A questão em si não deve se limitar a ter ou não corda nos blocos, isso é secundário. Nos idos dos anos 70 e 80 os blocos carnavalescos em Salvador eram associações de pessoas que se conheciam ou passavam a se conhecer através de amigos comuns. Assim eram os blocos populares, os da classe média e média-alta e até mesmo de intelectuais, artistas e escritores. Todos tinham cordas. Claro, o Carnaval não sepultava as contradições sociais, estas permaneciam e eram evidentes ao longo da folia, todavia existia, sim, a participação popular mais autêntica. Organizar um bloco era um fator de sociabilidade durante o ano, em diversos sentidos.
À medida que a música tocada em cima dos trios elétricos passou a ser alvo de intensa veiculação, leia-se o fenômeno da indústria do Axé Music, os artistas que as interpretavam passaram a “dourar a pílula” desses blocos. A partir daí, aqueles que se destacavam eram contratados pelas agremiações que então cobravam mais pelo fato de ter os artistas de melhor qualidade em seus trios.
Essa é a raiz da crescente exclusão e não há como negar. Quem não se lembra da Banda Scorpius? Aquela mesma que animava os bailes de domingo à tarde no antigo Clube Costa Azul, de aprazíveis carnavais de salão, hoje é a Chiclete com Banana e seus integrantes são artistas milionários. No entanto, se contabilizarmos quantos desses artistas que já produziram para a folia baiana se “deram bem” em meio à selva empresarial que se formou em torno da festa, veremos que são poucos se comparados à quantidade desses compositores e cantores que figuraram para a história quase que no anonimato.
O cerne da questão está centrado na forma de empresariamento. Ter que organizá-la é uma realidade inconteste, afinal de contas não dá para colocar mais de um milhão de pessoas nas ruas sem planejamento. Todavia, o que se prescinde é de uma atuação mais enfática do poder público para garantir a democratização e a participação popular. O Galo da Madrugada, que sai no sábado de Carnaval no Recife, considerado o maior bloco do mundo, é um exemplo de ampla participação, assim como a experiência do circuito Batatinha no Pelourinho, em Salvador.
Evidentemente que uma mudança de curso na programação da folia vai mexer com interesses milionários que pairam sobre a mesma. Mas interesses terão que ser atingidos de alguma forma para que prevaleça o interesse maior, o da população. Os chamados circuitos principais não devem ser exclusivos dos blocos para turistas abonados ladeados por camarotes de personalidades. Há que se contemporizar esse espaço entre aqueles que assistem e se deleitam no ar-condicionado, ou mesmo no asfalto privatizado, e o verdadeiro protagonista da festa que é o povo de Salvador, de onde surgem as composições que animam todos os anos as multidões e servem como combustível para enriquecer uma meia dúzia de pessoas. É compreensível o desabafo de Brown.

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