Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • Os raios de sol vazaram as frestas da janela. Os olhos se abriram tentando resistir à luz já forte daquele mês de novembro de 1980. A ordem era ficar de pé às 6h. Disciplina e determinação. Preparo para enfrentar um possível acirramento do Regime Militar. A extrema-direita estava à espreita. O acampamento no distrito de Lamarão, Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, contava com dezenas de militantes que preparavam faixas, cartazes e bombas de coquetel molotov para a manifestação de rua que ocorreria nos próximos dias. Militante do movimento Novação, desdobramento estudantil da Ação Popular, aos 17 anos e iniciando o curso de Sociologia na Universidade Federal da Bahia, Zito Filho partira pra luta. Nos anos anteriores fora dirigente do grêmio do Colégio Ipiranga, situado no largo Dois de Julho, bairro histórico e fronteiriço a um dos baixos meretrícios de Salvador. Local de imemoráveis farras nas suas ruelas e botecos, onde litros de cervejas foram consumidos em calorosos debates políticos. Jamais se subjugou à autoridade ideológica de quem quer que fosse. Sua cabeça era livre. Concebia que a revolução tinha que ser total, sem amarras. Lera algumas coisas de Marx e Lukács. Posteriormente, se encantaria com Herbert Marcuse e William Reich. Psicologia de Massas do Fascismo, de Reich, ocuparia sua cabeceira por um bom tempo. Sem vontade e tesão não haveria transformação, assim entendia. 
    – Hô, Zito, pega mais garrafas pra gente terminar os coquetéis. Tem muita coisa pra fazer ainda.
    Quem chamou atenção foi Joaquim Caravina, dirigente nacional da organização e que viera do Rio de Janeiro para coordenar as ações da AP na Bahia. 
    – Você vai dar ordem na puta que o pariu! Passei a tarde toda enchendo garrafa de gasolina e álcool e o bonitão aí discutindo teoria e estratégia. Tá me achando com cara de Mané, porra?
    – Calma aí, Zito, precisa esquentar não, a gente chama outro companheiro pra finalizar o serviço.
    – É bom mesmo, tô cansado pra caralho!
    Entediado, pegou a última garrafa, encheu de gasolina, amarrou a bucha na boca do vidro, lacrou e pôs o artefato junto a outras centenas deles. Fazia o serviço rápido e com maestria. Conhecia como ninguém o preparo de um molotov. O enfrentamento era certeza. A milicada viria para reprimir a manifestação dos estudantes e líderes sindicais. Lutavam pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela redemocratização do país. Zito queria mais. Não dissociava a disputa política das questões existenciais. Defendia os “desbundados”, hippies e afins. Para ele, comportamentos legítimos de resistência àquela situação. Chocava-se com os discursos envelopados da esquerda tradicional.
    – Vou dar um tempo ali, tomar uma água de côco. Avisou aos companheiros.
    Chamou dois deles para fazer companhia, Helena Shaun, estudante de Engenharia da Universidade Federal da Bahia, e Paulo Birilo, seu colega no curso de Sociologia. Distanciaram-se cerca de 40 metros do acampamento. Zito puxou da sacola um pacote, retirou algumas berlotas e passou a dechavá-las até formar um bolinho de mato oleoso. Preencheu uma canoa de papel com as folhas, enrolou e fechou as pontas. Acenderam o baseado.
    – Zito, você está ansioso pra essa passeata? Sei não, mas eu acho que os macacos vêm pra cima, não acha? A pergunta de Helena só fez empolgá-lo.
    – É bom que venham. Afinal, pra que a gente está há três dias aqui enchendo coquetéis molotov? Se não vierem não tem graça, vamos jogá-los em quem?
    A resposta de Zito valeu uma gargalhada a três. E muito mais risadas rolaram naquele fim de tarde. Birilo pegou um aparelho de fita cassete e pôs Paranoid, do Black Sabbath. Descontraíram-se e dançaram ao som precário do pequeno gravador. Revolução.
    Bombas, paz e amor
    A estratégia foi armada numa pequena assembleia que reuniu lideranças de colégios públicos e particulares. Dois grupos se destacavam: os alunos do Colégio Central e da escola Técnica Federal da Bahia, cujos grêmios eram dominados pela AP e PCdoB, respectivamente. Dois partidos fortes no movimento. Decidiam quase que sozinhos os roteiros das passeatas e manifestações dos secundaristas. Definiram que três grandes aglomerados sairiam de locais diferentes com o propósito de baratinar a repressão. Um partiria do Garcia em direção ao Campo Grande; o segundo, vindo do Canela, seguiria o mesmo destino; e o terceiro iniciaria a marcha a partir da Praça Castro Alves. 19 de novembro de 1980, quarta-feira.
    Os universitários também bolaram seus planos. O pessoal da AP, com Zito e outros à frente, ficou encarregado da “retaguarda”. Ou seja, a missão era surpreender a repressão pelas costas atacando com coquetéis molotovs. Sabiam que seriam lançadas bombas de gás e disparados tiros de borracha na estudantada. Não teriam como se defender de imediato, estariam de costas. A ordem era confundi-los.
    Às 14hs as concentrações foram iniciadas nos locais combinados. Faixas e cartazes chegaram primeiro. Zito e alguns colegas se deslocaram de carros particulares para armazenar molotovs. Alguns agrupados num espaço escondido próximo à Reitoria da UFBA; outros num prédio em construção no Corredor da Vitória, esconderijo arranjado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Enquanto isso, o pessoal da agitprop – agitação e propaganda – se encarregava de espalhar folhetos entre a população denunciando as arbitrariedades do regime e divulgando a pauta de reivindicações dos movimentos. Parlamentares de oposição também se apresentariam à manifestação.
    Aos poucos, as marchas foram se deslocando. “Abaixo a ditadura, anistia ampla, geral e irrestrita”; “por um governo democrático e popular”; “vai acabar, vai acabar, a ditadura militar”. As palavras de ordem variavam de acordo com a orientação política de cada grupo. Uma miscelânea de orientações de esquerda que se aglutinava com objetivo comum. Até os anarquistas se faziam presentes com seus gritos de guerra: “pão, tesão e liberdade”. Zito simpatizava com eles, ao contrário dos seus companheiros, que os classificava de “alienados”.
    Meia hora depois de iniciadas as mobilizações, o barulho das pisadas dos coturnos e das patas dos cavalos ficou mais forte. Caminhões da Polícia Militar e das tropas da Companhia de Guarda do Exército chegavam às dezenas. Clima tenso. A ordem era desmanchar qualquer aglomeração. Soldados desciam dos blindados com escudos, cassetetes e cinturões carregados de bombas de gás. Um primeiro aglomerado de capacetes partiu em direção aos secundaristas que chegavam do Garcia, nas imediações do Teatro Castro Alves.
    – Fudeu! Os caras vão imprensar a gente aqui.
    Betão, conhecido dirigente do grêmio do colégio Dois de Julho, temeu pelo pior.
    Tinha razão.
    Em menos de cinco minutos o grupo foi disperso. Correria e perseguição para todos os lados. A repressão atacou com cães pastores. Cercaram os garotos distribuindo fantadas. Uma estudante do Colégio Central foi atingida na cabeça e desmaiou na rua. O sangue lhe encharcou a farda. Um outro colega derrapou na calçada caindo sobre o tacho fervente de uma baiana de acarajé. Queimaduras por todo o corpo. O Campo Grande se transformou numa praça de guerra nublada pelos gases e a poeira levantada.
    – Cadê o material, porra? Gritou um jovem na esquina do teatro. Referia-se aos coquetéis molotovs. 
    Rapidamente, um grupo de universitários surgiu com sacolas carregadas de garrafas. De forma ágil, Iniciaram a distribuição entre alguns deles. Zito pegou duas, uma em cada mão. E amarrou uma terceira na cintura. Depois escondeu esta última num canto do interior de um bar que funcionava em frente à Reitoria. Correu e juntou-se a mais dois colegas, entre eles Adriana Zhitherman. Judia, cabelos avermelhados, era estudante de Arquitetura. A garota nem mesmo sabia porque estava ali. Sempre se posicionara como pacifista. Aversa a mobilizações violentas, era meio hippie e alternativa.
    – Adriana, ajuda aí, pega uma garrafa dessas! Gritou Zito.
    – É pra fazer o que com isso? Queimar pessoas? Vai resolver?
    – Mas os caras estão baixando o pau na gente, não tá vendo?
    – O melhor seria entregar flores a eles.
    – Você tá maluca, pirou?
    – Zito, violência só vai gerar mais violência, entendeu? Vocês não vão a lugar nenhum assim, querendo fazer guerra.
    – Porra, Adriana, mas são eles que estão vindo pra cima da gente.
    – O melhor é se estivéssemos todos sentados na praça vestidos de branco, seria mais bonito, mais simbólico e mais forte.
    Por um instante Zito parou, olhou para o semblante de Adriana, e pela primeira vez refletiu de forma diferente. Ainda assim, empunhou uma garrafa, acendeu a tocha e arremessou em direção a um grupo de militares que arregaçavam pra cima de uns poucos garotos. O artefato não chegou a atingi-los, caiu próximo. Mas as chamas da explosão e os estilhaços de vidro dispersou-os, dando oportunidade aos estudantes de fugirem do cerco.
    – Vumbora daqui, Zito! Pediu Adriana.
    Ele ficou parado, pensativo, até que estendeu a mão à garota. Abraçou-a. Resolveram se retirar rapidamente do campo de batalha. Desceram a passos rápidos em direção ao Vale do Canela. Tomaram um táxi rumo ao Porto da Barra.
    – Não sei se fiz certo. Deixei os companheiros apanhando daquele monte de gorilas. Eu sou de luta!
    – Zito, existem várias formas de luta e a maior delas é contra seus gorilas internos. Se eles cultivam isso e todo mundo resolver cultivar também como se chegará à paz?
    – Como podemos ser pacíficos diante desse regime?
    – Ghandy venceu os ingleses meditando. Respondeu a garota.
    Zito deu uma gargalhada e retrucou. – A Índia hoje é uma miséria total com essa paz toda de Ghandy. Pra que serviu essa luta do seu guru, então?
    – Existe a miséria material e a miséria espiritual. Qual o conceito de felicidade pra você, Zito?
    – Socialismo, uma sociedade mais justa e com renda melhor distribuída.
    – E até hoje onde se construiu isso com violência? Questionou a garota.
    – Vocês querem o socialismo, eu acho justo uma sociedade fraterna, mas para isso pretendem usar das mesmas armas daqueles que os oprimem. É um ciclo de ódio, de desamor. Não haverá sistema perfeito se o homem não buscar sua perfeição interior, seu equilíbrio. Continuará o caos, como à essa hora deve estar ocorrendo lá no Campo Grande.
    Zito ficou meio perturbado com a conversa. Tentou tergiversar com alguns argumentos, todos prontamente rebatidos por Adriana. Após uma pausa, trocaram alguns olhares e se beijaram. A noite findou com a paz e o amor que Zito não presumiria existir naquele dia. As palavras de Adriana ficaram marcadas. Um primeiro insight. Mas ainda levaria muito tempo para ele repensar seus modos e maneiras de entender a sociedade e seus conflitos. Muitas lutas o acompanhariam ao longo da sua jornada.


  • Batalha digital em curso. Garantir a livre circulação de ideias ante a opressão de estados e corporações econômicas sobre os cidadãos de todos os países. Em Cypherpunks<!–[if supportFields]> INDEX \c “2” <![endif]–>[1]<!–[if supportFields]><![endif]–>: a liberdade e o futuro da Internet, Julian Assange, editor-chefe do WikiLeaks, e os ciberativistas Jacob Applebaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann discutem detalhes dessa guerra silenciosa e crucial para o destino da humanidade.
    Os debates travados ao longo das 163 páginas do livro alertam: está em jogo o ideário pensado pelos ativistas californianos nos anos 80 que suergueram a rede. A utopia na comunhão global de ideias e culturas tem se transformando numa arapuca para milhões de pessoas. Presas fáceis que estão tendo seus dados pessoais monitorados pelos serviços secretos de governos e utilizados como mercadoria pelo Facebook, Google e outros, parceiros e partícipes dos panópticos sistemas de controle mundial. 
    “Muitos escritores já refletiram sobre o que a Internet significa para a civilização global, mas eles enganaram-se. Enganaram-se porque não têm a perspectiva da experiência direta. Enganaram-se porque nunca se viram cara a cara com o inimigo”, afirma Assange.
    A maior parte do livro, na verdade, decorre da decupação de alguns vídeos veiculados na série de programas O mundo amanhã, entrevistas conduzidas por Julian Assange dentro da Embaixada do Equador, em Londres, onde vive exílio sui generis para não ser preso pelas autoridades inglesas e extraditado para a Suécia (veja aqui o caso).
    Sob a bandeira cypherpunk, “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”, a conversa gira em torno dos modelos de perseguições, censura, monitoramento e as perspectivas de enfrentamento.
    No Egito, por exemplo, muitos deram loas ao Facebook como um dos protagonistas de destaque do levante civil no Cairo, em 2008; mas poucos sabem que as pessoas que usaram o site para protestar foram rastreadas.
    Empresas de cartões de crédito, companhias telefônicas, sites de relacionamento e grupos de segurança privada constituem a base desse controle. Não só monitoram para aferir dividendos econômicos, mas, sobretudo, no intuito de tabelar com regimes políticos pouco transparentes.
    “A vigilância patrocinada pelo Estado é de fato um grande problema, que põe em risco a própria estrutura de todas as democracias e seu funcionamento, mas também há a vigilância privada e a potencial coleta de dados em massa por parte do setor privado. Basta dar uma olhada no Google. Se você for um usuário-padrão, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, o que está pesquisando e, possivelmente, sua preferência sexual, sua religião e suas crenças filosóficas”, denuncia Jérémie Zimmermann.
    Sim, o Google e o Facebbok são capazes de identificar a busca feita por determinado usuário há dois anos, três dias e quatro horas. E a fronteira entre esses mastodontes da Internet e o setor público é cada vez mais rarefeita. A Agência de Segurança Nacional dos EUA atua em sintonia com essas empresas.
    Assange e companheiros afirmam estar diante de uma arquitetura jurídico-política-financeira-tecnológica que atinge diretamente a liberdade dos usuários. “Duas companhias de crédito, ambas com uma infraestrutura eletrônica de autorização centralizada nos Estados Unidos – o que implica acesso aos dados na jurisdição norte-americana -, controlam a maioria dos pagamentos em cartão de crédito no planeta”, explica Andy Müller Maguhn. A sangria financeira contra o WikiLeaks ilustra bem essa situação.
    Os relatos dos ciberguerrilheiros, no entanto, não são apenas lamentos e impotência. É guerra. E a munição mais poderosa é a matemática. “É preciso reconhecer que, com a criptografia, nem toda violência do mundo poderá resolver uma equação”, desafia Jacob Applebaum. Eles apostam nas camadas criptográficas como escudo invisível contra a bisbilhotagem.
    Numa outra frente, o combate político a projetos de leis como o Stop Online Piracy Act (SOPA) – Lei de Combate à Pirataria on Line – e o Protect IP Ac (PIPA) – Ato para Proteção de Propriedade Intelectual. Propostas que chegaram a tramitar no Congresso dos EUA mas foram rechaçadas por intensa mobilização da sociedade civil nacional e internacional. Caso aprovadas, o download ou compartilhamento de uma música se constituiria em crime e encarceramento. No Brasil, um projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) trilha percurso semelhante.
    No campo econômico, a ideia é buscar se desvencilhar dos ditames impostos pelos corporações financeiras mediante a adoção de uma moeda voltada à Internet. O “bitcoin” se encarregaria de atuar de forma descentralizada, angariando adesões. “(…) Então, em vez de ter um Banco Central, temos um bando de pessoas no mundo inteiro que decidem em conscenso qual é a realidade e qual o câmbio atual”, defende Appelbaum.
    Na opinião de Julian Assange, a Internet traz o elemento da universalidade e as entidades que a ocupam, a exemplo do WikiLeaks, constituem organizações pós-Estado em função da falta de controle geográfico.

    Cypherpunks é mais um trabalho que aponta vetores futuros para a rede e expõe o embate entre a distopia e a utopia. A edição brasileira do livro, lançado pela Boitempo Editorial, ganha apresentação da jornalista Natália Viana, coeditora da Agência Pública, e um prefácio para a América Latina do próprio Julian Assange.

    [1]Criado nos anos 90, o movimento se ampliou no auge das chamadas “criptoguerras” e após a censura da Internet em 2011, na Primavera Árabe. O termo deriva das palavras chiper (escrita cifrada) e punk. Foi incluído no Oxford English Dictionary em 2006.

  • O som do músico e pesquisador Camilo Aggio, Forever Blue.

  • Julian Assange, ciberativista e editor do site WikiLeaks, media interessante debate entre os intelectuais Tariq Ali e Naom Chomsky. Na conversa, a Primavera Árabe, a América do Sul e outros temas. Vale à pena conferir.

  • O oitavo episódio da serie ‘O Mundo Amanhã’, entrevistas realizadas por Julian Assange, fruto da parceria entre a Agência Pública com produção da série realizada pelo WikiLeaks com parceria com o canal RT, da Rússia, tem como convidados seus companheiros de armas, os criptopunks, virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. E avisam: não haverá paz sem liberdade. 


    Assista a entrevista e abaixo, leia o texto escrito pela Agência Pública, veja as datas dos próximos lançamentos e o que já foi divulgado.

  • Na segunda parte da conversa com os criptopunks (parte 1), da serie ‘O Mundo Amanhã’Julian Assange continua a conversa com os virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. A arquitetura das redes e suas influências na sociedade moderna é amplamente discutida com diversos pontos a se observar. Política, economia, poder e influências dão o tom para essa gostosa e proveitosa conversa. 

    Assista a entrevista e abaixo, leia o texto escrito pela Agência Pública, veja as datas dos próximos lançamentos e o que já foi divulgado.

  • Fechava os olhos quando era criança, pra experimentar a sensação de não enxergar. Mas era por pouco tempo, por alguns passos, talvez até em função mesmo da dificuldade de lidar com essa limitação tão contrária a nossa ansiedade por olhar pras coisas. Nós, os que enxergam as coisas. Não tinha nem um centésimo do desamparo que vivenciei na exposição “Diálogo na Escuridão”, no estacionamento do Salvador Shopping. Um ambiente de completo breu, onde por uma hora usamos bengala e somos guiados … por guias cegos.
    Tatear o mundo é muito diferente, sim. As coisas viram texturas, a gente quase se perde na falta de referências visuais, como se estivesse flutuando, mas acaba se conectando à realidade graças aos outros sentidos. Não saquei direito os cheiros. Me agarrei ao tato. A audição é que foi um espanto: como o ambiente simula uma caminhada por uma cidade real, há muitos sons em volta, o que pra mim virou uma verdadeira cacofonia. Sou dado a labirintices, então acabei ficando meio tonto. É estranho: como se o cérebro associasse ao silêncio a ausência de imagens, e, confrontado com os sons, amplificasse e misturasse tudo.
    E não é licença poética: você fica de fato inseguro… na hora de atravessar a rua. A guia disse que essa é a coisa mais difícil pra ela. Tem autonomia, até anda sem bengala dentro do prédio e em casa – e na exposição -, ambientes já mapeados em sua cabeça. Mas pra atravessar a rua precisa pedir ajuda porque os sons confundem. E Salvador não tem sinaleiras com alertas auditivos, não tem calçadas sinalizadas. Ela deu uma dica: ao ajudar um cego a atravessar, jamais vá puxando. Dê o braço pra que ele pouse a mão, assim saberá se você desceu a calçada, se tem uma depressão ou um obstáculo no chão, e irá se ajustando a esses sinais.
    Ela se vira, está aprendendo a trabalhar com programas de computador que têm aquele dispositivo de traduzir em audio o que está na tela. No mercado de trabalho, há possibilidade de atuar por exemplo como operadora de call center. Ela parece tranquila e vivaz. O mais genial na exposição é que não faz você ficar com pena dos ‘deficientes visuais’. Só faz você se colocar no lugar deles, entender como é difícil ser cego em terra de ‘eficientes visuais’, mas sobretudo que é absolutamente possível viver assim – ainda mais se a gente se preocupar em não dificultar a vida de quem precisa atravessar as nossas ruas tão cheias de som e fúria…

  • Quando o porta-voz do WikiLeaks, Julian Assange, declarou que o Google sabia mais sobre nós do que nossas próprias mães, o ciberativista australiano lançava um alerta para o processo em curso de garroteamento da Internet pelas novas corporações da mídia. Estaríamos cada vez mais navegando em aquários-fazendas virtuais sem nos dar conta dessa condição de confinamento?
    Em O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você, o norte-americano Eli Pariser, presidente do conselho diretor do portal MoveOn.org e cofundador da Avaaz.org, disseca o enredo. Personalizar. Essa é a palavra-chave para entender como o Google, Facebook, Yahoo, YouTube e outros agem na web para utilizar dados de milhões de pessoas com o fito que foge ao ideário inicial da web.
    Adotada por libertários ainda ressaquiados pela maré dos movimentos da contracultura, Pariser aponta uma Internet 3.0 que hoje caminha para colocar seus usuários como presas fáceis das bolhas de filtro. “(…) Quando deixamos por conta própria, os filtros de personalização servem como uma espécie de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com as nossas próprias ideias, amplificando nosso desejo por coisas conhecidas e nos deixando alheios aos perigos ocultos no obscuro território do desconhecido”, afirma.
    Buscar a relevância numoceano de milhões de informações disponíveis levou os programadores a trabalharem algoritmos capazes de empurrar os usuários para lugares-comuns amoldados aos seus perfis e predileções. Os sinais de comportamento, inclinação e preferências resultam em milhões de dados que, após filtrados e analisados, direcionam os internautas para nichos de supostas identificações sociais, culturais e políticas.
    Uma pesquisa no Google sobre o aborto trará um elenco de resultados para alguém que se posta filosófica e ideologicamente contra a prática e outro para um militante favorável à causa. Por quê? Porque o mais importante não é ofertar informações capazes de apresentar o problema num leque de visões e opiniões que mostrem os contraditórios do assunto ou tema buscado. Isso é secundário. O objetivo é manter guetos de afins para facilitar a publicidade direcionada.
    “A empresa que tiver maior quantidade de informações e souber usá-las melhor ganhará os dólares da publicidade”. Segundo o Wall Street Journal, os cinquenta sites mais visitados da Internet, sejam eles a CNN, o Yahoo ou o MSN, instalam cada um, em média, 64 cookies repletos de dados e beacons de rastreamento pessoal.
    “Se buscarmos uma palavra como ‘depressão’ no Dictionary.com, o site irá instalar 223 cookies e beacons de rastreamento em nosso computador, para que outros sites possam nos apresentar anúncios de antidepressivos”, alerta Pariser.
    O comportamento das pessoas na rede é a mercadoria. Estratégia que não atinge apenas a publicidade, mas também o jornalismo como efeito-catraca. Notícias que trazem assuntos recentes, pouco aprofundados, com ênfase nos escândalos virais ganham importância. “Os repórteres já não procuram mais furos – eles apenas botam lenha na fogueira das matérias que ganham mais cliques”, alfineta o ativista.
    A economia da atenção tem imposto à web uma espécie de mais do mesmo a milhões de usuários. A dica despretensiosa, tipo se você gosta disso gostará também daquilo; ou as sugestões de amizade de perfis próximos às suas tribos e grupos de referência, operam como poderosos filtros para manter focos de atenção pontuais.
    Dinâmica que dilui e até mesmo elimina a serindipidade, ou a possibilidade de achar o que não procuramos, inibindo a criatividade que possa resultar em descobertas que fujam ao que as “bolhas” possam dispor. Ameaça à promoção da diversidade de ideias, culturas e o sadio contato com o inusitado.
    Na sua análise, o autor apresenta as diferenças entre o Twitter e o Facebook. A despeito dos aspectos semelhantes das duas redes sociais, Pariser classifica as regras do Facebook como “incrivelmente turvas e que parecem mudar quase todo dia”.
    Na opinião do ativista, a rede criada por Mark Zuckerberg atua conforme suas bolhas de filtro e, muitas vezes, não respeita a publicação de postagens dos seus participantes, “pois diferentes tipos de conteúdos têm diferentes chances de ser mostrados”. Em relação ao Twitter, Pariser entende essa rede como bastante transparente e com poucas regras rigorosamente respeitadas pela empresa, não enganando os usuários.
    O Filtro Invisível não é apenas um libelo solto contra a tentativa de domínio aético de empresas na Internet por intermédio de panópticos de monitoramento social. O trabalho é embasado em razoável base teórica que reúne opiniões e citações de psicólogos, pedagogos, cientistas sociais e estudiosos do comportamento humano de diversas áreas do conhecimento. O livro serve como importante alerta do porvir sobre os efeitos da web no futuro das relações humanas.   
    Serviço:
    Eli Pariser
    O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você
    Jorge Zahar Editor, 2012, Rio de Janeiro
    Tradução – Diego Alfaro

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    Nunca gostei de ciências exatas. Odiava Matemática, Física e afins. Verdadeiras pedras nos meus sapatos colegiais, desde tenra infância. Não suportava a ideia de ter que aprender o que no íntimo sabia não fazer parte do meu futuro. Passei o ginásio e o científico questionando professores e meus pais do porquê das sessões de tortura diária na forma de tarefas de casa recheadas de contas e cálculos. Sobretudo quando invadiam meu sagrado final de semana. Não, não era um relapso e empedernido vagal. Amava História, Literatura, Geografia, Redação e transitava de forma razoável pela Biologia, conhecimento que imaginava fronteiriço entre o prazer e a tortura de estudar. E não adiantava estrilar com o mundo adulto para sustentar meus argumentos. Era tábula rasa, ou passava naqueles entulhos de conteúdos sem sabor, ou perderia o ano. O jeito era encarar, mesmo quando um livro de Júlio Verne fosse muito mais convidativo do que a resolução de uma equação do segundo grau. Nos papos e conversas com aqueles que se prontificavam a entender e levar a sério minhas angústias de adolescente, um e outro mencionavam que um dia não muito distante existira o curso clássico para os vocacionados às humanidades, letras e artes. Mas a má notícia é que os milicos haviam acabado com essa chancela para pôr o rebanho numa mesma sala. O “método” era “aprender” um pouquinho de tudo. Lembro que no dia que recebi essa informação, de que vetaram a possibilidade de eu estudar apenas o que me daria prazer, me revoltei contra os militares. Minha formação ideológica começou neste momento. O tempo passou e consegui me libertar daquela nojeira numérica. Estudei Sociologia, Comunicação, fiz mestrado em História Social e daquilo tudo só restaram os traumas. Fui obrigado a estudar tanta coisa e me faltaram tantas outras. Não estudei Filosofia no segundo-grau, por exemplo. Platão e Marx não seriam muito mais empolgantes pra mim do que um árido cálculo de ângulo? Também descobri que mentiram muito com o papo de que as disciplinas exatas um dia teriam serventia. No meu caso, não era e nunca foi verdade. Tudo que me massificaram em nada hoje me auxilia na vida profissional. Foi um engodo. Mas o drama permanece e agora se manifesta em meu filho, Davi, de 13 anos. Muitos acharão improdutivo e antipedagógico o fato de um pai estar apoiando o libelo de um filho que detesta Matemática. Não posso ser hipócrita, sobretudo com meu filho. E aproveito sua inquietação para revolver angústias recônditas. Até quando Zecas e Davis serão alvos de um sistema educacional tão cretino? O que falta para uma reforma séria que entenda e respeite as inclinações vocacionais das pessoas a partir do ensino médio? Tudo bem, se é para o estudante ter noções de todas as áreas, que o façam durante o ensino fundamental com métodos arejados, interessantes, construtivos e convidativos, sem precisar se aprofundar. Àqueles vocacionados às exatas, alguns itens gerais de humanas, letras e biomédicas, apenas; àqueles inclinados às humanas, conteúdos rápidos de exatas e biomédicas passados de forma lúdica; o mesmo valendo para os que gostam de biomédicas. De resto, no ensino médio uma preparação sólida e abrangente já contemplando as inclinações. Um futuro advogado ou sociólogo ganha mais se aprofundando em filosofia e ciência política, não é mesmo? Sim, sei que uma reforma desse naipe abalaria a indústria da educação privada, a mais interessada em manter as massificações de conteúdos por questões financeiras. Mudar significa perder lucros, e isso os tubarões do ensino mão aceitam de bom grado. Noves fora, a despeito dessas pressões em contrário, é preciso encarar esse debate e fazer com que as coisas mudem. Estudar tem que ser prazeroso e não torturante. E eu quero ver meu filho tendo prazer de estudar.