Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • Militância feminista por afirmação sexual e libelo existencial. Advogada, jornalista e blogueira, Nádia Lapa narra suas aventuras e desventuras sexuais e amorosas sem apelos. E também sem pudores. Cem homens em um ano não se limita à literatura erótica. É punho cerrado adocicado por gozos e sussurros que usa as mesmas armas de uma sociedade falocentrica para contrapô-la. Se for legítima a vontade de variar parceiros, que assim seja. O recado é direto. A contestação também. 
    Transas pra lá de gostosas, sexo mecânico e sem graça, despedidas insólitas, paixonites desconcertantes, amores não vingados, detalhes de posições e corpos, ménages, tórridas atrações fatais, que se encerram no ato, a “pegada” perfeita, alegrias e frustrações.
    É como se Nádia estivesse numa roda de amigas e amigos papeando. E o faz com narrativa e textos primorosos. Dirige-se a todos que queiram entender o comportamento de uma mulher madura que não se furta de viver plenamente sua sexualidade. Em tempos de ficções banais de variados tons de cinza, Nádia Lapa, ou Letícia Fernandez, pseudônimo assumido no seu blog Cem homens, desconcerta e derruba tabus. E pôr dar a face ao público, também sofre as consequências.
    O livro, lançamento da Matrix, edição em 141 páginas, não narra encontros com os ditos 100 homens. São 35 aventuras, 38 homens contando situações onde mais de um foi partícipe. Foram estes os escolhidos por Nádia para figurarem nas suas narrativas, todas transpostas do blog.
    “Transei e narrei porque gosto de fazer ambos. E, afinal de contas, eram decisões sobre meu corpo e o meu tempo. Por qual razão isso deveria incomodar pessoas que nunca me viram? Fui boba de achar que tudo era tão fácil de entender. O que o outro faz com o próprio corpo não deve ser problema da coletividade. Mas muita, muita gente pensa o contrário”. 
    O desabafo da escritora serve como catarse à avalanche de ofensas que recebe, seja pelo seu físico de gordinha ou mesmo porque assume sua opção libertária. Como ela afirma, “eu era a Geni”. E para muitos, ainda é.
    Bom seria ver um papo entre Nádia Lapa e William Reich, o psicanalista alemão que ela cita no final do livro. O autor de Psicologia de massas do fascismo, profundo estudo sobre a repressão à energia sexual na Alemanha nazista, poderia estar diante de um depoimento que o deixaria feliz. 
    “Traçar” 100 mancebos num ano serve como símbolo de afirmação. Nádia Lapa faz antropafogia simbólica. Devora e mastiga machos, por vontade e prazer. E, de alguma forma, por opção política.

  • Mal filmado e mal editado. Sim. Este vídeo não é uma reportagem, nem um doc. Aqui o repórter se desnudou das suas funções e deu boas vindas aos 50 médicos e médicas cubanos que vieram para o Brasil colaborar com o Programa Mais Médicos, do Governo Federal. Essas imagens buscam passar a emoção de um momento histórico. Noite de domingo, dia 25/08/2013. Bem-vindos companheiras e companheiros de Cuba!
  • Entender o comportamento de um ser humano comum, funcionário público correto, mas que não reflete a realidade, pensa burocraticamente e comete crimes abedecendo às leis do seu país. O filme Hannah Arendt, que tem a atriz Barbara Sukowa em magistral interpretação da filósofa alemã, conta a polêmica história que envolveu a pensadora, em 1961, quando foi cobrir o julgamento do Adolf Eichmann, em Jersulém, pela revista estadunidense The New Yorker. Eichmann, um dos arquitetos da Solução Final, fora sequestrado na Argentina pelo serviço secreto israelense, o Mossad, para ser julgado em Israel.
    O filme retrata uma Hanna Arendt que não se limita ao papel de simples repórter. Vai além. Se propõe pensar filosoficamente sobre a dantesca indústria da morte construída pelo nazismo. Não busca culpas individuais. Observa a engrenagem do terror atropelando valores humanos e éticos. Sua cobertura resultou numa série de cinco artigos publicados pela New Yorker, que deu origem ao livro Eichmann em Jerusalém – Uma reportagem sobre a banalidade do mal.
    Dirigido por Margarethe Von Trotta, o filme apresenta a autora de As origens do totalitarismo e a A condição humana como uma mulher do seu tempo. Fumante inveterada, é casada com o poeta, filósofo comunista e teórico marxista alemão Heinrich Blutcher. Judeus, chegaram aos Estados Unidos como refugiados de um campo de concentração nazista na França. Nos EUA, onde adquiriu cidadania, ela lecionou no New School of Social Research. 
    A publicação dos artigos é o começo do drama de Hannah. A filósofa assume real papel de jornalista. Vê os fatos num contexto que foge ao linchamento moral. Nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros, fossem alemães a serviço do III Reich ou judeus envolvidos na colaboração da matança. É a civilização européia que vive histórica crise de valores, o que leva à banalização do mal. 
    Esta é a mostruosa realidade não compreendida por muitos dos seus colegas intelectuais, alguns inclusive judeus sionistas militantes. Exigiam uma reportagem condenatória. E Hanna revolveu feridas abertas. O episódio leva ao fim da amizade com Kurt Blumenfeld, diretor e porta-voz do movimento sionista alemão 
    O roteiro da película também lembra a jovem e bela Hanna Arendt aos 17 anos, aluna de Martin Heidegger (1889-1976), seu mestre à época com 35 anos com quem teve intenso caso de amor. E também decepção. Heidegger simpatizara com o Partido Nazista e assumira a reitoria da Universidade de Freiburg. 
    No entanto, as digitais do mestre a acompanhariam ao longo da sua vida acadêmica. Pensar é o que faz um ser humano interagir como membro de uma sociedade. Hanna conduz seus artigos sobre o julgamento de Eichmann entendendo que abrir mão das habilidades de pensamento crítico aos outros é central às suas conclusões acerca daquele júri. 
    Conforme a filósofa, Eichmann era apenas uma peça decorrente “da totalidade do colapso moral que os nazistas causaram na respeitável sociedade europeia”. É o bastante para provocar a ira da sociedade estadunidense e da comunidade judaica internacional. À ela e à New Yorker. Num determinado momento, um amigo judeu à beira da morte lhe pergunta se não ama o Estado de Israel. “Não amo nenhum país”, responde.

  • Foto/ http://www.freibetto.org
    Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, ex-frade dominicano, foi preso duas vezes à época da ditadura militar. Em 1964, por 15 dias; e entre os anos 1969 e 1973. Militante de movimentos pastorais e sociais, é adepto da Teologia da Libertação, corrente política da Igreja que atuou com bastante força na América Latina nos anos 80 e 90. Frei Betto foi assessor especial do primeiro governo de Lula, entre 2003 e 2004, quando coordenou a Mobilização Social do programa Fome Zero. Escritor com 53 livros publicados, estudou Jornalismo, Filosofia, Antropologia e Teologia. Ainda que afirme que os governos Lula e Dilma “foram os melhores da história republicana do Brasil”, o escritor faz duras críticas ao atual projeto político. De passagem por Salvador, onde cumpriu agenda de trabalho, ele conversou com o blog Textos ao Vento. Falou das manifestações que varrem o Brasil, da igreja Católica, dos direitos das minorias e do coletivo Mídia Ninja. 
    Zeca Peixoto – Como o senhor observa os panoramas nacional e internacional e o papel do Estado no atual contexto?
    Frei Beto – Nós estamos vivendo hoje o início da pós-modernidade hegemonizada pelo capitalismo neoliberal. E isso leva à crise das quatro instituições-pilares da modernidade, que são o Estado, a família, a escola e a Igreja. De modo que o Estado sofre uma crise de identidade, porque o neoliberalismo o transformou num agente privatizado em função da iniciativa privada, com o perdão da redundância. Isso fez com que o Estado passasse a ser mero gestor de conflitos sociais, em geral favorecendo as classes dominantes. Com isso houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Daí é preciso haver uma reforma política, urgente no caso do Brasil, mas em geral no mundo inteiro para resgatar o papel do Estado como provedor dos direitos sociais.

    Zeca Peixoto – No caso do Brasil, nessas manifestações havia deliberada repulsa contra as agremiações políticas, os políticos e toda e qualquer forma de poder. Os partidos políticos perderam a interlocução com a sociedade?
    Frei Beto – Sim, perderam. Houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Os partidos se afastaram. Acreditaram que a mera aliança ou o toma lá da cá entre eles, seria suficiente para que se mantivessem sem serem questionados pela opinião pública. Esse divórcio levou a um abismo refletido nessas manifestações.
    Zeca Peixoto – Mas em muitas situações essas manifestações foram tomadas por grupos conservadores e de direita…
    Frei Beto – Na verdade há um aspecto muito positivo e outro muito negativo nas manifestações. O positivo é que elas são apartidárias ou suprapartidárias, embora sejam políticas… 
    Zeca Peixoto – E o senhor vê um lado positivo nisso?
    Frei Betto – Muito. É preciso que a sociedade civil tenha outros mecanismos de democracia direta além dos partidos, e um deles são os movimentos sociais. E essas manifestações foram convocadas pelos movimentos sociais através das redes sociais.

    Zeca Peixoto – E quanto ao negativo?
    Frei Betto – O que há de negativo é o incremento de um rechaço, de uma rejeição da política. Eu sempre digo aos jovens, quem tem nojo de política é governado por quem não tem, e tudo que os maus políticos querem é infundir bastante nojo da política para que eles fiquem à vontade com a rapadura na mão.
    Zeca Peixoto – Esta última situação não denotaria uma inclinação mais fascista?
    Frei Betto – Se houver uma rejeição, sim. Se leva ao fascismo, a um vácuo em termos de mecanismos e instrumentos políticos e pode esse vácuo amanhã convergir para o poder cair no colo de uma liderança aparentemente messiânica, como aconteceu na Alemanha de Hitler ou na Itália de Mussolini.
    Zeca Peixoto – E quanto à perspectiva do atual projeto político, tendo PT à frente, tentar construir uma alternativa nesse momento para dar continuidade? Não teria que se inclinar mais a essas demandas?
    Frei Betto – Teria que fazer a reforma política, que foi a primeira resposta que o Executivo deu quando a presidente Dilma disse que convocaria uma assembleia exclusiva constituinte para a reforma política. Depois voltou atrás dizendo que convocaria um plebiscito válido para eleições de 2014, e mais uma vez voltou atrás e agora já não se fala mais nisso. 
    Zeca Peixoto – Enquanto isso a credibilidade… 
    Frei Betto – Pois é, ou seja, o governo está entrando numa zona de risco, de perda cada vez maior da credibilidade e, portanto, com a possibilidade de reforçar cada vez mais os grupos e partidos mais conservadores da sociedade brasileira, que buscam uma alternância de poder.
    Zeca Peixoto – Mudando um pouco o eixo, como o senhor observa esse novo momento da Igreja Católica com o Papa Francisco? É apenas uma mera ação de marketing e propaganda política para tentar ocupar o espaço perdido nos últimos anos?
    Frei Betto – Por enquanto, o que a gente viu foi uma transformação do papado, com a promessa de que haverá também uma transformação da Cúria Romana. Eu tenho muita fé, muita esperança no Papa Francisco, por ser latinoamericano, por ser um homem aberto ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e, sobretudo, por ter muito claro que a linha pastoral dele é de opção pelos pobres. Então eu espero que essa reforma que começou de cima pra baixo, através do papado, venha se refletir nas bases da Igreja, desbloqueando uma série de temas atuais que hoje estão vetados à discussão dentro da Igreja, como a questão da moral sexual.
    Zeca Peixoto – Quando o senhor fala na questão da moral sexual, o que inclui?
    Frei Betto – Eu incluo a homossexualidade, a volta dos padres casados podendo celebrar missas, ordenação de mulheres, fim do celibato obrigatório, tudo isso.
    Zeca Peixoto – A morte do Papa João Paulo I contribuiu para a inclinação à direita do Vaticano?
    Frei Betto – Evidente. Com a morte de João Paulo I favoreceu a eleição de João Paulo II, que era um homem do leste europeu, da Polônia, anti-comunista visceral, eurocentrado como Bento XVI. Embora João Paulo II tenha tido atitudes muito positivas na linha social, do ponto de doutrinário era um homem profundamente conservador. E isso levou a uma “vaticanização” da Igreja brasileira e latino-americana, o que não foi bom para a Igreja.
    Zeca Peixoto – O senhor atuou nas comunidades eclesiais de base, na pastoral operária e nos movimentos sociais ligados à Igreja. A atuação desses segmentos refluiu nos últimos 10 anos.
    Frei Betto – Houve um refluxo por duas razões: primeira por essa vaticanização promovida desde Roma pelos dois pontificados anteriores, João Paulo II e Bento XVI; e segundo, a vaticanização. Ou seja, a escolha de padres mais conservadores para serem bispos. Essa situação levou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, a perder seu caráter profético. A CNBB era a voz dos que não tinham voz no Brasil. Hoje essa entidade pouco se mobiliza com as questões sociais, o que espero que volte a acontecer com o Papa Francisco.
    Zeca Peixoto – E o senhor tem esperança que a Igreja venha a se transformar a médio prazo?
    Frei Betto – Espero que sim. Acho que o Papa Francisco, só nessa viagem ao Rio, já deu passos muito importantes, como defender a dignidades dos homossexuais, falar que a Igreja precisa de uma teologia da mulher, insistir na opção pelos pobres, insistir que os bispos não devem se considerar príncipes. Enfim, acho que foram sinalizações fundamentais para a renovação da Igreja.
    Zeca Peixoto – Como o senhor observa a atuação do coletivo Mídia Ninja?
    Frei Betto – tenho admiração e aplaudo o Ninja. É preciso a gente caminhar para a democratização dos meios de comunicação. Nunca entendi como membro do Governo Federal nos anos 2003 e 2004, porque os sistemas de rádio e televisão no Brasil pertencentes à União e sendo concessão pública estão permanentemente como os mesmos proprietários. E ainda mais porque os governos municipal, estadual e federal pagam publicidade nesses veículos se eles são propriedades públicas. Isso para mim é uma incronguência e precisa de ser revertido.
    Zeca Peixoto – Diante de todas as discordâncias que o senhor teve dos encaminhamentos tomados pelo governo federal após a ascensão de Lula ao poder, qual foi o pomo da discórdia que o levou à decisão de deixar o governo?
    Frei Betto – eu falo em dois livros publicados pela editora Rocco. A Mosca Azul, que é uma reflexão sobre o poder, e O Calendário do poder, que é o meu diário em dois anos de Planalto. Fui chamado para ajudar a montar o programa Fome Zero, que era um programa de caráter emancipatório. A família que entrasse no programa, dentro de três quatro anos sairia em condições de produzir a sua própria renda. E por razões políticas, que eu explico no Calendário do poder, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Programa Bolsa Família, que é um programa bom, porém de caráter compensatório, pois quem entra não sai mais e fica na dependência da União permanentemente. Essa foi a minha discordância.
    Zeca Peixoto – Os movimentos sociais do campo, em particular o MST, arguem que pouco se avançou na reforma agrária no Brasil.
    Frei Betto – muito pouco. Há períodos que você compara e o Fernando Henrique avançou muito mais (na reforma agrária. Então, de fato, o governo é refém do agronegócio, do latifúndio, e vai pagar, já está pagando, um preço muito alto por isso. Qualquer crise nas exportações, se houver um decrescimento do PIB chinês, isso vai ter um profundo reflexo nessa dependência que o Brasil criou no agronegócio através das exportações de commodities.
    Zeca Peixoto – Sem dinamizar possibilidades no mercado interno
    Frei Betto – Exatamente. Nem valorizou os pequenos e médios produtores que abastecem a mesa do brasileiro.
    Zeca Peixoto – E quais são as perspectivas? Dilma tem condição de ser reeleita? Lula seria um plano B?
    Frei Betto – Tenho impressão que sim. Se Dilma não crescer nas pesquisas até o período eleitoral, Lula é o candidato. Fato que fora disso as alternativas são conservadoras, e isso seria um grande retrocesso. Apesar de todas as críticas que eu faço ao atual governo, considero os governos Lula e Dilma os melhores da nossa história republicana.

  • Em tempos de Black Blok, Marcha das Vadias, Fora do Eixo, Mídia Ninja e outras hashtags da rede, a versão inédita para o teatro do longa “Edukators”, de Hans Weingartner, contextualiza com o momento que o Brasil e o mundo vivenciam. Dirigido por João Fonseca com dramaturgia de Rafael Gomes, o espetáculo tem no elenco Edmilson Barros, Fabrício Belsoff, Natália Lage e Pablo Sanábio.
    Em Salvador, a peça foi exibida nos dias 10 e 11 de agosto no Teatro Sesc, Casa do Comércio. Segundo a produtora Marlucia Sie, o espetáculo retorna à capital baiana em novembro para circuitos em colégios e faculdades. 
    Numa Alemanha sob a égide do neoliberalismo, três jovens de Berlim buscam transformar o mundo invadindo mansões como atos-símbolos de protesto contra o sistema capitalista. Uma dessas invasões ocorre na residência de um arquimilionário, que passa a ser refém dos “educadores”.
    É o momento que a história ganha destino surpreendente, expondo fraquezas, contradições e revelações dos quatro personagens. O roteiro não chega a ser o mesmo do filme. É uma adaptação, mas mantêm o argumento central do longa, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2004.
    Eduktors é catarse de libelos juvenis liquidificados. Espécie de síntese das experiências libertárias egressas dos 60. Contestações e até mesmo conformações com a realidade sufocante.
    Ambientada em arranjos de cenários simples, a peça tem elenco à altura para interpretar o texto de Weingartner. Os jovens atores Fabrício Belsoff e Pablo Sanábio respondem satisfatoriamente às contracenas com os experientes Natália Lage e Edmilson Barros. O grupo dá conta do recado. 
    Rodrigo Penna, criador da seleção musical e trilha original, veste a caráter as cenas num espectro que vai de Sinatra, passando por Bob Dylan à música eletrônica do Chemical Brothers.
    Quanto ao retorno da peça, Marlucia adianta que trabalhará com duas empresas da capital baiana para viabilizar as apresentações. A ideia é excelente e já passa do momento de ofertar um cardápio cultural mais inteligente aos teens da Soterópolis. Que venha Eduktors, mais uma vez.
  • René Saavedra (Gael García Bernal) é um publiscitário descolado que vai para o trabalho de skate e adora se divertir com brinquedos infantis. Bem de vida, atua numa agência em Santiago e está às voltas com uma campanha para lançar um produto inovador, o microndas, sonho de consumo da classe média chinela. É o ano de 1988. O Chile vive sufocante ditadura do general Augusto Pinochet, um dos mais violentos ditadores do planeta e responsável por milhares de assassinatos e torturas desde que assumira o governo, em 11 de Setembro de 1973, quando derrubou o presidente socialista Salvador Allende por intermédio de um sangrento golpe militar.
    Pressionado pela comunidade internacional, o governo é coagido a aceitar um plebiscito para que a população decida pela continuidade ou não do regime militar. Filho de exilado político, Saavedra assumi a coordenação da campanha do “NO”, fato histórico relevante transformado em filme com pinta de case propagandístico. Dirigido por Pablo Larraín, 1h55 de duração, a película utiliza tonalidade magenta para recriar a plástica da imagem veiculada na televisão à época. Não como apelo estético, mas como recurso semiótico calibrado à ambientação da mídia televisiva.
    Como convencer uma sociedade narcotizada pelo consumo e aboletada no sofá à frente da TV que um país livre e democrático seria melhor às gerações futuras? Era o nó górdio da campanha.
    Para os oposicionistas de esquerda, a comunicação deveria seguir o velho clichê dos anos 70, denunciando as arbitrariedades de Pinochet com filmes de propaganda duros e panfletários. Saavedra pensava diferente. Entendia que a população chinela já não era a mesma dos idos de 1973.
    Por um lado, uma nova geração crescera ambientanda por códigos e fluxos de comunicação que não mais respondiam aos apelos de um discurso tradicional da esquerda; do outro, uma classe média temerosa de mudanças que pusessem em risco suas parcas conquistas materiais e um proletariado amedrontado e ainda traumatizado. Falar a todos esses segmentos com uma só linguagem constituía tarefa imediata. E difícil.
    Cores, humor, brincadeiras e jingle de fácil assimilação. De início, o conceito de comunicação proposto pela equipe do NO é duramente criticado por políticos comunistas e socialistas. Se sentiam ofendidos por tudo que tinham passado. Para eles, um tipo de propaganda despretenciosa. Na verdade, não acreditavam no plebiscito, davam-no como vitória certa do general que controlava os meios de comunicação privados. O importante seria ocupar bem o espaço conquistado, fruto da pressão popular.
    Aos poucos a equipe de Saavedra convence-os da possibilidade concreta de vitória. Vence a tese da comunicação política ornada com elementos do cotidiano das pessoas e o apelo à linguagem dos jovens. O NO não deveria remeter à tristeza ou à nostalgia do que quer que fosse e sim olhar o futuro. Votar contra o regime de Pinochet era ter alegria. A vida poderia ser colorida e melhor sem ele.
    A ideia foi comprada. E incomodou o regime. Artifícios de sabotagem e repressão foram utilizados para inibir a campanha do NO, que se espalhou como viral na sociedade chilena, resultando na apoteótica vitória que pôs fim à nefasta ditadura de Augusto Pinochet. Para quem não assistiu, vale a pena conferir esse interessante case de propaganda política.


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  • Em tempos de jovens roqueiros engomadinhos e alguns antigos com atitudes reacionárias e caquéticas, assistir Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, é balsâmico, nostálgico e catártico. Não esperem aqui uma crítica. Não é. No máximo, um depoimento de quem viu o filme e vivenciou aqueles momentos em Brasília. Sem pretensões estéticas, tô fora.
    Fontoura amarra bem o roteiro que propõe. O início da trajetória do cantor e compositor Renato Russo, falecido em outubro de 1996 e interpretado por Thiago Mendonça, é a âncora que explica a sociogênese do chamado Rock Brasília. Do Aborto Elétrico à Legião Urbana e a capital federal como berço do punk tupiniquim.
    Entre 1976 e 1982, enquanto o regime militar, já convalescente, continuava mostrando seus dentes numa Brasília sufocada pela repressão política, jovens da classe média se reuniam para driblar o ócio. A cidade, à época, não oferecia entretenimento para rapazes e moças que afloravam hormônios e rebeldia a granel. O jeito era o it your self. Rock de garagem e festinhas sob forte influência do punk inglês, no ritmo e atitude.
    Não precisavam de rigor técnico. Bastava empunhar a guitarra e arriscar três acordes. Era o suficiente para eletrizar e descarregar. Tédio com um T bem grande para quem os questionasse.
    Renato Manfredini, mais tarde Russo, é fruto dessa atmosfera. Filho de um funcionário do Banco do Brasil e de uma típica dona-de-casa, o jovem professor de inglês e estudante de Jornalismo desagua paixões por meninas e meninos e fúrias contra o sistema político vigente. Tabus bem caros àquele momento.
    A película ganha verossimilhança com a magistral interpretação de Thiago Mendonça. O ator incorpora o ídolo de várias gerações reeditando jeitos e trajeitos do roqueiro. Em depoimento em vídeo ao portal G1, o guitarrista Dado Villa-Lobos, interpretado no filme pelo seu filho Nicolau, confirma: “eu acho que a história desse filme é essa história (…) Está ali o Renato Russo”.
    E não só Renato como a primeira leva da cena rocker brasiliense, permeada pelo troca-troca de músicos que passavam de uma banda à outra como se mudassem de roupa. Plebe Rude, Capital Inicial e outros grupos figuram no filme. Tudo é tão adolescente e poético… A Brasília jovem era uma babel punk e sonhadora. A ordem era se divertir e deixar a dança do pogo celebrar.
    Para além do punk, o poeta é também o místico-intelectual que devora livros de Allen Ginsgberg, poesias de Luís de Camões e faz referências ao Budismo e o Tao te King. Suas letras e músicas são centrífugas desses emaranhados de inspirações.
    Momentos sublimes do filme, as belas canções Por enquanto,dedicada ao fim do Aborto Elétrico, Ainda é cedo, que Renato compôs para reatar a amizade da sua eterna amiga-amante-confidente Aninha, e Que país é esse, pedrada de engajamento político, resumem a veia poética do band leader que, seguramente, mais influenciou comportamentos e atitudes na cena pop nacional. O trabalho de Fontoura só confirma que a Legião é a banda extinta mais ativa do país e Renato Russo é a alma dela.     

  • Terrorismo econômico e escândalo político seletivo e oportunista. A mídia corporativa nativa cria a agenda com o auxílio luxuoso do Departamento de Estado dos Estados Unidos para levar à instabilidade institucional. Não, não estamos falando da conjuntura atual do país e sim do Brasil de 1964. A fórmula é velha, sabe-se, mas foi este o enredo que levou ao golpe militar naquele ano. E não é coincidência.
    O dia que durou 21 anos, documentário dirigido por Camilo Tavares, com produção do seu pai, o jornalista Flávio Tavares, ex-preso político torturado pelo regime, reúne documentos inéditos sobre o episódio que retardou em, pelo menos, 40 anos o desenvolvimento brasileiro. O trabalho, de 117 minutos, é uma co-produção da Pequi Filmes e TV Brasil.
    O filme expõe as vísceras do envolvimento do governo estadunidense no episódio. Processo iniciado ainda em 1962 com o presidente John Kennedy e levado a cabo pelo seu sucessor, Lyndon Johnson. A ordem era tirar o presidente João Goulart do poder, desde que ele assumira o comando do país, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.
    O documentário é didático. Explica com riqueza de detalhes a crise para o retorno de Goulart, a emenda parlamentarista que lhe tirou força política, o plebiscito que reconduziu o Brasil ao sistema presidencialista e o desfecho golpista, ocorrido na madrugada de 31 de março para 1 de abril de 1964.
    Nos bastidores, a atuação de autoridades dos EUA, como o embaixador Lincoln Gordon e o adido militar, general Vernon Walters. São provas cabais. Documentos e gravações em áudio são apresentados e trazem à baila diálogos entre Gordon e o primeiro escalão estadunidense. As conversas incluem o presidente Johnson, o secretário de Estado Dean Rusk e o secretário da Defesa, Robert McNamara, entre outros personagens.
    Enquanto isso, no Brasil, entidades estadunidenses atuam na conspiração. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Insituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), grupos teleguiados pela CIA, se encarregam de despejar milhões de dólares na imprensa e na compra de apoio parlamentar à conspirata.
    Na agenda política do governo, as chamadas reformas de base – reforma agrária, política e tributária, junto a outras medidas – deixam as elites e setores expressivos da classe média apreensivos ante o perigo da implantação de um “governo sindicalista de inclinação de esquerda”.
    A paranóia anti-comunista cai como uma luva no imaginário desses setores. A direita sai às ruas e leva milhares para a “Marcha com Deus, pela família e pela propriedade”. Empresários, imprensa e políticos inclinados ao golpe alimentam a iminência de uma revolução comunista. Sentimento que serve como amálgama aos intentos estadunidenses, que vêem seus interesses econômicos ameaçados.
    Também figuram depoimentos interessantes, como de oficiais legalistas que foram cassados pela quartelada, sendo que um deles lamenta a ausência de resistência por parte das forças do governo. “Foi tudo muito pacífico”, lembra. 
    A Operação Brother Sam também é citada. Washington autoriza o envio de forças militares para pressionar a queda de Goulart. A decisão é demonstrada em áudio. “Tudo o que precisarmos fazer. Vamos pôr nosso pescoço para fora (nos arriscar)”.
    O golpe é dado e o país mergulha em 21 anos de trevas. Cassações, torturas, assassinatos e toda tipo de violência são cometidos pelas forças de repressão. E o pior é que essas mesmas ameaças continuam a pairar sobre o país. O filme dos Tavares serve como vacina e alerta. Imperdível.

    Vejam trailer

  • No dia 11 de abril de 2013 militantes do MST chegam ao Centro Administrativo da Bahia para reivindicar mais rapidez nas ações da Reforma Agrária. A manifestação integrou as ações do Abril Vermelho. Entrevista, imagens e edição: Zeca Peixoto.
  • Foi um acaso. Serendipidades que não presumimos vir ocorrer. Encontro fortuito no ambiente de trabalho com uma colega. Papo rápido em frente ao cafezinho, mas suficiente para destilar angústias e incômodos que a vida traz. “Estou lendo um livro fantástico, escrito por uma juíza e que narra algumas situações ao longo dos seus 15 anos de atuação nas varas de família do Rio de Janeiro”. No dia seguinte chegava às minhas mãos A vida não é justa, de Andréa Pachá.    
    Foi um presente. Nos últimos anos dedicado à leitura de livros e textos acadêmicos, afundado em toneladas de ensaios, artigos e publicações especializadas, abri um hiato para ler aquelas histórias. Emocionei, chorei, ri e, também, de alguma forma, me vi. Para quem já passou por duas separações…  
    Quem imagina um texto duro, juridiquês pesado, se engana com Pachá. A juíza retira a toga e abre o coração. Com refinado estilo e uma narrativa suave, inteligente, perpicaz e doce, a magistrada descreve sucintamente dramas e desencontros de casais, pais e filhos. A tormenta dos desenlaces conjugais nivela ricos, pobres, classe média e favelados. O sofrimento transcende as condições sociais daqueles que o atravessam.
    Andréa divide o livro em quatro eixos temáticos. Amores líquidos; Pais e filhos; Realidade ampliada; e Recomeços. Seja a separação de um jovem casal abastado para o qual o casamento foi só uma festa que durou três meses; a decisão consensual de pedir o divórcio e sair de mãos dadas do fórum aos prantos; disputas por heranças e pensões; as duas famílias de Zé Pernambuco; a senhora de 64 anos que assumiu o avatar de “Molhadinha25” na Internet e deixou o marido pocesso; exames de paternidade; lamentos de crianças e adolescentes cujos pais tomam rumos diferentes, entre outras.
    Ainda que em todas as situações descritas a juíza não decline de expôr suas decisões, ela intervem na mediação dos processos observando as relações humanas. A letra fria da lei é o que menos importa. Sua percepção e, sobretudo, interpretação e aplicação das sentenças decorrem do entendimento da vida num aspecto mais elevado. Andréa aconselha, conversa, escuta, opina e, por vezes, se deixa levar por recônditas emoções que procura enjaular. Sim, a juíza também sente. E respeita a todos.
    Não há certos nem errados. A condição humana, por si, já é factível de erros. São os designos da existência que levam homens e mulheres a buscar o Estado para desenrolar novelos que movem paixões, desamores, rancores, frustrações ou disputas meramente materiais. Com passagem na área de produção teatral, Andréa Pachá se coloca na condição de arbitrar destinos nesse grande palco que é a vida. E que não é justa.
    O livro tem 190 páginas e foi publicado pela editora Agir. Conta com as apresentações dos escritores Zuenir Ventura – capa – e Alcione Araújo.