Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • O falecido ex-senador Antônio Carlos Magalhães e o candidato derrotado ao Senado nas últimas eleições, o ex-deputado federal José Carlos Aleluia, ambos do DEM da Bahia, foram, até o momento, os dois últimos personagens brasileiros a figurarem no WikiLeaks. O site do jornalista australiano Julian Assange informa que os políticos baianos tiveram encontros com um representante da embaixada dos EUA à época da campanha à Presidência de 2006. 
    Segundo nota veiculada pelo jornalista Levi Vasconcelos no jornal A Tarde, na conversa com o diplomata Aleluia se mostrou frustrado com a iminente vitória de Lula naquele ano, enquanto que ACM previa dificuldades para o presidente porque ele teria minoria no Senado.
    Mais: no diálogo, ACM disse ao norte-americano que “a oposição pode ter perdido uma oportunidade de impeachmar Lula em seu primeiro mandato, mas tentará no segundo”. A prestação de contas dos dois udenistas ao funcionário dos EUA não revela nada de extraordinário, mas confirma a inclinação golpista de ambos. Registre-se que ACM foi ativo colaborador do Golpe de 1964 e um dos principais políticos de sustentação do regime; enquanto que Aleluia sempre foi ardoroso defensor de teses privatizantes e neoliberais. 
    Em diversas oportunidades o ex-presidente Lula declarou que entre os anos de 2004 e 2005 pressentiu a proximidade de um golpe de estado. Ele falava a verdade. A crise do mensalão seria a brecha que ACM e cia utilizariam para destituir o então presidente. 
    A pergunta: quem garante que o Departamento de Estado dos EUA não tivesse monitorando tais movimentações? Claro, esta é uma hipótese e sua confirmação depende de investigações mais consistentes. No entanto, a possibilidade de “tentar no segundo (mandato)” o impechament do presidente revela um ACM disposto a desestabilizar as instituições políticas para apear Lula do poder. Verifica-se um ACM idêntico ao que conspirou com a quartelada de primeiro de abril de 1964. 
    Já Aleluia, é razoável pensar como integrante da entourage golpista. Estas informações vazadas pelo WikiLeaks não devem passar despercebidas. É importante que se esclareça até onde se estendiam as relações de ACM e Aleluia com a diplomacia norte-americana  e qual o nível de sabujice de ambos na conspirata de interesses contrários aos do país.
  •  Em dezembro próximo se comemora o centenário de um dos maiores patriotas que o Brasil já conheceu, Carlos Marighella. Vamos lhe render justa homenagem com um monumento na Avenida Paralela, aqui em Salvador. É o que propõe este blog.
    Político, líder revolucionário, poeta, humanista e aguerrido combatente pela liberdade, Marighella nasceu em Salvador no dia 15 de dezembro de 1911. Filho de operário imigrante italiano e uma descendente de escravos sudaneses haussá, o ex-militante do Partido Comunista do Brasil – o então PCB – combateu tenazmente os regimes de força que se instalaram no país. Nos anos 30 e 40 lutou contra o Estado Novo de Vargas, quando foi preso e torturado diversas vezes. Com a redemocratização, em 1946, se elegeu deputado federal pelo PCB.
    Posteriormente, enfrentou o golpe de 1964 e a ditadura, já como militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Marighella foi assassinado na noite de 4 de novembro de 1969, surpreendido por uma emboscada dos agentes do DOPS, na alameda Casa Branca, em São Paulo. A ação foi coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, que se notabilizou como um sádico torturador.
     O que este blog está propondo é um maior reconhecimento, sobretudo oficial, a este grande brasileiro. Lançamos aqui a sugestão de que um monumento a Carlos Marighella deva ser erguido em Salvador, e de preferência no lugar onde hoje se encontra o Monumento a Luis Eduardo Magalhães.
    Entendemos que homenagens devem ser feitas a heróis de verdade e não a um playboy, filho de um tiranete de província como Antônio Carlos Magalhães, déspota aliado da ditadura militar. Já não basta a excrescência do Aeroporto Dois de Julho ter sido rebatizado com o  nome do filho de ACM. Derrube-se o culto à personalidade ao carlismo e erga-se um monumento simbólico a um verdadeiro herói da Bahia, Carlos Marighella!
  • Bye bye Mubarak


    Bye Bye Mubarak from Ramy Rizkallah on Vimeo.

    Vídeo do cineasta egípcio Ramy Rizkallah sobre a celebração nas ruas do Cairo em torno da queda de Mubarak. Fonte: El Pais.

  • O jornal Folha de São Paulo adjetivou a ditadura militar no Brasil de “ditabranda”. Durante a última campanha presidencial, o Plano Nacional de Direitos Humanos III foi violentamente atacado pelas oposições, sobretudo as de tendência fascista que se encontravam ombradas à candidatura de José Serra. Vejam este documentário, produzido em 1971 com exilados brasileiros, e tirem suas próprias conclusões.    
  • Reproduzo artigo de Ignacio Ramonet, publicado no sítio Carta Maior:

    Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.
    Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?
    “Não havíamos apreciado em sua justa medida…” Em 23 anos…Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país…Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência…) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio…Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação… Democracia ruinosa…
    Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.
    Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.
    Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).
    Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.
    A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.
    Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.
    Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.
    No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).
    Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

    NOTAS

    (1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher “La société tunisienne privée de parole” e de Ignacio Ramonet “Main de fer en Tunisie”, Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente.
    (2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.
    (3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.
    (5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843.
    (6) Ler Ignacio Ramonet, “La poudrière Maroc”, Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111
    (7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.
    (8) El País, 30 de janeiro de 2011- http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat
    (9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011 http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, “Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise”, Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret…188096http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

    Tradução: Marco Aurélio Weissheimer.

  • Um alô para José Antar

    Novamente provocado pelo pitoniso José Antar, aquele que “previu” em abril passado as vitórias “estrondantes” de José Serra e Paulo Souto, sinto-me no dever de pôr alguns pontos nos “is” soltos à sarjeta, lançados pelo digníssimo amigo. Revoltado com a corrupção no Brasil, bem ao estilo Carlos Lacerda, Antar utilizou como exemplo do delito o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “São uns corruptos que só querem invadir as terras dos outros”. E ao segundo plano foram jogadas situações bem mais convincentes. Ou seria a memória seletivíssima do nosso amigo responsável por ofuscar tais lembretes? Será? Talvez sua leitura assídua da Revista Veja, maior baluarte editorial da extrema-direita tupiniquim, não o ajude avivar as idéias, talvez empastá-las, apenas. Mas é o MST o bode expiatório do nosso “bem informado” Antar, que vez em quando fica com vontade de reeditar a Marcha com Deus, pela Família e a Propriedade. Segundo ele, o movimento sem-terra “só invade terras produtivas”. Outra vez pergunto, será? Aos fatos. Num meio rural marcado pelo recente processo escravocrata – sociogênese da brutal violência e origem da grande propriedade privada da terra no Brasil – 60% dos imóveis rurais não possuem titulação de fato. A prática é cercar a terra e começar (ou não) a produzir para depois se anunciar como dono. Muitos proprietários fazem contratos de compra e venda não reconhecidos em cartórios e, por vezes, estão ocupando terras da União. Este é o caso da Cutrale, a empresa situada no noroeste paulista que Antar apontou como “vítima” de uma invasão. Outra quimera defendida pelo nobre “debatedor” é quanto à produtividade. É preciso lembrar que se somar toda a área com plantio agrícola ela não chega a 70 milhões de hectares. O Brasil tem 850 milhões de hectares! Na Amazônia, por exemplo, há o caso de uma pessoa que é proprietária de cinco milhões de hectares. É pouco? Então, quem invadiu quem, Antar? São os movimentos sociais ou a ação historicamente comprovada da grilagem armada e corrupta? Certo, tudo bem, nas páginas amarelas da Veja não há matérias falando disso, ok. Mas para quem se informa apenas numa fonte…Os movimentos sociais nascem desta contradição, nobre Antar. Talvez o que o amigo não saiba é fazer um bom arrazoado histórico do próprio processo de colonização do país onde vive. Quando se afirma algo tem que se balizar a fonte pesquisada, lógico. E é assim que se deve proceder: apurando, pesquisando, lendo e, finalmente, conhecendo a realidade. Aliás, esta era uma iniciativa preconizada por aqueles filósofos do século XVIII, os enciclopedistas, ou iluministas, entre eles Rousseau, Voltaire, Diderot etc. Eles achavam que se as pessoas conhecessem, de fato, a realidade os problemas ficariam mais fáceis de serem resolvidos na sociedade. Mas sabiam também que as ideologias dominantes usariam de subterfúgios para esconder esta mesma realidade, como Karl Marx comprovou posteriormente. Seria este o caso, Antar? Por isso as ilações e os gritos bafejados na mesa? Ficam as perguntas. No próximo comentário, falo sobre o Regime Militar e as torturas, outro tema que o amigo desconhece, mas teima em discutir a partir das próprias concepções, ou aquelas tiradas pelos vaticínios da famiglia Civita, dona da Veja, o manual que orna a cabeceira do grande José Antar.
  • Radical. Assim fui taxado pelo amigo Fernando Souza durante mesas drinqueiras da passagem do ano. Radical por que, Fernando? Aqui estou eu a meditar com meus translúcidos botões. Da palavra não se pode, e não se deve, denotar preconceitos ou sentidos senão aqueles que de fato o termo remeta. Ou mereça. Radical vem de raiz, que é radical da mesma palavra. Mas serve também como significado para significantes diversos. O menu é vasto. No meu caso, por conotação ideológica, penso. Tá bom, então eu sou radical e sua posição é destendida, flexível e capaz de absorver vasta gama de idéias, certo Fernando? Ok. Há, sim, também fui rotulado de “stalinista” pelo mesmo interlocutor, portanto sou um “stalinista radical”. Não é isso mesmo, Fernando?
    Aos fatos. O que me impressiona sobremaneira nas argumentações do meu amigo é a possibilidade do rótulo a mim imputado servir muito mais àquele que me imputa. Explico. Um dos pomos da discórdia é o fato do caríssimo Fernando martelar teclas tão antigas quanto à passagem da Guerra Fria. O georgiano Josef Vissarionovitch Stalin morreu em março de 1953 e realmente fora perpetrador de um regime assassino, o que não é negado por ninguém, nem tão pouco por pensadores de esquerda que a este se opuseram tenazmente. A lista é vasta, a começar por Trotsky, incluindo também Lucaks, Marcuse, Walter Benjamin, Gramsci, Theodor Adorno e tantos e tantos. Mas para saber desses intercursos da história é preciso conhecê-la, o que acho ser uma grande lacuna do caro Fernando.
    Não, Fernando, não sou stalinista. Nunca fui, saiba. Ao contrário, sempre cultivei sentimentos libertários e que extrapolam linhas de condutas ideológicas. E ajo assim pelo fato de buscar entender a história como processo, mantendo distância de paixões. Não sou monge e a mim não cabem camisas-de-força discursivas ou partidarizadas. No entanto, sempre procurei ser coerente com minhas inclinações existenciais e políticas. Coerência é importante, viu Fernando? Se deixar levar por ladainhas orquestradas pelas famíglias Civita, Marinho, Mesquita, Frias e outras pode ser danoso ao raciocínio.
    Sabe, Fernando, quando vi a campanha do seu candidato José Serra fazer aliança com a Opus Dei, TFP, grupos fascistas e sites nazistas passei a pensar o que seria, de fato, radicalismo. Foi um debate tão “suave”, não foi? Enquanto Mônica Serra afirmava que Dilma Rousseff “mataria criancinhas”, bispos católicos e pastores fundamentalistas reeditavam em 2010 a marcha de Deus com a família e pela propriedade. Saudades da quartelada de 1964? Talvez. E, friso, era tudo tão “suave”, não é mesmo? Aqueles discursos homofóbicos, a reunião com os milicos de pijama no Clube das Forças Armadas, no Rio, a vociferação contra a união civil de pessoas do mesmo sexo, o ódio contra os sem-terra e os sem-teto, a hipocrisia com o tema do aborto, e, depois das eleições, o preconceito contra os nordestinos. Que bela campanha “light”, hein Fernando? Chego a imaginar que Torquemada, aquele inquisidor espanhol que queimou milhares na fogueira, tenha virado fichinha junto à entourage de Serra.
    E você, hein Fernando, que tanto argumenta sobre a aliança com Sarney, já pensou como ficariam as florestas e o meio rural do Brasil sob a batuta de Kátia Abreu, a ruralista escravocrata aliada de Serra? E quantos aquilatados “democratas” marcharam com seu candidato? Creio que vários, não é mesmo? Indio da Costa então, que belo e invejável exemplar de democrata!
    Sabe qual o problema da informação, Fernando? É que quando não é bem feita e dosada ela passa a ser deformação. A propósito, sobre isso me lembro de um dos últimos pronunciamentos de um brilhante escritor o qual você lia na paradisíaca Praia do Guaibim, José Saramago. Comunista histórico, não stalinista, Saramago mostrava-se bastante inquieto com a desinformação das pessoas neste alvorecer do século XXI, momento que ele taxou de “traição do iluminismo”. Para o escritor, o bombardeio midiático intermitente sob o controle das corporações estava levando substantivas parcelas da população a pensar e agir conforme seus padrões ideológicos. Será? Ou você passou a aprender diferente com Saramago? Tomara.
  • “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”. Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.
    Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.
    Os documentos revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.
    “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.
    Partilha
    Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.
    O telegrama de  27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um “anátema” pela indústria.
    É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo “donas” do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.
    Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre  a compra  de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.
    A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso “político” do modelo.
    Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.
    Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia,  chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: “O PMDB precisa da sua própria empresa”.
    Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.
    Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo. “As regras sempre podem mudar depois”, teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.
    Combatendo a lei
    Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.
    O telegrama intitulado “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?” detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.
    Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.
    Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: “O PSDB não apareceu neste debate”.
    Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava “senso de urgência”. “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, teria dito o pré-candidato.
    O jeito, segundo Padral, era se resignar. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.
    “Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro”, conclui o telegrama do consulado.
    Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).
    “Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um ‘marcação cerrada’ no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby”.
    Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.
    “As empresas vão ter que ser cuidadosas”, conclui o documento. “Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa”.
  • Ícones populares estampam camisetas, bandeiras, cartazes e cristalizam-se no imaginário social como totens intocáveis. Quando não, ombram-se à condição de sagrados. Defeitos e fraquezas quase sempre ficam sepultos ante a ode às mitificações. E poucos assumem a própria desconstrução da imagem para se apresentar com suas virtudes, vícios, dramas e opiniões sobre fatos singelos ou de grande monta. É o que parece propor Rolihlhala Mandela, ou Nelson Mandela, líder maior da luta contra o regime racista (apartheid) da África do Sul e ex-presidente do país, ao publicar sua autobigrafia Conversas que tive comigo.
    Prefaciado pelo presidente norte-americano Barack Obama, o livro, de 415 páginas, lançado no Brasil pela editora Rocco, reúne cartas, comentários, diálogos e entrevistas de Mandela com companheiros de militância contra o apartheid. Os documentos revelam situações vivenciadas pelo líder do Congreso Nacional Africano (CNA) ao longo dos 27 anos de cárcere, desde que foi detido em 1962 sob a acusação de alta traição.
    É difícil acreditar num Nelson Mandela que se define como “homem medíocre”, como procura fazer crer em correspondência a uma companheira, em 1971. É o momento de abatimento. Sente-se impotente diante da grande tarefa histórica que o convoca. Sete anos se passaram desde que fora condenado à prisão perpétua e enviado à Ilha de Robben para cumprir a pena. A situação lhe era desfavorável.
    O desabafo, no entanto, apresenta-se como uma névoa que aos poucos vai se dissipando. Os depoimentos descortinam um homem decidido e que encara com firmeza as agruras de um sistema político covarde e assassino.  Entre as narrativas que permeiam a obra, destacam-se conversas e entrevistas com o editor Richard Stengel e o companheiro de prisão Ahmed Kathrada. Os relatos expõem os vários enfrentamentos que se interpuseram à trajetória do líder.
    A adesão à luta armada, por exemplo, é justificada como necessidade histórica de reação à violência institucionalizada pela supremacia branca nos campos político e militar. “Eles (o povo sul-africano) precisavam saber porque iriam pegar em armas e lutar (…) revolução não era só uma questão de puxar o gatilho e atirar – era uma organização montada para tomar o poder político. Isso foi bem definido”. Mandela refere-se à fundação do MK, a Umkhonto we Siswe (lança de uma nação), braço armado do Congresso Nacional Africano do qual foi um dos propositores.
    Pegar ou não em armas, no entanto, não se constituia em questão central da luta política que travava. Mandela sabia negociar. Para ele, mais importante “era fazer ranger e se mover a roda da história”, a ponto de não se sentir desconfortável em rever posições sobre nacionalizações. “Tínhamos que dissipar temores da comunidade internacional”, justifica, com a mesma habilidade que montou poderosa artilharia de propaganda política para desestabilizar o governo sul-africano.                                       
    Outros embates não foram menos dolorosos. Ser pai a distância e preso atormentava um chefe de família cônscio das suas obrigações. Em 1969, quando sua segunda mulher, Winie Mandela, foi colocada na solitária por 17 meses sob a acusação de atividades subversivas, ele escreveu às filhas Zeni e Zindzi, à época com nove e oito anos, respectivamente. “Mais uma vez sua querida mãe foi presa e agora ela e papai estão na cadeia (…) vinte e quatro horas por dia sentindo a falta de suas filhinhas. Meses e até mesmo anos poderão se passar até que vocês a vejam de novo. Vocês poderão viver muitos anos como órfãs sem lar e sem pais”.
    O tom meigo e ao mesmo tempo duro com que apresenta a realidade às filhas não denota conformismo. Ao contrário, o faz como uma espécie de vacina psicológica para fortalecê-las diante das adversidades que acompanharão suas vidas até a fase adulta. O mesmo ocorre quando é informado da morte do filho mais velho, Thembekile, de 24 anos, vitimado por um acidente de carro. O governo sul-africano lhe negara autorização para estar presente no enterro. Mandela procura não só consolar-se, como à mãe do rapaz, Evelyn, sua primeira mulher: “Sei mais que qualquer pessoa viva o quanto este golpe cruel deve ter sido devastador para você, pois Thembi era seu primeiro filho (…) O golpe foi igualmente doloroso para mim (…) e nunca mais iremos vê-lo”.
    Não é que Nelson Mandela procure abafar seus sentimentos com doses demasiadas de racionalidade, como muitas cartas deixam transparecer. O que se percebe é um homem politicamente engajado e que entende a luta de libertação do seu povo como causa prioritária.
    Em certo momento, instigado por Stengel sobre a paixão por Winnie Mandela e a possibilidade de ela o trair enquanto se encontrava encarcerado, ele é enfático: “essas questões para mim não eram materiais e era preciso aceitar o fato humano, a realidade de que há ocasiões em que uma pessoa quer relaxar e não se deve ser inquisitivo”.
    Ser racional, portanto, é uma estratégia à sobrevivencia emocional. Sublimar inseguranças faz parte.
    Diante de tantos infortúnios, o saldo dos relatos não desenha um homem pautado pelo rancor. Ao contrário. Já liberto, é o próprio Nelson Mandela que sugere a Ahmed Kathrada “comer um churrasco” com antigos carcereiros, a quem alguns deles o líder sul-africano devota respeito e admiração.
    Não se trata de incoerência. Mandela tinha clara noção do que era o cumprimento do dever com balizas na ética. Ao se referir a um certo policial de nome Kruger, por exemplo, ele afirma querer revê-lo, pois o tinha como um “homem muito decente”. 
    Conversas que tive Comigo é uma colcha de retalhos que, em boa medida, resume a trajetória política e pessoal de Nelson Mandela. Os textos emolduram um homem singular, capaz de limpar o vaso sanitário de um companheiro que não conseguia fazê-lo porque tinha nojo. “Isso não significava nada para mim”, confessa o líder que doou a vida para limpar uma das maiores excrecências do planeta, o apartheid.
  • Momento histórico. Presidente Lula recebe blogueiros para entrevista coletiva no Palácio do Planalto.