Textos ao Vento

trajetória de (re)existência

  • O Senhor da Guerra chega na próxima quinta-feira com um esquema de segurança envolvendo mais de 300 agentes norte-americanos e policiais militares, civis e federais do Brasil. Bush Jr. vem trazendo até água mineral dos EUA e tudo que ele e sua comitiva consumirão. Na agenda do encontro com o presidente Lula, o manda-chuva do mundo pleiteará a tecnologia do biodiesel mas não aceitará negociar o fim dos subsídios aos produtos norte-americanos assim como a taxação dos produtos brasileiros de exportação. Para ele, o que importa é apenas o “destino manifesto” dos EUA, o qual, pensam os norte-americanos, referenda a hegemonia mundial estadunidense de domínio absoluto. Protestos estão marcados em São Paulo, onde ele desembarca, e Brasília.
  • O debate acerca de uma séria questão começa a ganhar claridade e racionalidade no país. No decorrer da semana o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), levantou a proposta da descriminalização das drogas como forma de desarticular o narcotráfico. Em diversos países do mundo essa medida já é realidade e aqui no Brasil o problema ainda vive sob o manto da hipocrisia e do falso moralismo. Enquanto isso, a indústria da morte perpetrada pelo crime organizado continua a atuar mutilando vidas e ameaçando milhares de comunidades pobres país afora. É nas favelas e periferias das grandes cidades que o narcotráfico infiltra-se, desenvolve sua indústria, impõe seu poder e organiza seus centros de distribuição para abastecer o consumo das classes médias e altas. É nessas comunidades também que a polícia invade, assassina inocentes e, junto com os bandidos, impõe o medo às populações. Nesse enredo, tudo pode ocorrer. O marginal visto como mocinho pela população e policiais, delegados e juízes, transvestidos de lei, atuando como marginais em consórcio com o crime. A proibição das drogas gera lucros para muitos. É chegado o momento de encarar o problema de frente.
    A sugestão de Cabral traduz o que um expressivo contingente de profissionais que debatem a questão há anos vem buscando alertar: a droga ilícita é um problema de ordem psicológica, social e de saúde pública, assim como as drogas lícitas, a exemplo do álcool, açúcar, medicamentos vendidos em farmácia etc. Tais situações não podem ser enquadradas como problema policial. O cretinismo, o cinismo e o preconceito das classes dominantes no Brasil, assim como em outros países, é que levaram a entender o consumo de drogas como delito de lesa-moral. Proibiram-nas e permitiram o surgimento de uma sociedade convulsionada, doente.
    Peguemos o exemplo da maconha, cujo nome científico é Canabis Sativa e a substância psicoativa o Tetrahidrocanabinol. Esta tem seus primeiros indícios de uso há mais de cinco mil anos, quando povos como os chineses e persas a utilizavam como incenso em cerimônias religiosas. Era também usada com fins medicinais, o que perdurou até o início do século XX. No Brasil, a droga foi trazida pelos escravos vindos da África que faziam uso em diversos tipos de rituais e, no regime escravocrata, para suportar a opressão do dia-a-dia.
    Tanto aqui como em outros locais do mundo ocidental, a exemplo dos Estados Unidos, a proibição legal da utilização da maconha foi definida nos anos 40. No Brasil, assim como nos EUA, potencializou-se o preconceito da origem, a África. Um preconceito cultural e de classe, sim. Se realmente o que fosse justificar a proibição apenas se resumisse aos efeitos sobre os usuários o álcool não seria liberado, pois é sabido que tem conseqüências muito mais devastadoras no organismo do que a maconha.
    Nos anos 60 e 70, sob a bandeira dos movimentos libertários, como o Hippie, a utilização da maconha vem novamente à baila. E o preconceito também. A contracultura batia-se no questionamento aos valores da sociedade ocidental. Usuário de maconha passou a ser sinônimo de marginal. Em pleno Regime Militar, esse estigma foi avivado sobremaneira.
    A verdade é que o uso de drogas nas comunidades humanas sempre existiu e existirá. Não há como negar tal fato. Cinismo é ver o mundo caminhar para a destruição pelos efeitos do aquecimento global provocado pela sociedade industrial e achar que esse “fim de mundo” seria legalizar drogas.
    Tudo bem, o fato de uma substância ser considerada droga admite-se que tal tenha elementos lesivos ao organismo, e, portanto, destrutivos. Não se pode também negar isso. A apologia à alta-destruição não é o que se prega. Pelo contrário. É entender que o usuário, a depender da sua situação, é um caso de tratamento e não de prisão. E o Estado deve saber quantos potenciais doentes existem na sociedade para, aí sim, lançar mão de políticas públicas preventivas que minimizem o problema que, frisando, é de ordem social. É notório o sucesso das campanhas antitabagistas. De vinte anos para cá o número de fumantes foi drasticamente reduzido, e olha que se trata de outra droga infinitamente mais danosa do que a maconha, ainda que lícita.
    Mas o problema não se encerra aí. Há aqueles que perguntarão sobre a cocaína, o crack e outras drogas de efeitos também devastadores sobre o organismo. A eliminação do comércio da maconha de forma ilegal abalará sobremaneira as finanças do narcotráfico. A venda da maconha, pelo fato de ser o entorpecente ilícito mais popularizado e também utilizado, é o que move o capital de giro dos narcotraficantes para a comercialização das drogas pesadas. E essa queda de receita é determinante para, inicialmente, pôr o narcotráfico de joelhos.
    Choque de interesses
    Retomemos a questão ao ponto de partida. Com um bom atraso a classe política brasileira começa a buscar medidas racionalizadas para o combate ao narcotráfico. Com exceção do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) (e outros poucos), que há anos milita pela legalização do uso da maconha, a maioria dos políticos do país ainda prefere acompanhar seus sensos morais conservadores ou mesmo se esquivar do problema para não se expor. Creio que o Congresso ainda resistirá bastante para tomar medidas mais ousadas.
    E daí surge outro problema de ordem internacional. Para que o país assuma tal política será preciso enfrentar os interesses dos Estados Unidos. A política norte-americana para o controle do tráfico de drogas na América do Sul, se não tem conseguido reduzir o comércio de entorpecentes, pelo menos conseguiu estabelecer-se como praticamente a única agenda assumida em conjunto pelos países sulamericanos, inclusive o Brasil. E esta agenda beneficia as demandas comerciais, sociais e ideológicas dos Estados Unidos.
    A prevalência da agenda dos EUA, ou seja, o combate limitado apenas à repressão militarizada, permite uma eficiente prática de intervencionismo dissimulado e a penetração comercial de empresas norte-americanas, como as que comercializam armamentos, por exemplo. É uma realidade fruto de articulações que os norte-americanos realizam desde o início deste século, com a promoção de encontros e acordos internacionais que vão sendo, um após o outro, assumidos pelos demais países do continente.
    Nesse caso, o enfrentamento ao narcotráfico mediante a legalização de drogas mais leves pode acenar como uma política pública muito mais eficiente do que o estilo “xerife” do Tio Sam. E o que é pior, para eles, claro, os EUA perderiam sua hegemonia nessa frente de interesses. Deixar de vender armas e consultorias para as polícias do Brasil e dos demais países do continente pode não ser um bom negócio para Bush Jr.Está lançado o debate. Espera-se que desta vez o bom senso prevaleça, pois nesse momento que escrevo lamentavelmente vidas estão sendo ceifadas pelo país na disputa de pontos de vendas de drogas.
  • O debate acerca de uma séria questão começa a ganhar claridade e racionalidade no país. No decorrer da semana o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), levantou a proposta da descriminalização das drogas como forma de desarticular o narcotráfico. Em diversos países do mundo essa medida já é realidade e aqui no Brasil o problema ainda vive sob o manto da hipocrisia e do falso moralismo. Enquanto isso, a indústria da morte perpetrada pelo crime organizado continua a atuar mutilando vidas e ameaçando milhares de comunidades pobres país afora. É nas favelas e periferias das grandes cidades que o narcotráfico infiltra-se, desenvolve sua indústria, impõe seu poder e organiza seus centros de distribuição para abastecer o consumo das classes médias e altas. É nessas comunidades também que a polícia invade, assassina inocentes e, junto com os bandidos, impõe o medo às populações. Nesse enredo, tudo pode ocorrer. O marginal visto como mocinho pela população e policiais, delegados e juízes, transvestidos de lei, atuando como marginais em consórcio com o crime. A proibição das drogas gera lucros para muitos. É chegado o momento de encarar o problema de frente.
    A sugestão de Cabral traduz o que um expressivo contingente de profissionais que debatem a questão há anos vem buscando alertar: a droga ilícita é um problema de ordem psicológica, social e de saúde pública, assim como as drogas lícitas, a exemplo do álcool, açúcar, medicamentos vendidos em farmácia etc. Tais situações não podem ser enquadradas como problema policial. O cretinismo, o cinismo e o preconceito das classes dominantes no Brasil, assim como em outros países, é que levaram a entender o consumo de drogas como delito de lesa-moral. Proibiram-nas e permitiram o surgimento de uma sociedade convulsionada, doente.
    Peguemos o exemplo da maconha, cujo nome científico é Canabis Sativa e a substância psicoativa o Tetrahidrocanabinol. Esta tem seus primeiros indícios de uso há mais de cinco mil anos, quando povos como os chineses e persas a utilizavam como incenso em cerimônias religiosas. Era também usada com fins medicinais, o que perdurou até o início do século XX. No Brasil, a droga foi trazida pelos escravos vindos da África que faziam uso em diversos tipos de rituais e, no regime escravocrata, para suportar a opressão do dia-a-dia.
    Tanto aqui como em outros locais do mundo ocidental, a exemplo dos Estados Unidos, a proibição legal da utilização da maconha foi definida nos anos 40. No Brasil, assim como nos EUA, potencializou-se o preconceito da origem, a África. Um preconceito cultural e de classe, sim. Se realmente o que fosse justificar a proibição apenas se resumisse aos efeitos sobre os usuários o álcool não seria liberado, pois é sabido que tem conseqüências muito mais devastadoras no organismo do que a maconha.
    Nos anos 60 e 70, sob a bandeira dos movimentos libertários, como o Hippie, a utilização da maconha vem novamente à baila. E o preconceito também. A contracultura batia-se no questionamento aos valores da sociedade ocidental. Usuário de maconha passou a ser sinônimo de marginal. Em pleno Regime Militar, esse estigma foi avivado sobremaneira.
    A verdade é que o uso de drogas nas comunidades humanas sempre existiu e existirá. Não há como negar tal fato. Cinismo é ver o mundo caminhar para a destruição pelos efeitos do aquecimento global provocado pela sociedade industrial e achar que esse “fim de mundo” seria legalizar drogas.
    Tudo bem, o fato de uma substância ser considerada droga admite-se que tal tenha elementos lesivos ao organismo, e, portanto, destrutivos. Não se pode também negar isso. A apologia à alta-destruição não é o que se prega. Pelo contrário. É entender que o usuário, a depender da sua situação, é um caso de tratamento e não de prisão. E o Estado deve saber quantos potenciais doentes existem na sociedade para, aí sim, lançar mão de políticas públicas preventivas que minimizem o problema que, frisando, é de ordem social. É notório o sucesso das campanhas antitabagistas. De vinte anos para cá o número de fumantes foi drasticamente reduzido, e olha que se trata de outra droga infinitamente mais danosa do que a maconha, ainda que lícita.
    Mas o problema não se encerra aí. Há aqueles que perguntarão sobre a cocaína, o crack e outras drogas de efeitos também devastadores sobre o organismo. A eliminação do comércio da maconha de forma ilegal abalará sobremaneira as finanças do narcotráfico. A venda da maconha, pelo fato de ser o entorpecente ilícito mais popularizado e também utilizado, é o que move o capital de giro dos narcotraficantes para a comercialização das drogas pesadas. E essa queda de receita é determinante para, inicialmente, pôr o narcotráfico de joelhos.
    Choque de interesses
    Retomemos a questão ao ponto de partida. Com um bom atraso a classe política brasileira começa a buscar medidas racionalizadas para o combate ao narcotráfico. Com exceção do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) (e outros poucos), que há anos milita pela legalização do uso da maconha, a maioria dos políticos do país ainda prefere acompanhar seus sensos morais conservadores ou mesmo se esquivar do problema para não se expor. Creio que o Congresso ainda resistirá bastante para tomar medidas mais ousadas.
    E daí surge outro problema de ordem internacional. Para que o país assuma tal política será preciso enfrentar os interesses dos Estados Unidos. A política norte-americana para o controle do tráfico de drogas na América do Sul, se não tem conseguido reduzir o comércio de entorpecentes, pelo menos conseguiu estabelecer-se como praticamente a única agenda assumida em conjunto pelos países sulamericanos, inclusive o Brasil. E esta agenda beneficia as demandas comerciais, sociais e ideológicas dos Estados Unidos.
    A prevalência da agenda dos EUA, ou seja, o combate limitado apenas à repressão militarizada, permite uma eficiente prática de intervencionismo dissimulado e a penetração comercial de empresas norte-americanas, como as que comercializam armamentos, por exemplo. É uma realidade fruto de articulações que os norte-americanos realizam desde o início deste século, com a promoção de encontros e acordos internacionais que vão sendo, um após o outro, assumidos pelos demais países do continente.
    Nesse caso, o enfrentamento ao narcotráfico mediante a legalização de drogas mais leves pode acenar como uma política pública muito mais eficiente do que o estilo “xerife” do Tio Sam. E o que é pior, para eles, claro, os EUA perderiam sua hegemonia nessa frente de interesses. Deixar de vender armas e consultorias para as polícias do Brasil e dos demais países do continente pode não ser um bom negócio para Bush Jr.Está lançado o debate. Espera-se que desta vez o bom senso prevaleça, pois nesse momento que escrevo lamentavelmente vidas estão sendo ceifadas pelo país na disputa de pontos de vendas de drogas.
  • Mais do mesmo

    É incrível a capacidade que os escritores de novelas da Globo têm em literalmente redundar sobre o mesmo tema. Mal acaba um melodrama que ambientava a Gávea e o Leblon, Laços de família, para entrar outro ambientado em Copacabana e adjacências, Paraíso tropical. Cansou. O Brasil reduzido ao Rio de Janeiro, ou melhor, à Zona Sul da cidade, é o único cenário que a Vênus Platinada oferece. No mais, mais do mesmo. Fotos aéreas do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara e outros cartões postais. É como se um país-continente como o Brasil se limitasse apenas a uma cidade. E, podem esperar, a despeito do novo roteiro vem mais lutas entre o bem e o mal. Mocinhos e bandidos vão se degladiar novamente na telinha para o deleite de milhares de Homer Simpsons que perfazem a audiência das telenovelas no país.
  • O bate-boca ocorrido anteontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado entre o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL) e um estudante universitário deu o tom da semana no Congresso Nacional. Presidindo os trabalhos naquela comissão para acelerar um pacote de medidas de combate à criminalidade, ACM, muito ao seu estilo, não aceitou a intervenção do estudante quando se debatia a redução da maioridade penal. Chamou-o de palhaço. O jovem retrucou: “fascista!”. Bem aplicado! Aliás, ACM nunca vestiu tão bem uma carapuça que lhe cabe como uma luva, exemplar modelito para o coronel decadente.
  • Coerência histórica

    Há dois dias que o jornal A Tarde vem divulgando matérias acerca das ações futuras na Bahia do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O MST programa ocupar 50 propriedades improdutivas no Estado. A informação foi dada ontem (27) durante audiência com o atual secretário de Combate à Pobreza Valmir Assunção (foto). As ocupações integram uma série de outras ações país afora e objetivam relembrar os 11 anos do massacre do Eldorado de Carajás, quando centenas de militantes do MST foram assassinados pela Polícia Militar do Pará. O outro objetivo é exigir mais celeridade no Programa de Reforma Agrária do Governo Federal. E novamente vem à baila a mesma cantinela de sempre com os mesmos e viciados clichês: “ocupações de terra são ilegais, ameaçam à paz e contrariam o direito e as leis”. Quem conhece Valmir Assunção sabe que se trata de homem íntegro e de caráter e, como tal e militante há décadas do MST, ele não renunciará suas raízes políticas e ideológicas no intuito de empanar o grave problema da concentração fundiária. Na Bahia, 26 mil famílias vivem em acampamentos por falta de terra para produzir. A classe política e os meios de comunicação desse país devem aprender a conviver num regime democrático participativo e não apenas representativo. O fato de um líder de determinado movimento social assumir posto de comando na estrutura do Estado é um avanço nesse sentido. Um Estado em transformação é aquele que encara as contradições de uma sociedade dividida em classes e busca avançar no sentido de superá-las. Se existe a demanda social é porque historicamente esta se consolidou. Ao contrário de um Estado que simplesmente reprime e toma partido de fazendeiros e capangas, um Estado efetivamente democrático reconhece o problema e marcha com a história. A linguagem utilizada pela jornalista Lenilde Pacheco, que assina uma das matérias publicada hoje (28/02) pelo jornal A Tarde, dá o tom do preconceito: “(…) o barulhento MST (…)”. No mesmo diapasão, os deputados Heraldo Rocha e Gildásio Penedo, ambos do PFL e fontes ouvidas pela matéria, retomam o discurso conservador. O primeiro considerou “gravíssima” a atitude de Valmir Assunção em receber uma pauta de reivindicações do MST e o segundo argüiu que o mesmo deveria estar defendendo o “direito e as leis”. Não há direito onde não existe o direito à moradia, educação, saúde, alimentação e lazer. O “sacrossanto direito” à propriedade perde validade quando esta propriedade nada produz, apenas especula e impede que milhares de famílias tirem o seu sustento e o dos seus filhos. Como representantes dos interesses dos grandes empresários rurais ligados ao agrobusiness e latifundiários, é compreensível a posição de Heraldo Rocha e Gildásio Penedo. Para estes, o “normal” é que o Estado tenha no seu bojo a representação dos interesses dominantes, dos magnatas, mas quando se trata de algum líder ligado aos movimentos sociais, aí se torna heresia. Prefiro ser herege.
  • Coerência histórica

    Há dois dias que o jornal A Tarde vem divulgando matérias acerca das ações futuras na Bahia do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O MST programa ocupar 50 propriedades improdutivas no Estado. A informação foi dada ontem (27) durante audiência com o atual secretário de Combate à Pobreza Valmir Assunção (foto). As ocupações integram uma série de outras ações país afora e objetivam relembrar os 11 anos do massacre do Eldorado de Carajás, quando centenas de militantes do MST foram assassinados pela Polícia Militar do Pará. O outro objetivo é exigir mais celeridade no Programa de Reforma Agrária do Governo Federal. E novamente vem à baila a mesma cantinela de sempre com os mesmos e viciados clichês: “ocupações de terra são ilegais, ameaçam à paz e contrariam o direito e as leis”. Quem conhece Valmir Assunção sabe que se trata de homem íntegro e de caráter e, como tal e militante há décadas do MST, ele não renunciará suas raízes políticas e ideológicas no intuito de empanar o grave problema da concentração fundiária. Na Bahia, 26 mil famílias vivem em acampamentos por falta de terra para produzir. A classe política e os meios de comunicação desse país devem aprender a conviver num regime democrático participativo e não apenas representativo. O fato de um líder de determinado movimento social assumir posto de comando na estrutura do Estado é um avanço nesse sentido. Um Estado em transformação é aquele que encara as contradições de uma sociedade dividida em classes e busca avançar no sentido de superá-las. Se existe a demanda social é porque historicamente esta se consolidou. Ao contrário de um Estado que simplesmente reprime e toma partido de fazendeiros e capangas, um Estado efetivamente democrático reconhece o problema e marcha com a história. A linguagem utilizada pela jornalista Lenilde Pacheco, que assina uma das matérias publicada hoje (28/02) pelo jornal A Tarde, dá o tom do preconceito: “(…) o barulhento MST (…)”. No mesmo diapasão, os deputados Heraldo Rocha e Gildásio Penedo, ambos do PFL e fontes ouvidas pela matéria, retomam o discurso conservador. O primeiro considerou “gravíssima” a atitude de Valmir Assunção em receber uma pauta de reivindicações do MST e o segundo argüiu que o mesmo deveria estar defendendo o “direito e as leis”. Não há direito onde não existe o direito à moradia, educação, saúde, alimentação e lazer. O “sacrossanto direito” à propriedade perde validade quando esta propriedade nada produz, apenas especula e impede que milhares de famílias tirem o seu sustento e o dos seus filhos. Como representantes dos interesses dos grandes empresários rurais ligados ao agrobusiness e latifundiários, é compreensível a posição de Heraldo Rocha e Gildásio Penedo. Para estes, o “normal” é que o Estado tenha no seu bojo a representação dos interesses dominantes, dos magnatas, mas quando se trata de algum líder ligado aos movimentos sociais, aí se torna heresia. Prefiro ser herege.
  • A guerra midiática já está em curso na Bahia. O alvo é a gestão do governador Jaques Wagner (PT), uma das estrelas emergentes do partido e cotado à sucessão do presidente Lula em 2010. Não, de forma alguma as elites nacionais e o projeto neoliberal admitirão que outro sindicalista assuma a Presidência da República. Ao impor uma derrota amarga ao carlismo na Bahia e iniciar seu desmonte, o governador do Estado deve ficar atento às investidas que, de agora em diante, serão cada vez mais freqüentes por parte do aparato de mídia pertencente ao senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), parceiro econômico e político da Rede Globo de Televisão.
    Aos fatos. Após o contundente discurso de Wagner na abertura do ano Legislativo na Assembléia do Estado (ver post neste blog), a crise envolvendo o governo e oposição, esta última encarnada no grupo de ACM, ganhou mais um contorno na agenda local. Em matéria divulgada pelo jornal A Tarde na última quinta-feira, dia 22/02, com destaque para chamada de capa, Jaques Wagner acusou a Rede Globo de ter dado destaque à violência no Carnaval baiano. Segundo ele, a matéria exibida pelo Jornal Nacional no último dia da folia, terça-feira, informava o acréscimo de 30% no número de ocorrências policiais registradas no evento desse ano em relação ao ano passado. Na opinião de Wagner, esta teria sido açodada por parte da Vênus Platinada. O governador rebateu com veemência: “Não sei a quem a Globo está prestando o serviço de difamar o Carnaval da Bahia”, alfinetou.
    O petardo tem endereço certo. Wagner sabe que tudo que possa macular sua imagem no Estado será feito pelo grupo político agora na oposição. No caso em questão, estamos diante de uma bem estruturada estratégia de mídia. Analisemos por dois aspectos.
    O primeiro repousa na forma e maneira encontrada pelas reportagens para dar dimensão ao fato. O enquadramento das notícias seguiu um curso determinado para torná-las negativas. Foi visível a todos que durante os dias da festa o Jornal Nacional apresentou, ou melhor, enquadrou o Carnaval da Bahia como “violento”, apenas. Não se preocupou, em nenhum momento, em trabalhar a informação contextualizando os dados estatísticos. Mais de um milhão de pessoas nas ruas por dia e 1200 registros de roubos e furtos e duas mortes é considerada uma média previsível pelos técnicos e autoridades em segurança pública em se tratando de um evento dessa dimensão. Um disparo contra uma van na periferia da cidade (fora do circuito do Carnaval) e a lamentável morte de uma criança foi realçado pelo Jornal Nacional como resultado da violência na folia baiana. O já falecido sociólogo e jornalista Perseu Abramo, em um ensaio sobre padrões de manipulação na grande mídia, aponta o padrão da inversão como uma das táticas de manipulação. Diz ele: “Fragmentando o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, intervém o padrão da inversão, que opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial de outra realidade”. Foi exatamente isso o que ocorreu.
    Tal expediente coaduna-se com os intentos políticos da Rede Globo e sua parceira comercial-política, a Rede Bahia. Importante ressaltar que o ataque ao Carnaval da Bahia desse ano e, indiretamente, a Jaques Wagner, como já dito, tem o propósito de angariar dividendos políticos. Uma administração pautada no sucesso por parte deste refletirá no tabuleiro sucessório de 2010. Sabe-se que o PT e a coligação de partidos que o apóia no Governo Federal ainda não dispõe de quadros fortes para o próximo pleito. Wagner pode ser um e, diante mão, melhor bombardeá-lo no nascedouro. O Carnaval de Recife desse ano teve mais mortes do que o de Salvador, por quê a Globo então não destacou? E no Rio de janeiro? Lá foi tudo em paz? Ficam as perguntas. Outra: quem conhece a trajetória política do dono da Rede Bahia, o senador ACM, sabe muito bem o que ele pode fazer de agora em diante para recompor seu espaço político perdido. Órfão da Prefeitura e dos governos do Estado e Federal, o carlismo usará de todos os expedientes possíveis, inclusive os mais antiéticos e deploráveis, para retornar ao poder.
    Outro fator é de caráter comercial. Desde que a Rede Bandeirantes começou a transmitir o Carnaval de Salvador seus índices de audiência vêm crescendo a cada ano e batido os índices da Globo no período. O Carnaval de Salvador já está sendo mais assistido no Brasil do que os desfiles das escolas de samba. Por sua vez, a afiliada da Vênus Platinada na terra, a TV Bahia, só contou com um grande cotista para bancar a publicidade na transmissão do Carnaval baiano, que ela fez para consumo regional. Apenas uma marca de tintas anunciou. Impedida de transmitir a folia ao vivo na maior parte dos horários da noite, engessada pelo Big Brother, o Sambódromo e o seriado Lost, restou à TV Bahia falar do evento da própria terra quase à meia noite. A Globo, por seu turno, como não abre mão de que o Brasil inteiro assista ao desfile das escolas de samba, um bairrismo que a emissora não assume mas que é patente, busca desconstruir a pluralidade de opções. E com um carioquismo exacerbado, não admite que o Estado do Rio perca receitas em turismo para a Bahia. Um bairrismo, diga-se, que se explica sobretudo pela questão econômica e, no que tange à Bahia de Wagner, com acentuada relevância política.
  • A guerra midiática já está em curso na Bahia. O alvo é a gestão do governador Jaques Wagner (PT), uma das estrelas emergentes do partido e cotado à sucessão do presidente Lula em 2010. Não, de forma alguma as elites nacionais e o projeto neoliberal admitirão que outro sindicalista assuma a Presidência da República. Ao impor uma derrota amarga ao carlismo na Bahia e iniciar seu desmonte, o governador do Estado deve ficar atento às investidas que, de agora em diante, serão cada vez mais freqüentes por parte do aparato de mídia pertencente ao senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), parceiro econômico e político da Rede Globo de Televisão.
    Aos fatos. Após o contundente discurso de Wagner na abertura do ano Legislativo na Assembléia do Estado (ver post neste blog), a crise envolvendo o governo e oposição, esta última encarnada no grupo de ACM, ganhou mais um contorno na agenda local. Em matéria divulgada pelo jornal A Tarde na última quinta-feira, dia 22/02, com destaque para chamada de capa, Jaques Wagner acusou a Rede Globo de ter dado destaque à violência no Carnaval baiano. Segundo ele, a matéria exibida pelo Jornal Nacional no último dia da folia, terça-feira, informava o acréscimo de 30% no número de ocorrências policiais registradas no evento desse ano em relação ao ano passado. Na opinião de Wagner, esta teria sido açodada por parte da Vênus Platinada. O governador rebateu com veemência: “Não sei a quem a Globo está prestando o serviço de difamar o Carnaval da Bahia”, alfinetou.
    O petardo tem endereço certo. Wagner sabe que tudo que possa macular sua imagem no Estado será feito pelo grupo político agora na oposição. No caso em questão, estamos diante de uma bem estruturada estratégia de mídia. Analisemos por dois aspectos.
    O primeiro repousa na forma e maneira encontrada pelas reportagens para dar dimensão ao fato. O enquadramento das notícias seguiu um curso determinado para torná-las negativas. Foi visível a todos que durante os dias da festa o Jornal Nacional apresentou, ou melhor, enquadrou o Carnaval da Bahia como “violento”, apenas. Não se preocupou, em nenhum momento, em trabalhar a informação contextualizando os dados estatísticos. Mais de um milhão de pessoas nas ruas por dia e 1200 registros de roubos e furtos e duas mortes é considerada uma média previsível pelos técnicos e autoridades em segurança pública em se tratando de um evento dessa dimensão. Um disparo contra uma van na periferia da cidade (fora do circuito do Carnaval) e a lamentável morte de uma criança foi realçado pelo Jornal Nacional como resultado da violência na folia baiana. O já falecido sociólogo e jornalista Perseu Abramo, em um ensaio sobre padrões de manipulação na grande mídia, aponta o padrão da inversão como uma das táticas de manipulação. Diz ele: “Fragmentando o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, intervém o padrão da inversão, que opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial de outra realidade”. Foi exatamente isso o que ocorreu.
    Tal expediente coaduna-se com os intentos políticos da Rede Globo e sua parceira comercial-política, a Rede Bahia. Importante ressaltar que o ataque ao Carnaval da Bahia desse ano e, indiretamente, a Jaques Wagner, como já dito, tem o propósito de angariar dividendos políticos. Uma administração pautada no sucesso por parte deste refletirá no tabuleiro sucessório de 2010. Sabe-se que o PT e a coligação de partidos que o apóia no Governo Federal ainda não dispõe de quadros fortes para o próximo pleito. Wagner pode ser um e, diante mão, melhor bombardeá-lo no nascedouro. O Carnaval de Recife desse ano teve mais mortes do que o de Salvador, por quê a Globo então não destacou? E no Rio de janeiro? Lá foi tudo em paz? Ficam as perguntas. Outra: quem conhece a trajetória política do dono da Rede Bahia, o senador ACM, sabe muito bem o que ele pode fazer de agora em diante para recompor seu espaço político perdido. Órfão da Prefeitura e dos governos do Estado e Federal, o carlismo usará de todos os expedientes possíveis, inclusive os mais antiéticos e deploráveis, para retornar ao poder.
    Outro fator é de caráter comercial. Desde que a Rede Bandeirantes começou a transmitir o Carnaval de Salvador seus índices de audiência vêm crescendo a cada ano e batido os índices da Globo no período. O Carnaval de Salvador já está sendo mais assistido no Brasil do que os desfiles das escolas de samba. Por sua vez, a afiliada da Vênus Platinada na terra, a TV Bahia, só contou com um grande cotista para bancar a publicidade na transmissão do Carnaval baiano, que ela fez para consumo regional. Apenas uma marca de tintas anunciou. Impedida de transmitir a folia ao vivo na maior parte dos horários da noite, engessada pelo Big Brother, o Sambódromo e o seriado Lost, restou à TV Bahia falar do evento da própria terra quase à meia noite. A Globo, por seu turno, como não abre mão de que o Brasil inteiro assista ao desfile das escolas de samba, um bairrismo que a emissora não assume mas que é patente, busca desconstruir a pluralidade de opções. E com um carioquismo exacerbado, não admite que o Estado do Rio perca receitas em turismo para a Bahia. Um bairrismo, diga-se, que se explica sobretudo pela questão econômica e, no que tange à Bahia de Wagner, com acentuada relevância política.
  • Luxuoso, sofisticado e caloteiro. Assim pode ser descrito o Hospital da Bahia, um dos empreendimentos do grupo Fator localizado no Loteamento Aquárius, bairro da Pituba. Na tarde e ontem, quando acompanhava a companheira que era submetida a um exame de ultrassonografia na referida instituição, ocorreu uma queda de luz em plena avaliação. Curioso, indaguei ao médico o que tinha ocorrido. De forma vaga e evasiva, ele me disse que ocorrera “uma interrupção no fornecimento de energia em decorrência das atividades de um canteiro de obras que se encontra ao lado do hospital”. E se fosse uma cirurgia? É sabido por todos que unidades hospitalares são dotadas de sistemas de geração de energia independentes e não podem ficar suscetíveis a intempéries desse tipo. À noite, tendo contato com alguns amigos que atuam em órgãos de imprensa de Salvador, fui informado que o Hospital da Bahia deve R$ 8 milhões à concessionária de energia local. Esta já havia enviado releases à imprensa informando a situação. O médico mentiu. Se foi orientado para tal, não se sabe. O fato é que o grupo Fator é uma das empresas mais complicadas da praça. Não só deve contas de luz, como também de telefone e, quiçá, a outros fornecedores também. Àqueles que têm investimentos em projetos tocados pelo Grupo Fator, um aviso: cuidado para não estar diante de uma nova Encol, a construtora que lesou milhares de clientes Brasil afora. São os tubarões do sistema de saúde privado que lucram junto com os planos de saúde e põem em risco a vida das pessoas.