Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • Os Estados Unidos estão sob estado de sítio após um atentado terrorista. Na cidade de São Francisco, Califórnia, um grupo de adolescentes hakers luta contra os atos arbitrários perpetrados pelo Departamento de Segurança Nacional. As liberdades civis são suprimidas e a ação na Internet é a última fronteira de resistência de jovens colegiais que não se submetem à paranóica vigilância das autoridades.
    Este é o cenário que ambienta a ficção Pequeno Irmão, do jornalista, escritor e ciberativista canadense Cory Doctorow, que no Brasil foi publicado pela Galera Record. O livro tem pose de literatura juvenil, mas o que de fato propõe vai além. Ao longo da narrativa, Doctorow estabelece pontes ideológicas entre as militâncias libertárias que sacudiram a Califórnia e boa parte do mundo nos anos 60 e 70 e os movimentos hakers e a cultura digital. Seriam ciclos sociais dialeticamente sucedâneos.
    Marcus Yallow, o personagem central, ou simplesmente M1k3y, é um garoto de 17 anos, amante e conhecedor profundo das novas tecnologias de comunicação, que pauta seu dia-a-dia entre as “existências” real e virtual. Numa situação digna dos nebulosos roteiros de Kafka, é preso pelas autoridades estadunidenses e acusado de envolvimento com terrorismo junto com outros companheiros.
    Autogestão, colaboração e opções alternativas de vida são o contraponto político a uma sociedade panóptica e sufocante. Ter à mão um console Xbox e o acesso a uma rede wi-fi paralela e criptografada é a retaguarda tecnológica necessária para transformar os games virtuais em estratégias precisas na luta contra as forças opressoras do Estado. O resultado é a militância na “vida real” a partir de convocações e provocações para mobs flashs de resistência. 
    Ecoa então a palavra de ordem “Não confie em ninguém com mais de 25 anos”. Um revival ainda mais radical que o libelo de 1968, encurtando em cinco anos a desconfiança nas gerações mais velhas. “Nós sempre fomos um pouco mais politizados do que o resto da nação”, afirma uma professora amiga que dá argumentos à galera numa lembrança nostálgica da Califórnia convulsionada por hippies, yippies, panteras negras etc.
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    A história imaginada por Doctorow salpica fortes doses de realismo à medida que põe o leitor diante de situações e fatos concretos, que nada têm de ficcionais. Ele apenas muda locais e nomes, não como forma de dissimular, mas de apontar e protestar. A prisão de Guantánamo está logo ali na Baía de São Francisco, para onde dissidentes e presos são encaminhados após violentas manifestações de rua, ou mesmo após serem pegos pela ostensiva vigilância do Patriotic Act – lei patriótica. Se o autor não chega a vaticinar os EUA vivendo num futuro estado de exceção, ao menos deixa um alerta para tal.
  • Caio (Pedro Maia) busca o colo materno. A mãe (Aícha Marques), impávida, nem mesmo olha para o filho que, carente, disputa espaço para se debruçar no seu ventre. Ela mantém atenção fixa na televisão, que reporta a posse de José Sarney, primeiro presidente civil após o regime militar e que conduz o início da Nova República. Ele desiste do intento.
    A cena é forte e traduz o recado que Depois da Chuva passa: a desilusão que contrasta com o clima de euforia decorrente da redemocratização do país, em 1984, quando os militares entregaram o poder após 20 anos de ditadura.
    O estado de exceção se fora, mas não os conflitos que envolvem gerações. Caio é um adolescente que estuda num colégio particular e conservador. Está envolvido com um grupo de ativistas anarquistas, descrentes da política partidária tradicional. Atuam num espaço no Centro Histórico onde funciona uma rádio pirata. Eles fumam, atacam o sistema, tocam música experimental e debocham dos militantes da esquerda ortodoxa, inclusos os colegas que tentam reorganizar o grêmio estudantil. Trazem o embate na veia.
    Rescaldos da crítica dos “engajados” sobre os “desbundados”, que marcou os anos de chumbo nos 70. Neste aspecto, o filme sugere o início da atuação do combativo jornal anarquista de Salvador, O Inimigo do Rei, alvo de críticas à direita e à esquerda no período em tela. 
    Dirigido por Cláudio Marques e Marília Hughes, Depois da Chuva, que estreou neste mês de Janeiro no Brasil, tem o mérito de apresentar alguns aspectos pouco conhecidos da Salvador dos meados dos 80. Situações que muitos jamais perceberam.
    Os diretores se distanciaram dos estereótipos que carimbam a Soterópolis festeira. A capital baiana figura apenas como um acaso. Os apelos de baianidades e sentimentos pueris de pertencimento à terra, dão lugar à cidade com espaços tomados por bandas de punk rock, como Cracr! e Dever de Classe, onde reuniam jovens em shows artesanais, como os que ocorriam na fábrica abandonada da Ribeira.
    A fotografia, outro ponto forte do filme, dá o diapasão estético da película mediante enquadramentos e luz que emolduram diálogos densos e inteligentes. O som do Dead Kennedys, sim, compõe bem com imagens de locais recônditos da capital baiana, que vivia a gênese da chamada axé music.
    Destaque para a atuação de Pedro Maia, protagonista principal, jovem e excelente ator que interpreta Caio. O garoto não é promessa. É ator. E atua junto com um elenco competente e preparado. Elenco que esteve sob os cuidados do cineasta Reinofy Duarte, que certamente teve função determinante no desempenho do grupo.
    Depois da Chuva é filme para o mundo assistir e debater. Feito do cinema baiano que só Glauber Rocha havia conseguido. Cláudio Marques e Marília Hughes foram ousados. E conseguiram. Que bom!

    Ficha técnica:

    Companhia produtora: Coisa de Cinema
    Produção Executiva: Cláudio Marques e Marília Hughes
    Roteiro: Cláudio Marques
    Fotografia: Ivo Lopes Araújo
    Som: Guile Martins, Edson Secco
    Direção de Arte, Figurino: Anita Dominoni
    Preparação de atores: Reinofy Duarte
    Montagem: Cláudio Marques Edição de Som: Edson Secco
    Trilha Musical: Mateus Dantas, Nancy Viegas, Bandas Crac! e Dever de Classe Com: Pedro Maia, Sophia Corral, Aícha Marques e Talis Castro.


  • Rever os conceitos de propagabilidade numa economia da mídia forjada pela intensa participação dos usuários como condutores de ideias e atuantes na remodelagem dos produtos veiculados. Mais do que o valor agregado a partir de uma escala puramente econômica, a Internet tem proporcionado aos membros da audiência, também produtores, novas percepções do sentido de lucro.
    Na economia da dádiva, ou do dom, mais vale a opinião e a catapulta midiática nas mãos dos usuários do que 1000 banners “flashando” a linha do tempo de alguém. Doravante, o jornalismo, a propaganda e a publicidade, da forma que o capitalismo desenhou até o momento, em breve serão peças arqueológicas. Diria Marx: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”.
    O vaticínio é dos estadunidenses e estudiosos da mídia Henry Jenkins, Joshua Green e Sam Ford, três pesquisadores ligados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
    Em Cultura da Conexão, lançado no Brasil pela Editora Aleph, o compartilhamento nas redes sociais não tem apenas papel fundamental à visibilidade de um novo produto, tangível ou intangível, mas, sobretudo, à manutenção e sobrevivência deste produto.
    Os modelos de veiculação tradicionais, conforme os autores, só sobrevivem, da mesma forma, em compasso cadenciado com as inquietações dos internautas. São eles que têm definido a biruta das tendências.
    A cantora inglesa Susan Boyle é um bom exemplo. As performances da artista na rede renderam 77 milhões de visualizações no Youtube, enquanto o final da temporada do American Idol atraiu 32 milhões de telespectadores nos EUA. O programa foi veiculado na TV aberta.      
    Jenkins, Green e Ford partem da desconstrução do conceito de “virial”. Optam pelo entendimento de “propagabilidade”. Há diferenças. Neste quesito, o público tem papel ativo na “propagação” e não se limita a ser portador da imagem ou texto sobre o que seja. Mais: estes mesmos produtos são factíveis de remodelagens, remixagens e outros recursos midiáticos. Transmutam-se. Ganham resignificações.
    Nesta nova linha de montagem, os usuários das redes sociais são “commodities”. Isso mesmo, mercadoria. Os autores coadunam com outros pesquisadores da mídia, a exemplo do ciberativista Eli Pariser (2012).
    “O público cria, conscientemente ou não, valor de economia por interesses comerciais, por meio de geração de conteúdo para atrair a atenção e transformar essa atenção em commodity, e através das informações valiosas que eles lançam, as quais podem ser vendidas pelo lance mais alto”, sustentam os autores.
    O trabalho dos pesquisadores não fecha questão do que poderá vir a se concretizar na nova economia política da mídia. No entanto, não é difícil constatar que os interesses sociais que movem os públicos é fator determinante nos processos de propagação de quaisquer produtos, com o ônus ou o bônus que estes movimentos possam representar.             

  • “Pernambuco tem uma música que nenhum outro lugar tem”. A assertiva utilizada pelo jornalista José Teles não se pretende bairrista como a princípio possa parecer. Não é. Em “Do frevo ao manguebeat”, lançado pela editora 34, 367 páginas e orelhas assinadas pelo crítico Tarik de Souza, Teles desvela o histórico das manifestações estético-musicais de Pernambuco sem perder a perspectiva dos entrelaces desses movimentos com outros que ocorrem no país e no mundo.
    Embora o carnaval pernambucano se apresente como o fio que conduz o autor às explicações do maracatu e do frevo, a origem desses ritmos só faz sentido se entendida no contexto socioeconômico do então estado mais pujante do Nordeste nos anos 50, e sua capital, Recife. A outrora maior metrópole da região abrigou a primeira grande gravadora fora do eixo Rio-São Paulo. Pela iniciativa do empresário José Rozenblit a produção musical do estado encontra canais para acessar o sul maravilha.     
    A capoeira, o frevo, o maracatu e seus principais compositores e intérpretes. As guitarras de Alceu Valença e Robertinho do Recife eletrificando Capiba, relendo Luiz Gonzaga e a sacação cósmica de Zé Ramalho. Sim, as contribuições também vinham do estado vizinho, a Paraíba. E nada foge à porralouquice dos 70. Egressos do beatnik que assumem a sanfona em duetos com o heavy metal. 
    O resultado é o som que desemboca nos mangues de Recife e Olinda, onde as parabólicas captam o emergente rock Brasil e o punk inglês.
    É tudo trama. Centrífuga que forja o movimento manguebeat e a iniciativa do Abril pro Rock, evento que traz à cena nacional Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e outras bandas de Pernambuco. Rebuliço estético-político que também se manifesta no cinema e noutros campos da arte.
    É o punk-caranguejo afirmando raízes sem se deixar levar por nenhum tipo de preconceito com o que rola mundo afora. Os pés cravados na lama e as cabeças antenadas com Nova York e Londres.   
    O livro de José Teles é resultado de apurada pesquisa e não se limita apenas a explicar o contexto pop recifense. Vai além. O jornalista conhece bem a cena musical brazuca, embora ensaie algumas críticas desnecessárias a nomes da MPB. É leitura obrigatória àqueles que se interessam pela história da música brasileira. Vale conferir. 
  • A canabis | Foto: Alexodus/Flickr

    Lembrança viva da infância. 1972. Tacão do regime militar implacável. Conversas aos sussurros dentro de casa. Choro. O irmão de um parente paterno fora preso, não por estar militando numa organização clandestina. Era “desbundado”. Assim a esquerda ortodoxa e a direita taxavam os que preferiam pôr o bloco na rua de outro modo.
    “Os policiais o pegaram no Relógio de São Pedro fumando maconha”. A irmã relatava o sofrimento moral do rapaz com lágrimas nos olhos.
    Certa senhora presente àquele velório sui generis, angustiada, tentava consolar a amiga. “Tudo se resolve e haverá um meio de tirá-lo desse vício. Não ficará drogado a vida toda”.
    Vaticinara aquela que no futuro negociaria as córneas por uma receita azul prescrevendo Rivotril.
    O irmão do preso, que anos depois teve o fígado e outros órgãos comprometidos por excesso de álcool, arrotava moral pelos poros. “Hippie, maconheiro descarado, tinha que levar uma sova também!”
    Maconheiro. Chincheiro. Vagabundo. Não faltavam adjetivos aos apreciadores da cannabis sativa. Monstros mal vistos pela sociedade.
    Quarenta e dois anos se passaram desde aquele bizarro episódio.
    Não dá para dizer que muita coisa mudou, mas placas tectônicas que sustentam certos valores começam a se mover.
    Na América do Sul, o governo do ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica aprovou Lei que regula e estatiza o mercado da erva, liberando o plantio caseiro e o uso com normas. O objetivo, sustenta Mujica, é pôr fim ao narcotráfico.
    Os estados de Washington e Colorado, nos EUA, também aprovaram leis liberando a venda e o consumo. E a Casa Branca não pretende se intrometer na decisão dos outros estados do país.
    Na Europa, a Holanda já se antecipara há muito criando áreas para fumar. Em Portugal já não é crime plantar e usar maconha.
    No Brasil, ser pego pela polícia com uma quantidade pequena, destinada ao consumo pessoal, pode gerar três tipos de penas: advertência sobre os efeitos, prestação de serviços à comunidade e submissão a programas educativos. Todavia, tais sanções dependerão do humor do delegado, do juiz e do promotor.
    Nesta semana, a ONU levará documento à reunião em Viena admitindo que os objetivos na luta mundial contra as drogas não foram cumpridos. O organismo sugere, pela primeira vez, a descriminalização do consumo.
    Vai se fechando, aos poucos, o consenso de que o proibicionismo e a guerra às drogas é apenas um delírio moral que tem ceifado milhões de vidas e rendido muito dinheiro ao crime organizado e à corrupção policial e judicial.
    Se a maconha faz algum mal ao organismo? Sim, não sejamos hipócritas, embora infinitamente menos que o álcool, cigarro e outras drogas lícitas. As prateleiras das farmácias estão abarrotadas para o deleite de quem quer consumir analgésicos, ansiolíticos e afins.
    Na contramão, centenas de estudos também apontam benefícios do uso da maconha. Se a questão for entendida e debatida por este prisma, fica mais fácil compreender o problema, até mesmo para executar políticas públicas de saúde que auxiliem o controle do consumo e atendam, se for o caso, aos usuários.
    O que não dá mais é alimentar crenças milenares de que um dia a comunidade mundial encontrará a caneleta da boa conduta e excluirá o uso de drogas para todo e sempre.
    É bom acordar para realidade. Não há e nunca haverá “purificação” universal. Pura lenda.
    Registros indicam que o contato do homem com a maconha e outros alucinógenos ocorre há mais de 10 mil anos. E, ao que parece, permanecerá até que perdure a humanidade.
    É debate duro. A sociedade brasileira é bastante conservadora. Dificilmente projetos de lei propostos no parlamento, incluso o do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que descriminaliza e regulamenta o uso, serão aprovados nesta legislatura.
    Falta lucidez e racionalidade na discussão.
    Neste caso, é dever do Estado ocupar o espaço de protagonista na condução desse impasse.
    Às favas com a hipocrisia religiosa, cultural e social que só favorece o crime organizado. Lamentavelmente, enquanto escrevo este artigo muitos estão morrendo em decorrência de uma miopia social estúpida. Ilegal deve ser a violência cotidiana por conta de uma legislação atrasada. E careta.

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  • Ponto Final, do jornalista Mikal Gilmore, renomado crítico de música estadunidense, não se propõe avaliar conceitos e valores do turbilhão de eventos que ocorreu nas décadas de 60 e 70. Apenas os apresenta como um Forest Gump que transitou entre as celebridades. Para Gilmore, o legado do imaginário marcado por sexo, drogas e rock´n´roll não é dos melhores. Ele mesmo se confessa sobrevivente de uma era marcada por overdoses e devaneios com finais nem sempre felizes. E relata sem pruridos moralistas.
    O livro é uma coletânea de ensaios que permeiam histórias do beatnik, da contracultura e do movimento hippie. Trajetórias de personagens como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Timoty Leary, Jim Morisson, Bob Marley, Bob Dylan e bandas como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras, são reveladas em detalhes muitos deles desconhecidos por boa parte dos fãs.
    Contestação, rebeldia, radicalismo e, também, a beleza, o lúdico e a utopia. Sonhos e pesadelos se mesclam. Assim se dá a fulminante poesia Uivo, de Ginsberg; a associação de Leary, o psicólogo e papa do ácido, com o movimento Panteras Negras, de quem Gilmore ouviu os últimos relatos no leito de morte; o amor cantado por Marley e correspondido à bala por gangs de Kingston; o esoterismo presente em muitas das composições do Zeppelin. Fatos que o crítico detalha com o distanciamento necessário.
    O jornalista, atualmente editor da revista Rolling Stone, não se porta como fã. Longe disso. É observador das cenas expondo seus júbilos e infortúnios. E o faz com texto visceral, traduzindo o clima lisérgico, seja na Califórnia, Jamaica ou Inglaterra.
    Lançado no Brasil pela Companhia das Letras há alguns anos, o livro de Gilmore, 439 páginas, é leitura obrigatória àqueles que se interessam e pesquisam cultura pop. E antes de se pretender um veredicto para estancar um tempo de loucuras e comportamentos sem limites, se propõe a entender e retratar estes momentos. Mas não explicá-los. Até mesmo porque não há um ponto final nisso tudo, vide Axl Rose e Amy Winehouse.
     
  • O que esperar das redes sociais para as transformações políticas? Para Manuel Castells, a premissa é de que a mudança do ambiente comunicacional afeta diretamente as normas de construção de significado e, portanto, a produção de relação de poder. O sociólogo espanhol avalia que os levantes populares da Primavera Árabe, a Revolução das Panelas na Islândia, o Occupy Wall Street, a rebelião dos Indignados da Espanha e as chamadas Jornadas de Junho no Brasil decorreram, entre outros fatores, da emergência do que entende como “autocomunicação“. Guardando diferenças econômicas, políticas e sociais, Castells observa que estes levantes tiveram como característica comum duas situações: a existência concomitante de redes mediadas por computador e dispositivos móveis e ocupação de espaços públicos, fenômenos os quais classifica de “híbridos”. Em Redes de Indignação e Esperança – Movimentos sociais na era da internet (faça o download aqui), o pesquisador analisa estas mobilizações atentando ao fato de que fagulhas de insatisfações, em alguns aspectos, ganham potência a partir das redes sociais. Para ele, “sensação de empoderamento coletivo”. Tem autoridade para sustentar. Desde os anos 90 que o acadêmico já punha a lupa no surgimento da Sociedade em Rede, analisando suas interações, a contracultura, os movimentos urbanos e a questão das identidades. Neste trabalho, Castells observa que novas vias de mudança social estão sendo catapultadas pelo que entende como “capacidade autônoma de comunicar-se e organizar-se”, estratégias, segundo ele, que têm sido descobertas por uma nova geração de ativistas “para além do alcance dos métodos usuais de controle empresarial e político”. No caso da Espanha, um levante perpetrado a partir de pessoas que se interligaram com suportes de comunicação virtual e também offline, perfazendo rizomas de interação de grupos. As mobilizações na Tunísia e Islândia são dois marcos neste novo cenário. A despeito de observar traços de “expansão do não-capitalismo” no conjunto destas situações, com a emergência de culturas econômicas alternativas, o sociólogo acredita que o sistema capitalista não entrará em colapso por si mesmo. Os movimentos sociais em rede continuarão suas experiências de luta e debate, mas tendem a se dissolver “nas suas atuais condições de existência (…)”. Não é um balde de água fria nos entusiastas do ciberativismo. Castells é pragmático e não abdica da sociologia política para dar lugar ao sonhador hacker. Para ele, “(…) a única questão relevante para se avaliar o significado de um movimento social é a produtividade histórica e social de sua prática e seu efeito sobre os participantes como pessoas e sobre a sociedade que ele tentou transformar”. Traduzindo: ninguém pode pressupor, ainda e de fato, os efeitos que as novas tecnologias de comunicação podem operar nas sociedades no que confere às mudanças políticas de curto e médio prazos.
    Redes de Indignação e Esperança

    Zahar Editora, 2013


  • Acasos, destinos e amores que se trançam em meio a lembranças que unem passado e presente. Há filmes que são feitos para eternidade. Trem noturno para Lisboa, adaptação do livro do francês Pascal Mercier, é um deles.
    Um professor suíço, magistralmente interpretado por Jeremy Irons, é movido pela curiosidade quando se depara, em situação inusitada, com um livro-relato de um autor português. Lisboa é o seu destino. É lá que resolve desencavar episódios que o levam aos primeiros anos dos 70 em meio à ditadura de Salazar.
    Mais do que ilustrar a violência de um regime cruel e fascista, o filme do diretor dinamarquês Bille August discute relações humanas. Ser bom ou mal, amar e trair são posturas e sentimentos que passam à margem de posicionamentos políticos e ideológicos.
    O tempo se encarrega de explicar os destinos e escolhas dos personagens. A Revolução dos Cravos, em 1974, que libertou Portugal, também aprisiona ressentimentos e mágoas.
    A produção alemã de 2013, que traz também as participações de Charlotte Rampling, Bruno Ganz e a ponta luxuosa de Lena Olin, se pretende um filme político, sem, no entanto, se deixar levar pelo panfleto. Com narrativa sustentada por roteiro marcante, a película constata que no trem da vida o inesperado é que dá o leme do itinerário. É filme pra ver e rever.

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  • Acendeu a luz laranja. Talvez a vermelha. “O governo defende a neutralidade, mantém a sua posição, mas acredito que é possível superar alguns entraves com questões redacionais”. A afirmação é do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que acompanha pelo governo a tramitação do PL 2126/11, que dispõe sobre o Marco Civil da Internet. A fala de Cardozo deixa dúvidas se o Planalto resistirá, de fato, à pressão das operadoras de telefonia na legislação que determinará o funcionamento da web no Brasil.
    O relator do PL, Alessandro Molon (PT-RJ), manteve no texto original a neutralidade da rede. No entanto, o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), tem dado declarações manifestando atender os interesses da indústria da telecom. As operadoras de telefonia se opõem ao conceito de neutralidade conforme disposto no relatório de Molon. Entendem que limita seus negócios.
    O conceito de neutralidade previsto no PL determina que não se pode depreciar o acesso a um site ou determinado tipo de conteúdo. Ou seja, a aquisição por parte do consumidor de 10 megabytes, por exemplo, significa que ele não pode ter esta velocidade reduzida para acessar um site que não seja parceiro do provedor; ou mesmo ter de pagar mais para acessar um vídeo ou usar aplicações em streaming. O texto também deixa claro que a depreciação só poderá ocorrer por razões técnicas.
    As empresas da área temem que, caso aprovado na íntegra, o PL possa impedir a venda de pacotes com diferentes velocidades ou franquia de dados. A Vivo, Claro, TIM, GVT, Oi etc. pretendem pôr “cercas” na web, que passaria a funcionar à semelhança da TV paga. O usuário navegaria na net conforme o tipo de pacote adquirido. Esta seria a primeira camada do problema.
    A questão é, sobretudo, política. Esta é a segunda camada. As corporações da indústria da telecom intentam acessar os dados dos usuários para diversos fins. Vale lembrar que a bisbilhotagem internacional perpetrada pelos EUA e denunciada pelo ex-espião Edward Snowden teve o suporte logístico deste setor transnacional. E foi o fato que motivou a decisão da presidenta Dilma Rousseff em pedir a aceleração do PL no Congresso.
    Não se faz mais espionagem apenas com agências de Estado. Grupos de telecomunicações foram, e são, partícipes determinantes dos crimes cibernéticos praticados pela Casa Branca.
    Controle político e mercado se imbricam. Internautas têm sido presas fáceis neste enredo. Seus dados viram mercadoria para o Facebook, Google e outros parceiros dos panópticos sistemas de observação mundial. O ciberativista estadunidense Eli Parriser apontou o problema em seu trabalho O filtro invisível (leia aqui a resenha).
    Parriser sustenta que a economia da atenção tem imposto à web uma espécie de mais do mesmo a milhões de usuários. E este quadro pode piorar consideravelmente caso as corporações de telefonia retalhem a rede em “fazendinhas” para os usuários-clientes. É quebrar com o ideário da Internet como galáxia de informação e de livre busca de conteúdos. Estratégia que também atinge em cheio a produção e difusão de plataformas e softwares livres, uma vez que os pacotes tecnológicos certamente virão amarrados às tecnologias associadas e difundidas pelas operadoras.                                         
    Bom lembrar que durante o levante da população do Egito contra o ditador Hosni Mubarak, o mesmo Facebook acionado como plataforma para arregimentação de ativistas serviu também ao monitoramento do levante por parte do serviço secreto estadunidense.   
    “A vigilância patrocinada pelo Estado é de fato um grande problema, que põe em risco a própria estrutura de todas as democracias e seu funcionamento, mas também há a vigilância privada e a potencial coleta de dados em massa por parte do setor privado. Basta dar uma olhada no Google. Se você for um usuário-padrão, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, o que está pesquisando e, possivelmente, sua preferência sexual, sua religião e suas crenças filosóficas”.
    O alerta do O ciberativista Jérémie Zimmermann está no livro Cypherpunks: a liberdade e o futuro da Internet, de Julian Assange, editor-chefe do site WikiLeaks (leia aqui a resenha).
    A denúncia de Zimmermann corrobora com a luta em curso no Brasil, como de resto no mundo, acerca do futuro da Internet. Os interesses escusos das operadoras de telefonia no país integram-se, portanto, a uma disputa de ordem global. O lobby montado no Congresso Nacional para pôr fim à neutralidade na web não está dissociado desse projeto maior, que une estratégias econômicas e políticas num só pacote.
    A Internet ainda representa a última fronteira da mídia não garroteada, na sua lógica de funcionamento, pelo neoliberalismo e seus desmembramentos políticos. A liberdade de atuação na web sem censura do Estado e de corporações de mídia é o que tem garantido canais de manifestação e voz a inúmeros segmentos da sociedade. Antes da Internet não tinham por onde escoar conteúdos produzidos fora dos filtros das corporações de mídia.  
    A ciberguerra que se põe em curso é que norteará a consolidação ou não da radicalização da democracia, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. E a aprovação do Marco Civil contemplando a neutralidade é o nó górdio dessa disputa na seara brasileira, que terá expressivo impacto no roundinternacional.     

  • Maria Lucia: “Cerca de 4 mil pessoas vivem nas ruas em Salvador”
    Estima-se que em Salvador cerca de 4 mil pessoas vivem nas ruas. Cidadãos que são alvo diário de toda sorte de violências. Quem informa é Maria Lucia Santos Pereira da Silva, membro da Coordenação Nacional do Movimento da População de Rua (MNPR). Segundo ela, o déficit habitacional no Brasil é de 23 milhões de residências. Maria Lucia, que concedeu entrevista exclusiva ao blog Textos ao Vento, aproveitou para fazer a seguinte denúncia: “À época da Copa das Confederações, em junho deste ano, 600 pessoas foram retiradas das ruas de Salvador e alojadas de forma desumana no prédio onde funcionava o Hospital Ana Néri, na Lapinha. A ação foi feita por uma entidade de nome Federação Brasileira de Direitos Humanos, mas sabemos que é a Prefeitura que está por trás desta iniciativa. O Ministério Público está apurando o caso”. A conversa foi intermediada pelo jornalista e ciberativsita Antonio Nelson, que desenvolve intenso trabalho de colaboração com este canal de informação.
    Textos ao Vento – Como se articula o Movimento Nacional da População de Rua, há quanto tempo existe e em quantas cidades atua no Brasil?

    Maria Lucia – O Movimento Nacional da População de Rua existe desde 2004 e estamos no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Paraná, Salvador, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Fortaleza. Estamos participando de diversos seminários e articulações em outros estados e municípios para identificar lideranças e fortalecer o movimento

    TV – Em Salvador, qual a plataforma de luta do MNPR? Quais as reivindicações mais urgentes?

    ML – A inclusão da População em Situação de Rua nas politicas públicas, a adesão dos estados e municípios ao Decreto 7053/2009. A nossa reinvindicação mais urgente são a implantação dos equipamentos do Município. Exemplo: casas de acolhimento, consultórios na rua, casa de cuidados e, principalmente, a não higienização, ou seja, o recolhimento por jatos d’água e abordagens truculentas

    TV – E já ocorreu alguma atitude higienista violenta de recolhimento de moradores de rua em Salvador?

    ML – Sim. Temos a questão de 600 pessoas que foram retiradas das ruas e colocadas no prédio onde era o Hospital Ana Néri, na Lapinha. Ação foi feita por uma entidade de nome Federação Brasileira de Direitos Humanos, mas nós sabemos que é a Prefeitura de Salvador que está por detrás disso. Puseram centenas de pessoas para se abrigarem em condições desumanas. O Ministério Público está apurando o caso. Essas pessoas foram retiradas das ruas à época da Copa das Confederações.

    TV – O MNPR calcula quantas pessoas vivem nas ruas no Brasil e, especificamente, em Salvador?

    ML – Infelizmente, a população em situação de rua não consta dentro da estatística do IBGE, estamos a nível nacional discutindo com o IBGE o censo da População em Situação de Rua. No próximo ano teremos pesquisas pilotos no Recife e no Rio de Janeiro. Tivemos em 2008/2009 uma contagem feita pelo Ministério da Assistência Social onde contabilizaram em 71 municípios 50.000 moradores em situação de rua – que sabemos que é muito mais – e que contou aqui em Salvador perto de 4.000 pessoas.

    TV – Como sobrevive um morador de rua?

    ML – Você falou certo. Nós sobrevivemos nas ruas, é muito difícil pois existe um preconceito muito grande, diversas violações de direitos, falta de equipamentos dignos e, principalmente, a falta de uma intersetorialidade por parte das diversas Politicas Públicas. Existe também a falta de desejo político. Infelizmente as pessoas imaginam que a População em Situação de Rua se encontra nessa situação por desejo, como se fosse normal as pessoas desejarem estar nas ruas, no frio, no abandono, sofrendo assassinatos, espancamentos, sendo acordados com violência e truculência. Somos frutos e filhos de um sistema capitalista injusto e desumano.

    TV – Há entidades ou poder público que atendam esse morador?

    ML – Sim, temos as Defensorias Publicas, os Ministérios Públicos, o Disk 100, o Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis e seus Núcleos Estaduais Têm as Sedes do Movimento em diversos Estados, temos a Rede Rua, a Pastoral Nacional do Povo de Rua e diversos outras entidades.

    TV – Como tem sido a relação do MNPR com a atual gestão da Prefeitura de Salvador?

    ML – Infelizmente não conseguimos avançar em quase nada, apenas na política municipal, que foi preparada na outra gestão e assinada nessa. Conseguimos o Comitê de Acompanhamento da Politicas que ainda não se reuniu. Precisamos realmente tirar as políticas do papel e fazer acontecer. Temos tido diversas denúncias de violação de direitos, espancamentos, assassinatos, preconceito, não somente aqui em Salvador mais em diversos municípios da Bahia.

    TV – O MNPR se articula com outros movimentos sociais? Quais?

    Sim, com o Movimento Nacional do Catadores de Materiais Recicláveis, Movimento de Moradia, LGBT, Movimentos voltados para os Direitos Humanos, Movimento Sem Teto, entre outros.

    TV – Qual o déficit de moradia hoje em Salvador e no Brasil?

    Existem estudos que relatam em torno 23 milhões no Brasil. Porém, nós vemos tantos prédios abandonados que poderiam ser moradias de interesse social. Para mim, além do déficit existente, se tivessem pessoas que realmente fossem comprometidas poderíamos não acabar com a falta de habitação, mais reduziríamos em muito a desigualdade.

    TV – Quais as conquistas do MNPR nos últimos anos?

    ML – Foram muitas. O Decreto 7053, que é a Politica Nacional da População de Rua, o Comitê Interministerial de Acompanhamento e Monitoramento das Politicas, diversos decretos e portarias, a visibilidade do fenômeno da População em situação de rua, tema que anos atrás era tabu se falar. Conquistamos diversos espaços de controle social, somos titulares do Conselho Nacional de Assistência Social, Suplentes do Conselho Nacional da Saúde, participamos de diversos conselhos estaduais e municipais. Temos anualmente, desde o ex-presidente Lula, um encontro presidencial em dezembro. Estamos nos capacitando cada vez mais para lutarmos por nossos direitos. Realizamos em 2010 o I Congresso Nacional do Movimento da População de Rua e realizaremos o II em março de 2014. Conseguimos o Programa Bahia Acolhe e várias outras conquistas.

    TV – Como é a atuação do MNPR nas redes sociais?

    ML – Procuramos nos manter bastante atualizados e informados. Diversos de nós têm páginas nas redes sociais, quando algum estado está em dificuldade é a forma mais rápida de nos mobilizarmos. Temos blogs, cada vez mais encontramos pessoas dispostas nas redes a nos ajudarem e serem solidários a nossa causa. Aqueles companheiros que não acessam a internet procuramos incentivá-los e ajudá-los.