Nunca gostei de ciências exatas. Odiava Matemática, Física e afins. Verdadeiras pedras nos meus sapatos colegiais, desde tenra infância. Não suportava a ideia de ter que aprender o que no íntimo sabia não fazer parte do meu futuro. Passei o ginásio e o científico questionando professores e meus pais do porquê das sessões de tortura diária na forma de tarefas de casa recheadas de contas e cálculos. Sobretudo quando invadiam meu sagrado final de semana. Não, não era um relapso e empedernido vagal. Amava História, Literatura, Geografia, Redação e transitava de forma razoável pela Biologia, conhecimento que imaginava fronteiriço entre o prazer e a tortura de estudar. E não adiantava estrilar com o mundo adulto para sustentar meus argumentos. Era tábula rasa, ou passava naqueles entulhos de conteúdos sem sabor, ou perderia o ano. O jeito era encarar, mesmo quando um livro de Júlio Verne fosse muito mais convidativo do que a resolução de uma equação do segundo grau. Nos papos e conversas com aqueles que se prontificavam a entender e levar a sério minhas angústias de adolescente, um e outro mencionavam que um dia não muito distante existira o curso clássico para os vocacionados às humanidades, letras e artes. Mas a má notícia é que os milicos haviam acabado com essa chancela para pôr o rebanho numa mesma sala. O “método” era “aprender” um pouquinho de tudo. Lembro que no dia que recebi essa informação, de que vetaram a possibilidade de eu estudar apenas o que me daria prazer, me revoltei contra os militares. Minha formação ideológica começou neste momento. O tempo passou e consegui me libertar daquela nojeira numérica. Estudei Sociologia, Comunicação, fiz mestrado em História Social e daquilo tudo só restaram os traumas. Fui obrigado a estudar tanta coisa e me faltaram tantas outras. Não estudei Filosofia no segundo-grau, por exemplo. Platão e Marx não seriam muito mais empolgantes pra mim do que um árido cálculo de ângulo? Também descobri que mentiram muito com o papo de que as disciplinas exatas um dia teriam serventia. No meu caso, não era e nunca foi verdade. Tudo que me massificaram em nada hoje me auxilia na vida profissional. Foi um engodo. Mas o drama permanece e agora se manifesta em meu filho, Davi, de 13 anos. Muitos acharão improdutivo e antipedagógico o fato de um pai estar apoiando o libelo de um filho que detesta Matemática. Não posso ser hipócrita, sobretudo com meu filho. E aproveito sua inquietação para revolver angústias recônditas. Até quando Zecas e Davis serão alvos de um sistema educacional tão cretino? O que falta para uma reforma séria que entenda e respeite as inclinações vocacionais das pessoas a partir do ensino médio? Tudo bem, se é para o estudante ter noções de todas as áreas, que o façam durante o ensino fundamental com métodos arejados, interessantes, construtivos e convidativos, sem precisar se aprofundar. Àqueles vocacionados às exatas, alguns itens gerais de humanas, letras e biomédicas, apenas; àqueles inclinados às humanas, conteúdos rápidos de exatas e biomédicas passados de forma lúdica; o mesmo valendo para os que gostam de biomédicas. De resto, no ensino médio uma preparação sólida e abrangente já contemplando as inclinações. Um futuro advogado ou sociólogo ganha mais se aprofundando em filosofia e ciência política, não é mesmo? Sim, sei que uma reforma desse naipe abalaria a indústria da educação privada, a mais interessada em manter as massificações de conteúdos por questões financeiras. Mudar significa perder lucros, e isso os tubarões do ensino mão aceitam de bom grado. Noves fora, a despeito dessas pressões em contrário, é preciso encarar esse debate e fazer com que as coisas mudem. Estudar tem que ser prazeroso e não torturante. E eu quero ver meu filho tendo prazer de estudar.

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