reportagens sobre o aquecimento global. No entanto, para a emissora dos Marinhos as intempéries climáticas que o planeta enfrenta em decorrência da emissão de gases poluentes nada têm a ver com a concentração da renda mundial e a ambição consumista do capitalismo internacional que está fritando a Terra na frigideira dos lucros. É informação pela metade com discurso enviesado onde tudo se empana para disfarçar a realidade. Hugo Chávez então é o mal e o bem é representado no bom mocismo de araque interpretado pelas suas personalidades e jornalistas ventríloquos dos consensos das elites. Os problemas sociais são vistos como um mosaico sem forma. A propósito, a participação popular que a Rede Globo admite é quando põe em votação, a nível nacional, a escolha de quem vai sair ou ficar na casa-laboratório do Big Brother. Para a Globo, o interesse público se faz necessário quando se trata de pasteurizar a competição social mediante estratagemas de espertezas. Corpos torneados e conversas pueris ganham destaque numa sociedade de excluídos que a emissora transforma em sonhadores que podem ganhar um milhão ao se espelharem naqueles seres-ratos trancafiados numa mansão de luxo.